
Termino em beleza o curso, com um estágio numa terra pequenina que fica aos pés da Serra da Estrela.
E enquanto mergulho nos mistérios do nosso corpo (com tanta maquinaria, não sei como é que não andamos mais doentes!...) e preparo o exame que se avizinha, tinha de vos apresentar uns amigos, com quem aprendi muito.
E enquanto mergulho nos mistérios do nosso corpo (com tanta maquinaria, não sei como é que não andamos mais doentes!...) e preparo o exame que se avizinha, tinha de vos apresentar uns amigos, com quem aprendi muito.
Vejo chegar ao SAP o Sr. José velhinho, com uma filha grávida ao lado, a quem faltam alguns dentes. Avisa-me que o pai é muito surdo e a partir daí a conversa decorre num tom acima do normal. Ainda assim, entendo-o melhor a ele do que a ela, que me parece ter algum défice. A queixa? É que o Sr. José, que tem a forma de um ponto de interrogação, todo dobradinho sobre si mesmo e sem conseguir olhar-me o rosto a não ser que eu desça ao nível da sua cara, anda a ouvir mal há uma semana. E a gente chama por ele e não responde. Doer não dói, mas anda entupido!... E queria que a Sra. Doutora lhe visse os ouvidos. De resto está fino, não precisa de mais nada. E não adiantou perguntar por mais queixas. O Sr. José, em forma de ponto de interrogação, só queria ouvir melhor. Realmente, vou espreitar e dois rolhões de cerúmen obstruíam os seus canais auditivos. Mas vem uma urgência e outra e outra, mais urgentes que os ouvidos do Sr. José dobradinho. Pedimos-lhe que espere no cadeirão e ele espera. Espera, espera. Passadas duas horas, vem perguntar se ainda demora muito. É que ele está com pressa. Mas para onde é que quer ir, Sr. José? Tem os filhos para criar, é?... Mas ele está com pressa. E passado 3 horas e sem termos conseguido tempo para cuidar do Sr. José, ele vem dizer, curvadinho e em voz muito alta, que se vai embora porque não pode esperar mais. Depois disse-me porquê. É que o Sr. José, em forma de ponto de interrogação, que mal caminha, magrinho e desdentado, mas que só se queixa de não ouvir bem, tem de ir buscar as ovelhas que estão lá sozinhas no monte. Não as posso deixar lá, sabe menina? Se eu lá não for, elas ficam lá. E não podem ficar sozinhas… E enquanto se segura ao meu braço com a mão a tremer, vejo os seus olhos pequeninos tristes, pelas ovelhas que estão lá sozinhas. E despacho-me a acabar o trabalho de limpar-lhe os ouvidos. Pelo menos com o mesmo carinho com que este pastorzinho já viúvo trata das suas ovelhas.
Depois, o Sr. Manuel. A esposa está acamada há vários anos e ele, velhinho mas autónomo, vivia em casa com ela. Abre o lar e a esposa é internada. Ele está lá durante o dia e vai dormir a casa. De manhã à noite é o cuidador da sua Maria. Nunca vi enfermeiro mais dedicado. Molha-lhe os lábios secos, conta as horas para ver se a hora do iogurte a meio da manhã já chegou, controla-lhe a diabetes, aplica-lhe o creme e refila com toda a gente que falhe nos cuidados à esposa, de quem se ouvem raras palavras. Às vezes nem o reconhece e chama-lhe pai. E realmente é enfermeiro, pai, marido, irmão, companheiro de vida. Um dia perguntei-lhe pela saúde. E diz-me que está fino, que não tem nada. Que só está ali para cuidar da esposa. Que é para isso que vive. Enquanto abro a boca de espanto (a do coração, pois, que a outra teve de inquirir), pergunto-lhe como é que faz tudo isto, porquê?... E ele, com a maior das simplicidades, diz: “Ó menina, sabe, a minha mulher toda a vida cuidou de mim. Então não havia agora de cuidar eu dela? Quando eu precisei nunca faltou e olhe que já estive às portas da morte… Agora vivo para ela.” E só pude calar-me.
O Sr. João. Canta todo o dia. Velhinho, mas em boa forma, tem as doenças da idade e de uma vida de trabalho, nem sempre com os cuidados que precisaria. Diz sempre que está bom para ir para a cova, mas canta todo o dia. Não é preciso rádio na sala de estar. Uma após outra, não consegui descobrir onde vai buscar tantas letras. Canta histórias de amores e desamores, de guerra e partidas e chegadas, de mães e filhos, de apaixonados, de festas populares, de trabalho no campo... E assim, vai enchendo de música o lar. Mas, chega a hora da consulta. “Ó Sr. João, a sua tensão está muito alta e o açúcar nem se fale! As últimas análises mostram que anda a comer o que não deve… E como é que vamos diminuir o tamanho das suas pernas, quer dizer-me? Não anda a fazer o que lhe dissemos!…” O Sr. João, viúvo, vem só passar o dia ao Centro e dorme em casa. “Sabe, Sra Dra., eu sei que tem razão, mas… quem me conhece sou eu. E digo-lhe que se não fossem estas coisas, eu já cá não estava. E tem razão, não fiz o medicamento para urinar que me deu. É que sabe? Esta coisa de estar sempre a ter que ir fazer xixi!... É que eu faço como as meninas, tiraram-me o órgão… Ao que um homem chega!...” Estas coisas?... Meio litro de vinho com meio de coca-cola e uma chouriça em álcool, uns pastéis de bacalhau ou uma morcela, antes de ir dormir. É o seu momento do dia. “Se canto? São saudades, Sra. Dra!...”
O Sr. António. Muito velhinho. Ouve mal. Mas apresenta-se como um cavalheiro. Colete bem posto que condiz com a bengala em que se apoia e com o discurso trabalhado com que fala. Não percebe muito bem porque o chamei à consulta, mas depois de sair da mira do olhar desconfiado da esposa que nunca o larga, mostra-se aliviado por irmos falar só os dois. Estive com ele hora e meia. Vi-o, ouvi-o longamente. No final diz-me: “Sra. Dra.: permita-me que lhe diga. Tenho 93 anos e foi preciso esperar por esta idade para ter uma verdadeira consulta!... Não percebi porque é que me chamou, mas agora já entendo. Nunca ninguém me tinha espreitado tanto. A Sra. Dra. viu-me todo!... Estou muito admirado e agradeço-lhe muito esta conversa. Não me vou esquecer deste seu gesto admirável…” Não encontrei nada para lhe responder com a mesma pompa, mas sorri-lhe e só me apeteceu abraçá-lo… Mas mudei logo de ideias. Lá vinha a D. Maria de olhar desconfiado a entrar pelo gabinete pela 3ª vez, ver o que é que tinha acontecido ao marido.
Um dia uma amiga contou-me que lhe fizera uma impressão imensa quando, depois de uma crise, dessas que todo o ser humano tem, que mete algumas lágrimas, algumas dúvidas, alguma angústia, escura e sem saída aparente, se abeirou de alguém de quem procurou ajuda e ouviu: “O que te pesa?...” Nunca me esqueci desta. O que te pesa? Mas, quê?, isso interessa-te? Porque haveria de interessar?...
E enquanto os senhores engravatados se maltratam na Assembleia, o país real, esse que mora em terrinhas pequenas aos pés da Serra, que tem ovelhas para cuidar e não tem dentes nem esgotos em casa, que é fiel aos compromissos que assumiu para sempre, para sempre, que procura engolir a solidão de ser só mais um inútil com a coca-cola e o meio quartil, que só precisava de ser todo olhado e todo escutado, esse país de gente rija que ama o trabalho e sabe o que é lealdade, esse país sofre. A esses pequeninos que se dão aos mãos para se aguentarem na vida, onde talvez tu e eu caibamos também, nunca ninguém perguntou nada. Queres dizer-me tu? Amigo, o que te pesa?
Aos sábios velhinhos que me ensinaram a tirar pesos dos ombros dos outros
19 de Julho de 2010
Bonito Cátia! Sim, a vida passa por aqui, com muito tempo, muita perseverança,muito trabalho, muita fidelidade, muito sofrimento, muito silêncio, muita solidão muita esperança, muita fé, muito Amor! Esta sim, é VIDA.
ResponderEliminarbeijinho,
ir. Carmo
Também não encontro nada para responder com a mesma pompa, salvo apenas um pequeno e sincero sorriso :)
ResponderEliminarMourinho
Cátia,
ResponderEliminaré o meu coração que bate palmas a estas tuas palavras, às vidas simples e tão ricas daqueles que aqui homenageias. e só te posso dizer "obrigada". Obrigada por teres tu os cinco sentidos e o grande coração que tens para ouvires por mim e por todos aqueles que inventamos 100 coisas tão importantes para fazer, que no final nada valem, em vez de termos tempo para parar e perguntar "que lhe pesa?". No final, pesar-nos-à o coração, quando tivermos que prestar contas pela vida que não vivemos como devíamos.
Obrigada, Cátia. E um beijo!
Sofia Fernandes
Querida Cati!
ResponderEliminarPor muitos motivos, gostei imenso deste texto. Obrigada por teres partilhado a tua experiência!
Um beijinho,
A. Margarida