quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Florita selvagem


As estrelas do Céu brilham...
Os Homens falam...
A chuva cai...
A areia, no deserto, vai caminhando...

Num jardim, nunca há apenas uma flor...só uma não faz o jardim...
Assim, há rosas perfumadas do mel, há coroas-de-rei a atrair a atenção, há gladíolos de todas as cores, há margaridas e tulipas...E ao lado, ainda há um espaço para uns malmequeres selvagens, que ninguém plantou...
Pequeninos, brancos, invisíveis.
Não se consegue dizer qual destas flores é a mais bonita.
Umas pelas suas cores, outras pelo seu perfume, outras pela sua altura...outras pela sua simplicidade e insignificância...
Mas são todas precisas. Juntas, são o jardim.
E não é o mundo um jardim? Tantos Homens! Tão diferentes! Mas juntos completam e alegram o jardim.
Os Homens são mais do que as estrelas do céu...
Mais do que as gotas de chuva a cair...
Mais do que os grãos de areia do deserto... E caminham!
Então não caminham? E falam, falam...
Vistos de cima, não se distinguem... mas quando se olha mais de perto distinguem-se as rosas, as tulipas, as margaridas...
E com mais atenção , também se vêem as pequenas flores dos malmequeres.
Talvez tu sejas um destes malmequeres selvagens...
Dessas florzinhas do canto do jardim... Mas olha, as rosas também têm espinhos e as coroas-de-rei sujam! E sabes, mesmo com sede e ao calor, és tu a única que se aguenta, porque as flores caras, habituadas a boas terras, vão-se abaixo à primeira chuvada... Tu podes não ser como elas, mas és a única que se pode colher sem aleijar, e desfolhar...
És a florita selvagem, que ninguém controla, mas por isso mesmo, por seres assim como és, é que as pessoas gostam de ti... (as que reparam em ti!).

E eu? Eu reparo em ti, sim. E quando olho para ti, imagino o que seria do Mundo sem malmequeres!...
Ao malmequer belissimo a quem tenho por irmã e que me vuole tanto bene
Viseu, 2004

Parabéns vovó!


Num dia especial para mim, partilho convosco uma carta que escrevi há uns anos e que poucos de vós conhecerão. Porque é lindo lembrar as coisas lindas e fazer memória daqueles que transportamos dentro.


"Deixem-me dizer umas palavras…que serão sempre poucas para descrever o que temos vivido ao longo destes seis anos e especialmente ao longo destes últimos dias. Para o dizer numa palavra, a primeira que me vem aos lábios é… obrigada! E depois Missão cumprida!
Obrigada, meu Deus, por esta maratona que nos fizeste correr a partir do momento em que um AVC repetido levou a avó Conceição para a cama, com metade do corpo paralisado. E veio ter a nossa casa… Por pouco tempo, diziam os médicos, mas tu, vóvó, mostraste a todos que eras de bom material e que não te ias assim tão depressa. Ainda tinhas uma tarefa para terminar. Dizias que a tua missão era rezar pelas netas e pelas amigas das netas que não tinham avó que rezasse por elas. E o terço que te fiz tornou-se o teu companheiro diário. Quantas vezes não o íamos topar dentro dos lençóis! E dizias ficar cansadinha de tanto rezar. Por isso vóvó, é que nós passámos sempre nos testes. Dizíamos-te que íamos estudar e tu imediatamente pegavas no terço. Mas tu não rezavas só com o terço. Talvez não tivesses noção disso, mas tu toda eras uma oração. A tua mão seca era uma oração, as tuas dores ao fundo das costas eram uma oração, a tua falta de forças, a tua língua sequinha eram uma oração. Às vezes dizias que isto era sofrer demais, que nós não sabíamos, nem podíamos saber o que era a tua vida: era só sofrer, sofrer sem descanso. Que te doía tudo, até o cabelo! E respondíamos a brincar: só a língua é que não te dói! E tu dizias que também essa te doía e muito, mas nem por isso deixavas de falar, de chamar, de cantar…e a tua missão vóvó, foi esta também. Chamar-nos. Manter-nos vigilantes e atentos ao mundo dos que sofrem, dos que estão sozinhos, dos que são abandonados, dos que perdem a esperança. E as tuas netas aprenderam a lição! Não lamentamos um dia, um dia só, de gritos, de sono e cansaço, de sustos, de trabalhos. Porque isso nos fez crescer a todos, e a ti também. Um dia disseste-me que nunca pensaste chegar a tanta idade. E se te perguntava que idade querias ter, dizias 20 anos. Tenho 20 anos, vóvó, e tu tiveste-os também até ao fim e ensinaste-me a valorizar a minha juventude. Relembro-te a sorrir, sempre bem- disposta, com a resposta sempre pronta. A mãe dizia que tinhas tempo para as estudar! E acabaste por te tornar no santuário da nossa casa.
Dou graças a Deus pela tua serenidade, pela tua bondade, pela tua aceitação de tudo, de tudo, pela tua paciência no sofrimento e na solidão, pela tua fé, pobreza e simplicidade, pela tua sabedoria. Fizeste questão em que escrevêssemos as quadras das Janeiras que tu sabias porque “um dia morro e depois quem é que vos ensina”? Mais que as quadras das Janeiras, vovó, espero ter aprendido a tua lição de vida.
Inverteram-se os papéis e agora o bebé eras tu. Pior que bebé, dizias!...
Chegámos longe vóvó, e hoje posso dizer que tive oportunidade de te conhecer como até aí nunca tinha acontecido e aprendemos tanto todos!
“Gosto muito de ti vóvó!” “Mas eu ainda gosto mais de ti, menina. Muito, Muito!” respondias. Gostavas de ter sido professora. De meninos pequeninos… Foste nossa professora e ensinaste-nos o Amor. Obrigada!
Quanto nos rimos contigo! E se agora choramos não é de desespero, é de saudade e de alegria, porque acreditamos que estás no Céu. “Ó vóvó, se tu pudesses escolher para onde é que querias ir agora?- Ó menina, para o Céu- respondias. E como é que se vai para o Céu? De avião, vó? Oh, não. Há um verso que diz assim “lá no céu há uma escada, feita de mar maravilha onde está a Mãe Santíssima com o Menino nos braços.”
“Então mas há uma escada para o Céu? Onde é que fica?”. “Oh não sei, mas tu também pensas que o Céu é um quarto ou uma sala onde a gente está? O Céu não é um sítio”. “Então o que é, vó?..”. “O céu- disseste tu, grande teóloga que não sabe ler- é estar em Deus…”.
Ó vózinha, agora que já estás com Deus, ensina-nos o caminho para lá, diz-nos onde fica a escada. Nesta altura também já encontraste a tua querida Virgem Maria que tem o teu nome. Gostavas tanto dela que ela até te visitou mais do que uma vez. “E como era a cara dela, vó?”, perguntávamos. “Oh, não sei, estava de costas!”
Hoje já a viste de frente. Já sabes como é o Céu, já nos olhas a todos sem a prisão de um corpinho doente.
As últimas coisas que me disseste, antes de ir para Lisboa, foram resposta ao pedido que hoje renovo: “Ó vó, bote cá a sua bênção!”
Sim, vó, abençoa-nos desde aí e ajuda-nos a cortar a meta como tu a cortaste: com dignidade e feliz!
Descansa agora, da tua vida de entrega e sacrifício.
E pede a Deus que agradeça como só Ele sabe fazer, a todas as pessoas amigas, que pela oração, trabalho ou pela companhia, nos ajudaram a chegar aqui.

Aprendeste connosco este verso que gostavas tanto e que resume muito bem a tua vida:
“Boa noite, boa noite Maria,
Boa noite minha Mãe.
O dia foi lindo p’ra mim,
Foi lindo p’ra ti,na harmonia.
Vivemos na mesma Cruz
Juntos com Jesus na alegria.”


15/12/06, dia do seu último voo

À minha avó Conceição que ontem celebrou mais um aniversário! Que saudades, vovó!

Rei sem reino


Um dia espreitaste pela janela do teu mundo interior e aquilo que viste passou a ser o sonho que conduziu os teus passos.

Reinar.

Mas não como os políticos do Mundo, não como quem manda e é obedecido. Não como quem vive sentado no trono elevado de onde olha o império das suas conquistas. Não como quem quer absorver aqueles sobre quem reina. Não para ter poder, fama ou sucesso. Mas para ser homem. Conquistar para ser amado. Reinar para ser pertença de alguém, para encontrar a própria identidade.

Se o homem não reina o seu mundo interior e exterior, sente-se inútil, porque governado, sem poder pegar nas rédeas da sua vida. Porque para ele, cada passo tem de ser conquista, luta guerrida, vitória e marcas de guerra. É assim que se recorda de estar vivo e de correr ainda. É assim que se recorda de ter vocação de guerreiro. É assim que a sua vida mantém o sentido e mata o ócio de quem já não tem reinos para conquistar. Reinos... O coração de alguém que espera. Com a dose certa de sensibilidade e ternura, de silêncio e afecto com que enfaixa as feridas da guerra. Essa alguém que transforma a casa em lar e o comer em jantar. Essa alguém que não precisa de jóias ou tecidos finos pilhados durante a injusta luta. O seu maior troféu é o regresso do Rei, feliz por mais uma conquista, mesmo que só visível aos dois.

Mais uma incompreensão, uma traição, uma mão estendida que foi desprezada, uma vontade generosa que foi recusada. E o Rei que montava a mansidão, regressa à casa-lar na humildade das almas nobres, que sabem driblar as hipocrisias e falsidades. E o Rei, que de joelhos partiu para a grande conquista com as mãos cheias de carinho, regressa com elas cheias de carinho e uma lágrima, que é sempre a marca dos grandes feitos.

Ó Rei, não fiques triste por teres voltado só!

Ó Rei, não fiques triste por não te terem deixado entrar como quem serve, nos seus corações.

Desculpa-os da sua rude ignorância, de quem nunca experimentou o sabor de conquistar para ser conquistado pelo amor daqueles a quem se pertence. Eles não pertencem a ninguém.

O teu reino é maior do que o que eles veêm e tão bonito!...

Meu querido Rei, obrigada por ser uma das tuas conquistas!



Ao meu Pai que me ensinou o que é um coração nobre

Lisboa 12 Outubro de 2009