quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Laboratório de emoções


Pousos os sacos das compras pesados no chão da cozinha. Lavo as mãos com gel a cheirar a pêssego. Este fim de tarde, com o sol a deitar-se sobre o Caramulo, preguiçoso… Que lindo!... Um batalhão de andorinhas brinca em frente à janela da cozinha, saltando entre as duas velhas árvores do jardim em frente. Parece que há alguma a dar o sinal e voam todas!… Colocam-se depois direitinhas na árvore, como numa assembleia parlamentar, e voltam a levantar voo até à outra árvore… Livres.

Pego na beringela elegante e na tenra corgete, lavo-as. Deito-as sobre a tábua dos legumes. Corto, divertida, finas rodelas dos legumes partidos em dois, num ritmo acelerado, como fazem na televisão. E agora? Uhm… Alho francês, produzido em Portugal. Só compro produtos nacionais, por respeito às nossas mãos calejadas. Cortar de alto a baixo, separar as camadas e lavar bem- fica sempre terra escondida nas camadas mais profundas!
Deitado na tábua, é a vez do alho receber cócegas. E as anilhas- como lhe chama o pai- saltam para o tacho. É delicioso ouvir o barulho do azeite a ferver… Entretanto, limão lavado, partido em quatro, açúcar a gosto, água que baste e hortelã cortada na hora do jardim improvisado. Dois toques de Turbo, trrr, trrr, e temos limonada. O forno está a aquecer, a 180 graus. Acendo o fogão. Rego os legumes com azeite. Depois, brinco com os frascos de especiarias: ora bem, o que é que me apetece hoje?... Manjericão. Pimenta branca. Louro. Alecrim. O amarelo do açafrão sorri para mim. E o gengibre implora para que o deixe mergulhar também. Ah, o sal que devolve o sabor que os alimentos já têm ia sendo esquecido! Abro a garrafa de vinho branco, produzida em casa, e dou de beber aos legumes, que apreciam deliciados. Lume médio, cobre-se com o testo e deixa-se acontecer. Uau!, que cheirinho vem dali… A massa de água, azeite e farinha já levedou. Dou-lhe mais dois ou três apertões e faço uma bola com ela, sobre a banca coberta de farinha. Com o rolo de madeira estendo para cá e para lá, de forma a fazer um círculo de baixa espessura. Enquanto embalo a massa, acalmo a alma. E estico mais um bocadinho. E mais um bocadinho. Como aliás faço o dia inteiro. Para a esquerda, para baixo. Até ficar redondinha. Agora é como eu quiser. Ao contrário da vida que às vezes é como tem que ser. Liberto a vontade e pincelo com tomate, estendo o fiambre, as rodelas de cebola e as rodelas de pimento verde, fio de azeite, pitada de sal… E que mais? Abro o armário à procura de inspiração. A lata de azeitonas ri-se para mim. E as alcaparras salgadas. Saltam para a pizza também. E falta a mozarela salpicada por cima, que há-de fazer a crosta deliciosa que desfia quando se parte a fatia. Vou ao jardim buscar folhas de manjericão frescas, cujo perfume aspiro primeiro. E depois, forno com o petisco. Quinze minutos e está pronta! Entretanto, os legumes, que se querem al dente, estão prontos e desliga-se o lume. E agora? Bem, estão a acabar os iogurtes. Decido-me a fazer mais, neste milagre da multiplicação de iogurtes, em que um dá origem a oito, dos quais ficará um, para dar outros oito. Acho que ando sempre a comer um pouco do primeiro iogurte que utilizei… Esta transmissão de sabor, textura e poder de levedar intriga-me… Passado 13 horas de calorzinho, saem prontos iogurtes cremosos, milagrosamente…

E doce? Ah, já sei. Abro o frigorífico para deixar a imaginação criar. Tudo bem, tenho natas e mascarpone. Folhas de gelatina, primeiro água fria, depois água fervida. Gosto de observar este fenómeno, das folhas sólidas passarem a líquido e juntas com o doce em líquido passarem a sólido, depois de duas horas no frigorífico. Depois desse tempo, uma deliciosa panna cota está pronta. Do branco encorpado impressionante ao carmim do doce de amoras silvestres e morango feito na véspera que verto sobre a panna cota, do cheiro a manjericão fresco e a mozarela derretida ao delicioso sabor dos legumes, acompanhados da frescura da bebida, tudo na cozinha é música. É colorido. É perfumado. Uma experiência multissensorial, pode dizer-se. Alimenta o espírito ainda antes de chegar ao estomago. Olhos cheios, paladar deliciado, olfato inspirado. Alma apaziguada. A cozinha é sossego, é conforto, é mão maternal, é controlo, é estrutura, é criatividade, é cor, cheiro, sabor, textura, é companhia, é emoções, é relação. Cozinha-se primeiro com o coração e só depois com as mãos. O forno coze a massa depois de ter sido levedada nos nossos afetos e na nossa imaginação.

Depois da alma saciada, arrumo e limpo tudo no meu laboratório de emoções, digo adeus ao Caramulo, desço a persiana, encosto a porta… e vou para a varanda vermelha disfrutar do meu jantar.

Às fadas do lar que me despertaram o gosto de inventar

7/8/14

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