domingo, 25 de outubro de 2009

Lágrima


Porque estou triste.
Porque estou emocionada.
Porque a alegria transborda no estado líquido.
Porque derreto.
Porque estou a caminho de casa.
De uma forma ou de outra, ela cai. E eu não posso fazer nada.
Engulo em seco e ponho-me a cantar, para ver se ela seca e quem passa na rua não se apercebe. “Sente-se bem, menina?”, “Precisa de alguma coisa?”, “Posso ajudar?”…
É assim… as lágrimas comovem. E quem as vê põe-se a imaginar a história que terá conduzido a elas, tenta entrar no jardim que eu cuidadosamente fechei primeiro… Mas aos transeuntes incomoda… “Se puder fazer alguma coisa…”
Não se sabe explicar muito bem a fisiologia deste sistema, onde moléculas e mistério se misturam. Mas, tal como a fome ou a morte, as lágrimas são do mais natural que temos.
A quem vê, elas recordam da humanidade que congelamos tantas vezes e outras tantas escondemos, como se fosse pecado ser pequeno. E chamam-lhe fraqueza.
A lágrima foi a solução que o Criador arranjou para a pequenez das palavras, que são grandes, muito grandes e muito belas, mas… é tão maior o mistério que trazemos dentro, a avalanche de emoções e desejos, de sonhos e de angústias, de alegrias e tristezas que… só palavras, não chegava. E eis que elas se soltam e desfocam os olhos, como que para deixarmos de olhar para fora e nos concentrarmos um instante na feridazinha que foi aberta.
É então que chega alguém, que não precisas de olhar porque os passos reconheces. E a voz quente também. E mesmo sem palavras, que a partir de agora já não chegam, falam, falam, falam… E no final, ao ouvido, canta-te devagarinho um fado, que trazia na manga. E dá-te um abraço que te seca a cara molhada. E só aí se apercebe de como são salgadas, essas lágrimas! Até o sal têm do mar! Para além da infinitude, para além da profundidade, para além da beleza… E como ao mar, para as poder olhar é preciso calar-se e parar um instante sem tempo marcado. E ele vai e vem. E elas vêm e vêm… Nem todos conseguem ouvir o que diz o mar. Nem todos são dignos de as ver cair e de as contar.
Por isso o portãozinho fica fechado, até que ele chegue. Esse que de médico sabe algumas coisas e que põe a mão na ferida sem doer. E a limpa. E a cobre. E como a mãe ao joelho roto, dá-lhe um beijinho, dizendo: “Já passou.”
Se as pessoas não riem mais é porque andam por aí a sangrar. E a engolir em seco.
Tens um bocadinho?
25 de Outubro de 2009
A todas as asas que não se importaram que as molhasse alguma vez

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A cachupa da vida




Ao som de um colchão a encher com a força do pé, de 2 chinesas a falar um língua estranha, ao lado de 2 ou 3 grupinhos de voluntárias a ler, de muitas gargalhadas e conversas ao fundo dos contentores, no meio de garrafas Luso vazias que jazem pelo chão na espuma dos banhos improvisados, sob um Céu de nuvens que nunca chovem, sob uma Lua que é o único candeeiro da rua cheia de sal e lama e cheiro a "katinga"... às 23h desta ilha da Boavista, com os calções arregaçados enquanto o creme das melgas seca e com os cabelos molhados pela água bendita do chuveiro que só existe para nós e para o Hotel Rio e não para o resto da ilha, com a barriguinha cheia de esparguete depois de um dia de trabalho a aliviar os corpinhos chupados da fome que vi todo o dia... Aqui estou.

O coração chora e os olhos também. Hoje percebi o que é dar de comer com os meus cinco pães. Até já os dois peixes começam a escassear e só nos sobram as mãos e as palavras para consolar um povo que tem pílula de graça, mas come uma vez por dia.

Estes são meus irmãos de voo também.

Nós não chegamos a nada. Não valemos nada. A nossa sede é a mesma, a nossa fome a mesma, os nossos sofrimentos, a nossa falta de forças e a nossa indignação é a mesma. Quanta solidão, quanto abandono... Quanta indignidade se oferece a esta gente!... E quereria trocar de lugar com a moça que tem um tiróide de livro e com o menino cujo brinquedo é um maço de cigarros usado com duas pilhas ferrugentas dentro... E com o jovem que quereria estudar direito internacional... E com o jogador de futebol lesionado...

Devolver esperança a quem foi roubado. Na comida também, no salário justo também. Mas essencialmente roubado na esperança. Na dignidade. E ao olhar para ti, que te pões a jeito para que te abracem sem medo de sujar a bata, eles reconhecem a sua humanidade, que já tinham esquecido. E curiosamente é aí que tu também vais desencantar a tua. E ensinam-se mutuamente o que é sonhar e reconhecem aí um mesmo horizonte que querem acreditar estar a ver lá ao fundo... Está ali, não vês? Vamos elevar-nos mais uns metrozitos neste céu de cristal e vais ver como está mesmo ali o sonho que viste quando finalmente conseguiste fechar os olhos no teu metro quadrado de casa, a cheirar a porcaria, só porque alguém se esqueceu que era teu companheiro de voo.

Obrigada por me teres deixado entrar na tua vida.

Obrigada pela cachupa da vida, onde depois de misturares a solidão, o sofrimento, a angústia, a esperança, a simplicidade, a fé, a alegria e a humildade, e ao som de uma coladeira que quiseste dançar comigo, me teres oferecido do mesmo prato onde tu comes. Sem precisar de talheres.


E como já falei de mais, vou deixar que a tua voz se faça ouvir também. Não encontrei melhor fotografia para Cabo Verde do que aquela que um dos teus filhos te tirou. E eu, de lagrimita no olho, vou relê-la e cantar "sodade, sodade...!"



7 de Agosto de 2009
Ao Ovani, ao Cesário, ao Igualdino e aos seus irmãos todos
Às voluntárias que voaram comigo

Carta ao meu irmão


Querido maninho:

Quando te vi, senti-me ridícula.

Eu, já grande, senhora de mim, convencida de saber muitas coisas, de estar mais autónoma nestes primeiros passos do mundo que chamam dos adultos, que dediquei tantas horas e tantos cotovelos a tentar perceber porque é que a glicose devia entrar por um portãozinho na membrana dianteira das células que fazem fila da frente no intestino para chegar ao nosso sangue, para depois ser levada até às outras células irmãs espalhadas pelos 4 cantos do corpo para entrar depois numa dança em roda a que gostam de chamar ciclo de Krebs, para depois dar uma moléculazita com um nome muito estranho, dizem-na adenosina trifosfato, para depois essas mesmas células a poderem utilizar para fazerem o seu trabalhinho de células: multiplicar-se, crescer, morrer (porque também para morrerem precisam de energia), produzirem proteínas e outras primas, etc, etc, etc… Muitas horas, mesmo… E esta não é senão a lei mais básica do funcionamento de qualquer ser vivo… Se soubesses, maninho, a quantidade de outras leis e danças que se passam dentro de nós, passavas-te, como eu me passei muitas vezes, mas por ter de as decorar…
Mas, dizia eu, que ao ver-te senti-me ridícula. Por me ter passado alguma vez pela cabeça que sabia alguma coisa, que conhecia alguma coisa.
Enquanto se escrevem livros de texto imensos em imensas línguas, enquanto se publicam mais de 1000 artigos por dia, enquanto os políticos nos parlamentos decidem as nossas vidas, enquanto se fazem belos discursos pelo mundo fora e se fazem negócios de milhões, enquanto se inventam máquinas extraordinárias e se canta e dança e bebe e grita, tu estás aqui, maninho, à minha frente, a contar-me a tua história, que se calhar nunca vai fazer história. Ainda nem te deram o nome oficial, que é António, e já marcaste a minha vida, vês? Obrigada pela bofetada que hoje me deste. E ao contrário de mim, sem necessidade de muitas palavras. Estavas ali, sozinho, com as tuas 1200 gramas, pouco mais de um pacote de arroz… Mas com essas gramas, com essas tuas célulazinhas em harmoniosa orquestra a trabalhar para a tua canção, lutas! E lutas com as energias que o teu corpinho de um palmo te permite. É o que tens. E enquanto choro até às entranhas pelo esforço que pões em respirar e em manter o coração a bater, vou pensando que sou mesmo ridícula. Por achar a vida tão complicada às vezes. Por me debater tão pouco por ela. Por querer que outros vivam por mim. Por me esquecer que cada um de nós é um mistério imenso que não vale a pena querer abarcar. Por pensar tantas vezes que já chega, que é desta que baixo os braços… E como que para me dizer que não posso fazê-lo, dás agora um pontapé, porque não apenas os braços, dizes, mas também as pernas tenho de manter no ar.
Ó maninho, desculpa esta tua irmã grande. Tu sim, és grande! Que guerreiro, ãh? Vens dizer aos senhores engravatados, esses que escrevem os livros, e aos que discursam, que eles não sabem tudo e que não são eles que decidem aquilo de que tu és capaz! Pelas suas contas não devias propriamente estar aqui. Mas ou eles não percebem nada de matemática ou… ou não sei. Não quero já saber. Não sei nada. Sei que te vi lutar, hoje, como nunca tinha visto ninguém e me senti ridícula por andar esquecida do que é ser Homem.
Prometo-te que vou dizer isto à nossa família.
Até já
Um grande abraço, que ainda não podes receber


Tua Cátia
16 de Outubro de 2009
Aos meus irmãos pequeninos em qualquer coisa

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Suspenso


Fecho os olhos. E o tempo pára ali.
Volto a abrir para ver como é, mas o instante assim ficou… Imagina...
Suspenso.
Para que eu não passe por ele sem o olhar.
E eu olho.


E descubro um Mundo que nunca vi, nem pensava que existisse.
Descubro de que cor é o azul e o verde.


Descubro a que cheira o limão acabado de colher.


Descubro a que sabe o pão quando é amassado pelas minhas mãos.


Descubro que os pardais conseguem cantar mais alto que os aviões que não param.


Descubro o brilho que os olhos castanhos encerram e a misteriosa luz que sai de um sorriso cândido.


Descubro a transparência da voz da criança que salta à macaca e a maciez das mãos enrugadas e calejadas do pai.


Descubro a infinita grandeza de uma noite estrelada na aldeia onde o céu não tem limites e onde os homens ainda não quiseram pôr luz. Ilumina-o a transparência do luar, como se qualquer outra fonte desfigurasse aquela terra de pureza e dureza.
Descubro o cheiro da terra quando o sol bate nela.


Descubro as histórias que são tantas, demasiadas, para serem contadas num fôlego... Que são tantas, demasiado íntimas, para serem contadas a qualquer um… Qualquer um que as oiça sem lhes sentir o peso. Sem lhes respirar a vida que está por trás. Quando um segredo se conta muitas vezes, banaliza-se, perde-se.
Talvez por isso este instante não deva ser colhido por todos. Para que não se gaste. Para que mantenha sempre esta frescura. Para que tenha de ser procurado apenas pelos olhos capazes de fazer silêncio. E de esperar. Só quem se cala pode ouvir a vida que ele encerra.
Descobri que a maior parte dos gestos são muito mais do que só gestos, dos quais nem colho a metade. Descobri que as palavras acariciam a alma tal como os cabelos o vento mansinho que alegra a manhã... Que essas mesmas palavras, que são o melhor que temos, dizem tão pouco do que quereria e poderia dizer. Não sei dizer mais. O resto senti-lo-às tu.
Descobri que somos muito mais bonitos quando nos olhamos devagarinho, sem pressas, sem tempo, registando na memória cada imagem, guardando o calor de cada respiração. Perdemos tanto uns dos outros!... Descobri que um abraço é mais doce que a aletria que a mãe faz e que a nossa alma tem ainda mais necessidade dele que o nosso peito e os nosso braços que sabem mais depressa pedi-lo que ela.
Não é só nosso isto… também o céu se agarra à terra, numa linha tortuosa salpicada de neve a que chamam Estrela, transformando o horizonte num abraço infinito e eterno.
Para nos recordar que o nosso destino é a comunhão. Essa união do que temos em comum é aquela que se colhe no instante: infinitos que procuram infinitos, para partilhar o infinito desejo de se darem e de se receberem, nessa troca de vidas a que se chama Amor e cujo desejo provoca um prurido chamado saudade.
Hoje, antes de fechar de novo os olhos e de novo os abrir para seguir para a vida de acordo com o relógio, fiz o propósito de viver mais devagar, fotografando cada instante.
E assim, suspenso, poder bebê-lo todo e sentir que sou mulher e estou viva.






Ao fotógrafo que me ensinou a olhar para a história dos instantes
Lisboa, 24 de Fevereiro de 2009



segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Quando eu nasci


No meu aniversário, uma grande amiga fez-me chegar este grande poema. Foi escrito por um homem, há muitos anos atrás. Não podias tê-lo escrito tu, hoje?


"Pequeno poema"


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe..."

Sebastião da Gama


Às minhas Mães




Cheiro a Homem


Curvas e contracurvas que ziguezagueiam milagrosamente pelos montes imponentes.
Mais uma vez, a ciência de Deus e o engenho dedicado dos Homens abraçam-se para oferecer a quem chega um presente delicioso: um mar verde estende-se à nossa frente e convida-nos a deixar-nos ir, a ousar mais que as nossas forças e a nossa natureza colada à terra. Ponho-me em bicos de pé no gradeamento que os Homens fizeram na varanda que Deus lhes deu e aspiro... Ah, se pudesse levar comigo este perfume a terra e a aldeia, a pedras da calçada e a urze selvagem, a castanhas fritas e a festa da Senhora do Livramento... Este é o cheiro da vida, da simplicidade, da genuinidade, da gratuidade! É o cheiro a Homem!...
Uma borboleta cor de laranja vem fazer-me um bailado na brisa de eucalipto. As montanhas servem-lhe de palco. Erguem-se magestosas, com ar senhorial que a gente rude, que mora lá em baixo, não sabe mostrar. São as donas do lugar, nós o pormenor excepcional que por ali apareceu. Elas ficarão, depois de termos feito a visita. Elas ficarão, como até aqui, a ver nascer outra geração e outra, enquanto que a anterior regressa à terra, com a mesma naturalidade com que o sol nasce e morre cada dia, depois de percorrer alegremente as encostas silenciosas do lugar.
Como as mãos de uma mãe que acariciam o filho, assim estes montes envolvem o pequeno vale onde tanto têm trabalhado os filhos fiéis. Hoje, até o padeiro lá vai e a terrinha de ninguém atrai muitos curiosos...
No silêncio dourado da manhã, vou pensando para comigo que se tivesse um lugarzinho assim para mim, seria feliz... E rio de seguida porque me vem à cabeça que todos temos um lugar como este, maior ou mais pequeno, mais humilde ou portentoso, a que chamamos casa. Não tem que ter quatro paredes e uma porta. Por vezes não tem. Mas é o lugar onde a alma se expande e onde os curiosos te podem conhecer realmente, pois só aí és realmente tu. Sabes que és amado por seres seu e não por seres um prémio nobel. Não tens que provar nada a ninguém, porque és bem conhecido. Tenhas ou não chegado às horas previstas, foste recebido como se te esperassem desde sempre.
É nesse lugar de confiança (que mais não é do que a certeza do Amor) que aperfeiçoas os teus voos. E te dás conta da tua originalidade. Mesmo rude, também tu cheiras a Homem. E porque és Homem, também tu desejas ardentemente regressar a essa casa que é o coração de quem te ama e que tem como caminho para lá chegar a saudade.

Ao lote 5, para quem nunca chego fora de horas
28 de Agosto de 2009

Curral das Freiras, Madeira

Quando pensavas que já tinhas visto tudo


E quando pensavas que já tinhas visto tudo... abre-se diante dos teus olhos um festival de cores, cheiros e sons que não terias conseguido imaginar...
A rua cortada ao trânsito de lata avisa que vai acontecer alguma coisa. De repente, ouves um grito e tens de te afastar porque um carro de madeira rasteiro vem pela estrada a pique a alta velocidade. E atrás daquele, outros. Ris-te durante um momento pelas figuras hilariantes dos condutores até que os olhos se deparam e a boca se abre de espanto com a "iminência da queda": uma escarpa no cimo da qual há um hotel de luxo, que parece estar segura por um pilarzinho rochoso todo escavado pelo tempo... Aqui tudo parece milagre. Estes montes, este mar azul tão longínquo como nunca o tinha visto, estas flores fantásticas que alegram o palco, triunfantes! Colocadas ali cada uma de propósito, com a mesma gratuidade e paciência... Na Madeira há tempo para tudo... Para decorar as ruas estreitas com corredores aéreos de luzes e flores que muitas mãos velhinhas demoradamente fizeram. Tempo para montar as barracas onde se oferece um bolo do caco com manteiga de alho divinal, deliciosas ponchas de maracujá, "nikitas", pães com chouriço, vitela no espeto que tu próprio vais guiando sobre o lume... Toda a gente parece ter vindo para a festa! Ninguém vem enganado. Os emigrantes regressam a casa depois de um ano de suór. E a Madeira veste-se de flores para receber estes seus filhos que nunca esquecem o caminho para casa!...
E tu ali, no meio daquela multidão familiar, com as lapas na barriga, mergulhas num alegre baile de costas curvadas. Os teus pés batem também, porque é impossivel não ser contagiado. E deixas-te ir, canção após canção, frescas, repousantes, graciosas, com rodas alegres de saias coloridas que competem com as flores pela vaidade... E já nao sabes se estás ali se no palco, no meio da roda divertida onde elas são mais donzelas e eles mais cavalheiros. "Quer dançar, menina?", diz ele inclinando-se. E a menina, sorrindo para as amigas, deixa-se ir no abraço seguro do cavalheiro. Ali todos esperam pela sua vez de convidar, pela sua vez de aceitar o convite. Todos seguem o ritmo natural que o brinquinho na mão do velhote vai dando. E eles esperam. E elas também.
Também quem vê espera a sua vez na vida, para entrar na roda. O amor é uma roda, não tem princípio nem fim, já está a rodar quando nós cá chegamos e aguarda o momento em que nos vamos decidir a entrar e a mostrar que também sabemos dançar.
É meia-noite. O festival de folclore com cheiro a carne na brasa e cerveja chega ao fim. E como se os nossos pobres aplausos não chegassem (porque a beleza não tem preço), uma explosão de cores ilumina o céu, ao lado das estrelas. E sentado na praia, admiras maravilhado, o fogo de artifício, que é realmente a ponta do sol que veio iluminar a nossa noite.
Nunca digas ou penses que já viste tudo, porque não sabes de todo aquilo de que os homens são capazes.

Aos meus professores de português que me ensinaram a dançar com as palavras
30 de Agosto de 2009 Ponta do Sol, Madeira

domingo, 4 de outubro de 2009

O pão da aldeia



O forno aquece a cozinha onde o pão finta na maceira. Ao longe a voz destes montes onde a vida é dura e o grito do galo pela manhã. Oiço a voz da pequenita que mora ao lado que chama por aquele a quem muitas vezes o vinho impede de ser mais pai. E vejo a velha vizinha que se aproxima, mulher rija, que ousa dizer ao Sr Dr. que o melhor medicamento que lhe pode dar é uma enxada na mão. Essa mão que tanta terra já trabalhou para levar para a frente a família de quem ficou a ser o homem da casa depois que o marido morreu num acidente de trabalho. Os filhos eram pequenos demais para se lembrarem, mas as mãos calejadas sabem bem o que custou mostrar à tristeza que não ia levar a melhor. E chega, passado um pouco, a vizinha da frente, com uma mão cheia de couves “porque sei que agora não têm cá e estavam para fazer a sopa”… E sobre a mesa pintalgada de farinha deposita-as. Deram mais tarde um caldo delicioso, com sabor a humildade (de dar e de receber). Vem o tio Manuel depois, devolver o caldeiro onde tinha levado as batatas para semear que lhe emprestáramos. Olhar cansado, muito cansado, de quem não dorme bem desde que um AVC empurrou para a cama a esposa. Agora ele é mãe e irmão e marido e tudo. Vejo-o mais tarde estender a roupa. Mais tarde ainda passar com um fardo de erva para os coelhos à cabeça. Mais tarde ainda, sair com a enxada na mão. Mais tarde ainda, entrando em sua casa, vejo-o atrás da esposa em cadeira de rodas a servir-lhe o jantar. A esposa já não se lembra de muita coisa. Mas não se esquece das suas 1001 doenças que deve relembrar a toda a hora ao marido e ao filho, que deixou o emprego na Alemanha para vir cuidar dos pais, agora que a família sofreu tal revolução. Há menos de meio ano que a esposa o trocou por outro e saiu de casa. O tio Manuel nunca se queixa. E encontra sempre forma de desculpar a mulher. Mesmo quando para todos os que os visitam ela transpira egocentrismo e indelicadeza. Nunca está bem feito o jantar. Nunca está boa a temperatura do quarto. Sempre estão demasiado pesados os cobertores na cama. Sempre tem alguma dor. E Deus esqueceu-se dela. E assim, passa os dias a desfilar queixas e a exigir o que ninguém lhe pode dar: a serenidade de quem está em paz consigo e com a vida. E o Sr. Manuel vive um dia atrás do outro, qual pai amoroso, não apenas aceitando resignado um fado que alguém escreveu por ele, mas abraçando-o, honrando um sim dito algures há mais de 40 anos. Não exige nada, não pergunta nada. Não pretende perceber. A única coisa que percebe é que houve lá qualquer artéria que entupiu na cabeça da esposa e que a impede de mexer metade do corpo. E por isso, agora ela precisa totalmente dele. Agora. Agora isto. Amanhã não importa. E com o ontem, não se faz vida.
Mais tarde falo com a velha tia, viúva há tantos anos quantos os de casamento do tio Manuel. Dois anos depois do enlace o marido morria. E desde então viveu sempre para as 3 irmãs, para os sobrinhos, para os sobrinhos netos, para os vizinhos, para quem lhe batesse à porta. Ah, que ousadia esta de enfrentar a solidão de cabeça erguida… como se os olhos enxergassem lá ao fundo qualquer coisa que mais ninguém vê… como se por essa luz que se vislumbra no horizonte (e que mais ninguém vislumbra) continuasse a fazer sentido existir e levantar-se cada manhã para agradecer à vida mais este dia. “Ó tia, porque é que não voltou a casar?” “Ó menina, não calhou!...” Porque o coração tem razões que os vizinhos não podem entender. Nem os da tia, nem os do tio Manuel. Nem os da vizinha da frente. Nem os da pequenita do lado.
O perfume desta aldeia hoje é de pão. Daquele pão que outros compram embrulhado em sacos de plástico com etiqueta na prateleira de um hipermercado qualquer. Que não cheira, que não tem sabor. Este sabe a mãos gretadas de trabalho duro, a pele morena do sol escaldante no pico do Verão, sabe à vida pobre que chega sempre para o vizinho, sabe a pouco porque não chega para mais. Talvez eles (que o fazem) não saibam mas… sabe a tudo. É a vida entregue por amor que é ali amassada. É a oblação da existência de cada um que finta na maceira. E é depois a plenitude da humanidade que vai ao forno. No final? É o pão saboroso que dá sentido a tudo o resto. Sabe a amor genuíno polvilhado com saudade. E regresso a casa saciada. Aqui pertenço.

Às mulheres rijas como a minha Mãe que tornam a nossa vida mais saborosa
Guimarães aldeia, 21 de Fevereiro de 2009

sábado, 3 de outubro de 2009

Fotografia em palavras


Azul, azul, azul a perder de vista.
Sobes por estradinhas a pique que fazem tremer o coração da mãe e suscitam o grito à Carmen.
Pagam-se os bilhetes (simbólicos: nada disto é pagável porque não é quantificável) e entras por um portão verde.
Estás no "Reino Maravilhoso" (deve ter sido aqui que se inspiraram os autores da "Polegarzinha").
Os olhos não chegam para conter tudo e as câmaras só registam um aperitivo.
A Madeira é uma toalha de flores com que Deus cobriu um pedaço de terra montanhosa que já não encaixava no Continente.
E para lá do portão verde fica o hall do Céu.
Verde, verde, verde. E branco e amarelo e rosa e vermelho e violeta e todas as cores que a tua imaginação te permita. Indescritível! Os cinco sentidos são assediados por aromas a terra e a sol e a àgua e a fotossíntese. O canto dos insectos e da água a correr. Plantas e flores fininhas e carnudas, agrestes e suculentas, de qualquer feitio. E palmeiras. E catos. E flores, flores, flores. Tudo está delicadamente no lugar para, no silêncio das tardes, os grãos de polén voarem para o coração da flor, onde o milagre da vida acontece. A brisa quente que abraça. E as aves faladoras (Meu Deus, não sabia que era possível ultrapassar-me!) aplaudem a beleza que nasce, sempre nova, sempre estonteante, sempre mistério!...
E achamos nós que sabemos muito!... Que temos a vida nas nossas mãos... Que fazemos as nossas leis...
Esterlícias, hortências, antúrios, alegrias do lar, violetas, amores perfeitos, só para dizer aquelas que reconheço... Mas as formas são inumeráveis! Dá vontade de colher e levar para casa, para poder repetir noutros momentos mais críticos esta genuína sensação de ser homem, irmão destas criaturas sinceras... Mas não.
Pegar numa delas para pôr no jardim (às escondidas do jardineiro) tirar-lhe-ia a vida. Porque a grandeza e a exuberância está no contraste, na diversidade, na saudável competição das suas vaidades. Uma sozinha não atrairia o olhar do viajante. Não faria festa... É como os homens. É quando estão juntos que descobrimos a maravilhosa sinfonia de personalidades, sorrisos, desejos... É o contraste de vidas que nos faz encontrar a especialidade deliciosa de cada um. E neste Reino Maravilhoso como na vida, há uma saudável competição entre Deus e os homens para ver quem faz a obra mais fascinante. É em vão. Ele ganhou, quando te fez a ti.
As palavras não chegam para nada.
E neste Reino Maravilhoso a alma expande-se e adquire o seu tamanho normal- andava um pouco tolhida... E o coração ajoelha-se emocionado, sem saber para onde olhar, sem palavras que digam o que ele quer dizer...
Como de outras vezes, tenho a sensação de ser maior do que eu própria... E desta solidão que reclama pertença, brota um sonho que é maior do que a vida.

À minha madeirense preferida que é uma força da natureza
26 de Agosto 09, Jardim Botânico, Madeira