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sábado, 4 de dezembro de 2010

Hino aos dias normais


Bendita a normalidade dos dias normais.
A mesma hora para levantar…
O mesmo esforço de ontem para viver o primeiro minuto do dia heroicamente…
O mesmo olhar à Virgem, que velou toda a noite…
E a oração de joelhos, ainda meia a dormir…
A voz doce do outro lado do telefone: “Bom dia! Estou na vida à tua espera!”…
E sai-se para o Mundo.
O mesmo caminho.
A mesma Igreja. Os mesmos companheiros.
Os mesmos dejectos caninos no passeio da Alameda.
O mesmo galo que canta de hora a hora em frente à biblioteca.
Leite com café e canela. Às vezes sem leite. Pão com compota. Partido daquela forma. Com laranja e canela a acompanhar.
Ainda são só as primeiras horas do dia e já tudo é como ontem. Excepto o dia do calendário. E as páginas do livro de estudo. Felizmente, essas vão variando…
A mesma hora de almoço. A mesma Visita. O mesmo estudo de tarde.
E os dias parecem cópias. Até a sms diz algo muito semelhante a qualquer uma da véspera: “… … … 1 abracinho do tamanho do Mundo… até já…”
Termina-se o trabalho. E o já chega. Arranjo-me por fora e por dentro. Um pouco do mesmo perfume e da maquilhagem em frente à porta de espelho. Os mesmos cabelos desordenados, sem jeito. Um adeus na capela.
O mesmo abraço, terno, terno, intemporal, “sconvolgente”, avassalador!...
E as palavras são as mesmas. Não temos outras!...
O mesmo tempo que escorre. O mesmo fim de dia.
Os rituais e as rotinas são pertença, são identidade. Poupam-nos tempo, que é importante para tantas coisas!... Fazem parte desse património individual único e irrepetível. Sem eles não nos sentiríamos em casa.
Os dias iguais trazem-nos segurança, confiança, domínio. Fugir deles por medo do cansaço seria como dormir cada noite numa cama diferente para não estar quente da noite anterior… Mas que bom é sentir o perfume do nosso champô na almofada!...
Os dias normais são a escola e o palco das virtudes. É aí que nós mais nos revelamos, porque aí passamos a maior parte da vida e aí se prova a perseverança. Bendita normalidade, sem festas, sem extraordinaridades, sem outra música que a tranquila brisa dos segundos que passam a cada instante e nos pedem que os agarremos.
Os apaixonados são os que mais se repetem. Porque são os que vivem mais intensamente. Mas os gestos e as palavras são limitados. Por isso necessitam repeti-los. São os mesmos, mas sempre diferentes. Não há dois olhares iguais, nem dois sorrisos iguais, nem dois abraços iguais. Só há este, de agora. Deve ser por isso que não cansa. Porque tudo é presente.
E escondido nas malhas dos dias iguais, descobre-se a intemporalidade, que é o presente elevado a infinito.

21 de Outubro 2010

Aos que carregam o peso da normalidade e ainda não fazem poesia com ela...

As 25 lições que não se aprenderam nos livros...

Para brincar com o meu quarto de século, hoje gostava de te contar as 25 lições mais importantes que aprendi ao longo deste pedacito de vida já vivida. Obrigada por mas teres feito aprender!...

1- Podemos dar muitas voltas na vida, andar por muitos locais bonitos, conhecer muitas pessoas, fazer muitas experiências… mas onde nós voltamos sempre no final das nossas lutas e vitórias e derrotas, é à nossa casa, onde habitam os nossos, que nos recebem sempre de braços abertos como se não tivéssemos partido, sem fazer perguntas.
2- Por vezes, a distância faz-nos ver realidades que a proximidade não nos permitia. É como aperceber-se de que é ao elefante que pertence a pele que antes tocávamos de tão perto, só porque nos afastámos uns metros. A distância fortalece os laços, se se aprende a tirar partido dela.
3- “Não saberás quanto valho enquanto não puder ser junto de ti aquilo que sou”, li num livro uma vez. Se por vezes parece que é com os que nos estão mais próximos que nos zangamos mais, isso é só porque a confiança e o à-vontade é tanto, que até o nosso lado lunar lhes mostramos, o que tentamos esconder dos outros olhares. Por outro lado, podemos cair também no erro de achar que conhecemos tão bem os que nos estão mais próximos, que não os deixamos ser quem eles querem ser, de tal forma os metemos na imagem que fizemos deles. É muito importante construir o próprio espaço da liberdade interior, pois só assim é possível amar sem ter que ser e não temer os que nos rodeiam.
4- O melhor anti-depressivo? Um tiramissú!...
5- Não há idades para aprender. Também as avós conseguem aprender a dizer good morning, e os pais criam blogs e paginas no facebook… Os resultados são menos animadores nas mães que tentam criar um email, mas alguma coisa se consegue com alguma paciência.
6- Aquele lugar a que chamamos casa, onde nos sentimos mesmo, mesmo à-vontade e onde podemos andar de pantufas, não é necessariamente de paredes físicas, mas fica no coração daqueles que nos amam. E a saudade? A saudade é essa nostalgia del ritorno a casa, essa certeza de poder regressar sempre, porque quem ama, espera. Espera sempre.
7- Realmente há gente limitada… cada um dá para o que dá… Uns sabem lavar pernas às irmãs mais novas, outras consertam persianas, outros esforçam-se por pôr a televisão a dar outro canal que não o eurosport… enfim… E por falar em irmãs… também aprendi que se deve comprar sempre roupa que sabes que as tuas irmãs vão achar pirosa. Nunca te desaparecerá.
8- Um pequeno-almoço com qualidade de vida toma-se sentado e inclui um capuccino com canela, uma laranja às fatias com canela e uma torrada de pão de sementes com doce de abóbora e noz que a Mãe faz, com canela. Não, a canela não tem efeitos adversos para a saúde.
9- E o que se deve fazer quando a tristeza me invade? Cantar o fado! Sim, não há nada que não tenha remédio com uma boa cantoria…
10- Quando te chamarem louco, responde-lhes que foram os loucos que conseguiram as revoluções da História. E mais: aos que estão nos nossos altares também lhes chamavam assim… Põe a tua loucura ao serviço dos outros e … vivam os loucos!
11- A Medicina é o trabalho mais bonito do Mundo. O homem chega a cada estado… é incrível!... Nem nós imaginamos a capacidade do nosso corpo para sofrer e para curar-se… E no seu maior sofrimento, na sua miséria e limitação, o homem descobre que a sua grandeza não está no que pode fazer ou produzir, que é tão pouco, mas está no que é em si mesmo, ainda que ninguém o reconheça. A humildade de saber-se pouco (e ainda assim valer muito) e estar sempre necessitado dos outros é das maiores lições que a doença nos oferece.
12- Nada acontece por acaso (esta tem direitos de autor).
13- Não se deve viver acima das nossas possibilidades e é preciso saber viver no pouco e no muito e estar preparado para tempos de guerra (esta também tem direitos).
14- Uma mulher completa tem que saber fazer de tudo, também rapel… Esta lição ia-me custando as entranhas…
15- Sim, é possível tomar um bom banho com litro e meio de água! E pôr champô por duas vezes!...
16- Vale a pena sonhar alto… mesmo alto… É que mesmo assim, ficamos aquém daquilo que a vida pode ser…
17- Não peças sempre tempo livre ou mais horas de sono… tens tempo de descansar no Céu.
18- Cada um tem a vida que escolhe. As circunstâncias externas são importantes, mas para todas as pessoas, a liberdade pessoal tem a última palavra. E esta, agarrada à vontade e à inteligência, são o que determina a resposta que nós damos às circunstâncias externas e que determinam o sucesso ou a infelicidade da nossa vida. Há quem viva como se estivesse dependente de um destino cego, como se tivesse de viver desta ou daquela maneira. Mas cada caminhante traça o seu próprio caminho. Lembra-te que quando ofereces resistência à vacina, dói mais.
19- Somos todos o produto daqueles que nos amaram ou deixaram de o fazer. Quando vires uma pessoa que te parece má, não a julgues. Não foi bem amada. É que nem todos podem dizer “Fui mal amado, mas sei amar…”
20- Sim, Deus existe, eu encontrei-O e não preciso de outras provas da Sua existência que a minha própria vida. Sei quem era e sei em quem me tornei depois que Ele passou por mim. E este Deus não adormece. Se se faz esperar, é porque para Ele não há tempo e esquece-se que aqui na terra os minutos custam a passar, especialmente quando estamos a aguardar por algo muito desejado… E outras vezes se nos parece que demora é só porque nós não soubemos reconhecer a resposta, é que não era bem aquilo que esperávamos…
21- Podemos dar muitas coisas, caras, lindas, preciosas… e não darmos nada. O que as pessoas mais querem de nós e o que nós menos queremos e sabemos dar é o nosso tempo. Mas lembra-te: as pessoas podem perceber que não tens tempo, mas que não percebam que não tens coração.
22- Não devemos ter medo de chorar e de rir, de abraçar e de cantar até pela rua, se a isso nos apetecesse… Afinal o nosso Pai é dono disto tudo! Ah, e como ninguém manda em mim e eu faço o que eu quiser!… Just do it.
23- Há coisas que não se vêem se não pelos olhos que já choraram. Não deixes de aproveitar as lágrimas para lavar os olhos.
24- As coisas boas da vida são boas. Mesmo boas! Bendito seja Deus pelas batatas fritas do MacDonalds e pelos filmes que nos fazem chorar… Não há nada bom demais para ser verdade!
25- Ficamos para sempre responsáveis por aqueles a quem cativámos. E não precisamos de 360 contactos no Facebook cativáveis, basta-nos um coração que nos queira, intemporalmente.

Para o ano há mais…

24 de Setembro de 2010
A todos os que me ensinaram estas todas...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Herói pequenino


Olha para as minhas mãos. E olha depois as suas. As minhas estão geladas e apesar de as ter posto de molho na água quente, continuam frias… O verniz já começou a sair, depois de tantas vezes passar as mãos no bendito desinfectante do plano de contingência que cheira mal. As suas estão quentes. Uma está inchada. Foi da “maldade” que esta manhã a enfermeira lhe fez para lhe tentar tirar um bocadinho de sangue.
O meu pequeno paciente tem 1700 gramas e 4 dias de vida. Tem um irmãozinho com quem teve de partilhar o mesmo ninho durante as 34 semanas que quiseram estar lá dentro em alegre conversação. Cá fora, construíam-se prédios, aumentavam-se estradas, o Benfica alimentava o sonho dos adeptos de ganhar a taça este ano, homens engravatados discursavam animadamente no Parlamento como quem tem razão mas ninguém os escuta, mães ensinavam os seus meninos a rezar à borda da cama de um quarto cor de rosa, as chuvas destruíam as colheitas dos agricultores, faziam-se planos de guerra e planos de paz, descobriam-se novos genes, velhinhos morriam sozinhos na cama de um hospital com má fama e o sol nascia e despedia-se… Um dia após outro, uma hora após outra… E no silêncio do quarto partilhado os dois irmãozinhos cresciam irmãmente, dividindo as reservas e a cumplicidade… E sem que ninguém visse nada (porque há coisas que de tão puras, não podem ser vistas pelos nossos olhos contaminados), eles iam montando os seus corpinhos grandes e fortes, com a paciência de um escultor… Dias de muito trabalho, ãh?, estes primeiros que passamos escondidos a cozinhar o futuro!... E a mãezinha ajuda, e o pai vai falando connosco e até nos canta, enquanto pergunta à mãe se acha que nós ouvimos… Ela ri-se, enternecida, por ver um homem daquele tamanho sujeito a dois pequeninos que nunca viu e já monopolizam a sua vida…
Obrigado, pequenino, pela tua paciência. Sim, tens as fontanelas no sítio, os reflexos presentes, a barriguinha está em ordem, como o coração e os pulmões e a icterícia diminuiu o suficiente para poderes ir para a tua casa hoje. Obrigada, pequenino, por não chorares às minhas mãos frias que te pegam desajeitadamente com medo de te partir. Vou fingir que esse escape que me fizeste em cima não é vingança.
E enquanto te entrego à tua mãe e ao teu irmãozinho que estavam à espera que pudesses ter alta, vou pensando que será de ti… Em quem te vais tornar? Que vida te aguarda? Que surpresas? Que sonhos? Onde chegarás? Olha, amiguinho, se te posso dizer qualquer coisa qual irmã mais velha, deixa-me dizer-te que o pior já tu passaste, mesmo sem consciência disso: as 34 semanas mais trabalhosas da tua vida já passaram e venceste-as. Como venceste o medo do desconhecido e o desconforto de ser estrangeiro, há 4 dias atrás. O pior já passou. Agora, “vai e vive”! E já agora, se puderes ensinar a tua irmã de bata branca com xixi a ser assim corajosa!...

25 de Outubro de 2009
Aos pequeninos heróis que todos os dias fazem pela vida enquanto nós dormimos

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Carta ao meu irmão


Querido maninho:

Quando te vi, senti-me ridícula.

Eu, já grande, senhora de mim, convencida de saber muitas coisas, de estar mais autónoma nestes primeiros passos do mundo que chamam dos adultos, que dediquei tantas horas e tantos cotovelos a tentar perceber porque é que a glicose devia entrar por um portãozinho na membrana dianteira das células que fazem fila da frente no intestino para chegar ao nosso sangue, para depois ser levada até às outras células irmãs espalhadas pelos 4 cantos do corpo para entrar depois numa dança em roda a que gostam de chamar ciclo de Krebs, para depois dar uma moléculazita com um nome muito estranho, dizem-na adenosina trifosfato, para depois essas mesmas células a poderem utilizar para fazerem o seu trabalhinho de células: multiplicar-se, crescer, morrer (porque também para morrerem precisam de energia), produzirem proteínas e outras primas, etc, etc, etc… Muitas horas, mesmo… E esta não é senão a lei mais básica do funcionamento de qualquer ser vivo… Se soubesses, maninho, a quantidade de outras leis e danças que se passam dentro de nós, passavas-te, como eu me passei muitas vezes, mas por ter de as decorar…
Mas, dizia eu, que ao ver-te senti-me ridícula. Por me ter passado alguma vez pela cabeça que sabia alguma coisa, que conhecia alguma coisa.
Enquanto se escrevem livros de texto imensos em imensas línguas, enquanto se publicam mais de 1000 artigos por dia, enquanto os políticos nos parlamentos decidem as nossas vidas, enquanto se fazem belos discursos pelo mundo fora e se fazem negócios de milhões, enquanto se inventam máquinas extraordinárias e se canta e dança e bebe e grita, tu estás aqui, maninho, à minha frente, a contar-me a tua história, que se calhar nunca vai fazer história. Ainda nem te deram o nome oficial, que é António, e já marcaste a minha vida, vês? Obrigada pela bofetada que hoje me deste. E ao contrário de mim, sem necessidade de muitas palavras. Estavas ali, sozinho, com as tuas 1200 gramas, pouco mais de um pacote de arroz… Mas com essas gramas, com essas tuas célulazinhas em harmoniosa orquestra a trabalhar para a tua canção, lutas! E lutas com as energias que o teu corpinho de um palmo te permite. É o que tens. E enquanto choro até às entranhas pelo esforço que pões em respirar e em manter o coração a bater, vou pensando que sou mesmo ridícula. Por achar a vida tão complicada às vezes. Por me debater tão pouco por ela. Por querer que outros vivam por mim. Por me esquecer que cada um de nós é um mistério imenso que não vale a pena querer abarcar. Por pensar tantas vezes que já chega, que é desta que baixo os braços… E como que para me dizer que não posso fazê-lo, dás agora um pontapé, porque não apenas os braços, dizes, mas também as pernas tenho de manter no ar.
Ó maninho, desculpa esta tua irmã grande. Tu sim, és grande! Que guerreiro, ãh? Vens dizer aos senhores engravatados, esses que escrevem os livros, e aos que discursam, que eles não sabem tudo e que não são eles que decidem aquilo de que tu és capaz! Pelas suas contas não devias propriamente estar aqui. Mas ou eles não percebem nada de matemática ou… ou não sei. Não quero já saber. Não sei nada. Sei que te vi lutar, hoje, como nunca tinha visto ninguém e me senti ridícula por andar esquecida do que é ser Homem.
Prometo-te que vou dizer isto à nossa família.
Até já
Um grande abraço, que ainda não podes receber


Tua Cátia
16 de Outubro de 2009
Aos meus irmãos pequeninos em qualquer coisa