Pousos os sacos das compras pesados no chão da cozinha. Lavo
as mãos com gel a cheirar a pêssego. Este fim de tarde, com o sol a deitar-se
sobre o Caramulo, preguiçoso… Que lindo!... Um batalhão de andorinhas brinca em
frente à janela da cozinha, saltando entre as duas velhas árvores do jardim em
frente. Parece que há alguma a dar o sinal e voam todas!… Colocam-se depois
direitinhas na árvore, como numa assembleia parlamentar, e voltam a levantar
voo até à outra árvore… Livres.
Pego na beringela elegante e na tenra corgete, lavo-as.
Deito-as sobre a tábua dos legumes. Corto, divertida, finas rodelas dos legumes
partidos em dois, num ritmo acelerado, como fazem na televisão. E agora? Uhm…
Alho francês, produzido em Portugal. Só compro produtos nacionais, por respeito
às nossas mãos calejadas. Cortar de alto a baixo, separar as camadas e lavar
bem- fica sempre terra escondida nas camadas mais profundas!
Deitado na tábua,
é a vez do alho receber cócegas. E as anilhas- como lhe chama o pai- saltam
para o tacho. É delicioso ouvir o barulho do azeite a ferver… Entretanto, limão
lavado, partido em quatro, açúcar a gosto, água que baste e hortelã cortada na
hora do jardim improvisado. Dois toques de Turbo, trrr, trrr, e temos limonada.
O forno está a aquecer, a 180 graus. Acendo o fogão. Rego os legumes com
azeite. Depois, brinco com os frascos de especiarias: ora bem, o que é que me
apetece hoje?... Manjericão. Pimenta branca. Louro. Alecrim. O amarelo do
açafrão sorri para mim. E o gengibre implora para que o deixe mergulhar também.
Ah, o sal que devolve o sabor que os alimentos já têm ia sendo esquecido! Abro
a garrafa de vinho branco, produzida em casa, e dou de beber aos legumes, que
apreciam deliciados. Lume médio, cobre-se com o testo e deixa-se acontecer.
Uau!, que cheirinho vem dali… A massa de água, azeite e farinha já levedou.
Dou-lhe mais dois ou três apertões e faço uma bola com ela, sobre a banca
coberta de farinha. Com o rolo de madeira estendo para cá e para lá, de forma a
fazer um círculo de baixa espessura. Enquanto embalo a massa, acalmo a alma. E
estico mais um bocadinho. E mais um bocadinho. Como aliás faço o dia inteiro.
Para a esquerda, para baixo. Até ficar redondinha. Agora é como eu quiser. Ao
contrário da vida que às vezes é como tem que ser. Liberto a vontade e pincelo
com tomate, estendo o fiambre, as rodelas de cebola e as rodelas de pimento
verde, fio de azeite, pitada de sal… E que mais? Abro o armário à procura de inspiração.
A lata de azeitonas ri-se para mim. E as alcaparras salgadas. Saltam para a
pizza também. E falta a mozarela salpicada por cima, que há-de fazer a crosta
deliciosa que desfia quando se parte a fatia. Vou ao jardim buscar folhas de
manjericão frescas, cujo perfume aspiro primeiro. E depois, forno com o
petisco. Quinze minutos e está pronta! Entretanto, os legumes, que se querem al dente, estão prontos e desliga-se o
lume. E agora? Bem, estão a acabar os iogurtes. Decido-me a fazer mais, neste
milagre da multiplicação de iogurtes, em que um dá origem a oito, dos quais
ficará um, para dar outros oito. Acho que ando sempre a comer um pouco do
primeiro iogurte que utilizei… Esta transmissão de sabor, textura e poder de
levedar intriga-me… Passado 13 horas de calorzinho, saem prontos iogurtes
cremosos, milagrosamente…
E doce? Ah, já sei. Abro o frigorífico para deixar a
imaginação criar. Tudo bem, tenho natas e mascarpone. Folhas de gelatina,
primeiro água fria, depois água fervida. Gosto de observar este fenómeno, das
folhas sólidas passarem a líquido e juntas com o doce em líquido passarem a
sólido, depois de duas horas no frigorífico. Depois desse tempo, uma deliciosa panna cota está pronta. Do branco
encorpado impressionante ao carmim do doce de amoras silvestres e morango feito
na véspera que verto sobre a panna cota,
do cheiro a manjericão fresco e a mozarela derretida ao delicioso sabor dos
legumes, acompanhados da frescura da bebida, tudo na cozinha é música. É
colorido. É perfumado. Uma experiência multissensorial, pode dizer-se. Alimenta
o espírito ainda antes de chegar ao estomago. Olhos cheios, paladar deliciado,
olfato inspirado. Alma apaziguada. A cozinha é sossego, é conforto, é mão
maternal, é controlo, é estrutura, é criatividade, é cor, cheiro, sabor,
textura, é companhia, é emoções, é relação. Cozinha-se primeiro com o coração e
só depois com as mãos. O forno coze a massa depois de ter sido levedada nos
nossos afetos e na nossa imaginação.
Depois da alma saciada, arrumo e limpo tudo no meu
laboratório de emoções, digo adeus ao Caramulo, desço a persiana, encosto a
porta… e vou para a varanda vermelha disfrutar do meu jantar.
Às fadas do lar que me
despertaram o gosto de inventar
7/8/14

Sem comentários:
Enviar um comentário