sábado, 27 de março de 2010

Desculpa

Deus vagueia pelo jardim. Pensa, sofre, chora. E caminha. Está triste (Ele, que é a alegria em pessoa!). Como um cãozinho que esconde o rabo entre as pernas, aproximo-me Dele por trás e em surdina pergunto: “Senhor, o que tens? Porque choras?” Deus vira-se de repente e fita-me com aqueles olhos penetrantes que nos metem a nu, doces e genuínos.
“Estou triste”, diz-me. “Triste, Senhor, mas porquê?”, pergunto apesar de imaginar a resposta.
“Foi a Eva. E o Adão. Não quiseram o que quis para eles. E agora estão assim, vês?...” E estendendo a mão, afasta uma nuvem que me impedia a visão e faz-me olhar para a Terra inteira. Não posso conter as lágrimas, porque o espectáculo é realmente desolador. E ao lado de Deus ajoelho-me assustada e triste. Conheço demasiado bem estas cenas, porque as vejo diariamente.
Mulheres sós, que choram. Homens sós, que gritam. Impaciências, discussões, falta de tempo, muita falta de tempo, cansaço, traições, egoísmos, invejas, palavras feias, gestos que doem, corpos usados, almas feridas. Crianças por amar. Pais que nunca foram crianças. Jovens perdidos que passam a vida a mexer-se, a dançar e a viajar, tal é a inquietação que os corrói… Adultos desiludidos que são miúdos grandes fartos de sofrer e de aguentar sozinhos, velhinhos deixados em qualquer canto rotulados de inúteis sobrecargas, doentes que não parecem pessoas, feios pela doença, despidos pelos homens.
Faz frio. Muito frio. E está tudo a meia-luz. E eu tremo. E choro. Por cada rosto triste que vejo. Raríssimas as caras serenas, as que exalam sorrisos, as que parecem felizes, as que vivem devagar. Correm todos tantos!...
Deus abraça-me com aqueles Seus braços paternos que não sentia há tanto tempo e segreda-me: “Não foi isto que pensei para vós. Para nós. Não era isto que eu sonhava. Estou triste, sim, porque vós estais tristes.” “Se soubessem o dom de Deus!… e aquilo que vos quereria dar!…”
“Que sonhavas, Senhor, que sonhavas? Onde é que errámos?” Deus aponta-me o homem. E a mulher. De costas um para o outro. Sozinhos. Vazios. E segreda-me que o problema começou na desconfiança. Que tinha sido destruída a relação primordial, a original, no seu mais íntimo. O homem e a mulher esqueceram-se de quem são, porque deixaram de se olhar. E deixaram de se olhar porque não suportavam a nova imagem que cada um deles tinha. Tinham perdido a imagem de Deus que cada um deles reflectia. Perderam a beleza original, a pureza primordial, a harmonia plena das suas potências, dos seus sentimentos. E feios, feios, muito feios, não se podiam olhar. Como perderam Deus, perderam-se a si. E os dois já não podiam ser aquela única carne, aquele “nós” que os faz plenos, que realiza a sua sede de comunhão, que sara o vazio de não encontrar “nenhum semelhante”. Já não eram semelhantes. Eram dois desconhecidos que desconheciam o caminho para casa. E não caminhavam mais lado a lado.
“Então, mas esta crise toda, começou aí, Senhor?”, perguntei eu ainda sem entender bem o alcance do problema.
No coração do Universo, no íntimo do pulsar da Criação está uma relação. A de Deus com a Humanidade. Imagem perfeita dessa era a do homem e da mulher. Estragou-se a segunda, porque se estragou a primeira. Mas a história não termina aqui.
Deus redimiu a primeira. É tão cara que custou o preço de um Deus. Mas assim, abriu as portas à segunda.
O amor do homem e da mulher precisa da Redenção. Estamos no beijo de Judas. Aproxima-se, porém, o Domingo glorioso da Ressurreição.
Haverá alguém que entenda esta linguagem, Senhor?
E enquanto me volta a abraçar ao Seu peito, ajoelhados sobre o Mundo, segreda-me que se alguns não entendem é porque não se ouviram o suficiente, já que o grito do “amor para sempre” explode em cada um desses rostos inquietos (“Eu sei o que é isso, Senhor, sei muito bem, também grita aqui dentro!...”).
O amor conjugal precisa de Páscoa.
Desculpa, Senhor, as Tuas lágrimas!

A todos os que procuram entender as próprias lágrimas

Lisboa, 27/03/2010

domingo, 7 de março de 2010

Parabéns Mulher!


Se tivesse que te dizer numa palavra, diria ternura.
Alegra-te, Mulher, porque se o Homem foi a última obra e o cume da Criação, tu foste o exagero da generosidade e da perfeição de Deus.
Vi-te, escondida, de joelhos a rezar. E nesse dia tinha discutido contigo.
Vi-te, em silêncio, ouvir palavras injustas ditas a ti, por aqueles a quem serves. Mais tarde disseste-me que isso não era aturar, era amar.
Vi-te acordar muitas, muitas vezes durante as noites, tão curtas para ti, para acudir à desorientação das velhinhas de casa, enquanto, no meu edredon, escondia a voz da consciência que me dizia que também eu me poderia ter levantado.
Vi-te levantar com as galinhas para preparar as refeições que eu levaria para os dias longe de casa, enquanto eu sonhava no meu sono não sei com quê.
Vi-te engolir em seco a lagrimazita que escorria ao canto do olho porque quem devia estar não estava. Nunca estava.
E nunca te ouvi uma palavra negativa contra ninguém. De casa ou fora de casa.
Vi-te emocionada até às lágrimas no dia em que consegui terminar aquele trabalho tão importante e tão bem cotado. E naquele outro em que ganhei o festival. E sinceramente, não percebi como se podia ficar tão feliz por algo que não nos pertencia.
Mais tarde entendi que tudo o que era meu te pertencia. Mais tarde percebi que é verdade o que diz a velhinha do Titanic: “o coração de uma mulher é como o oceano, não tem fim nem fundo, alberga muito segredos, muitas alegrias, muitas dores, que nunca ninguém poderá abarcar”. E percebi ainda que a vocação de qualquer Mulher, que o queira ser é esta: ser Mãe. Ser Mãe é não ter fronteiras no coração.
O Mundo está todo desarrumado. É como a nossa casa quando tu vais para fora. Falta-lhe a Mãe. Ao Mundo também lhe faltam Mães. Porque são as únicas que sabem realmente o que é… cuidar. A Mãe é aquela que cuida. Discreta. Serena. Sacrificada. Alegre. Elegante. Delicada. Magnânime. Senhora de si. Humilde. Nobre. Belíssima!
Não há nada como as mãos de uma Mãe! Bem, talvez o rosto. E o colo…
Obrigada Mulher! Obrigada Mãe!
Se há tanta gente fria e má, é porque nunca soube o que era ter uma Mãe. É por isso que não podemos parar.
Queridas amigas, Mulheres, Irmãs, Mães, que ao longo da vida se têm cruzado comigo, que me ensinaram o que é ser Mulher, ser Mãe, que me mostraram o caminho feliz de viver para servir, para cuidar, para dar a forma de lar a cada casa, o caminho feliz de aliviar as cargas dos que chegam, de mandar felizes os que partem, obrigada! Obrigada!
Não tenham medo. Da dor, da solidão, do sacrifício, da entrega, da fidelidade, do segundo plano. Porque a maior parte da vida passa-se nos bastidores. E para que o palco se mantenha aberto, não podem faltar as Mães.
Continuem assim, dignas, diferentes, porque Mulheres. O Mundo agradece. E eu também. Ambos precisamos de Mulheres sem medo de o serem. Não se esqueçam de quem são!
E é com o coração de joelhos diante da vossa grandeza que vos digo mais uma vez: muito obrigada!


À minha Mãe, às minhas Mães, às Mães de toda a gente, que mantêm no Mundo a lareira acesa

Acorda-me!


Dormi só 5 horas. Cheia de sono, com o cabelo enrodilhado por esta chuva que teima em não ir embora (só me consola o que diz a companheira de quarto, que o meu estilo é o penteado despenteado, que está na moda…), com frio porque mais uma vez me enganei na quantidade de roupa a vestir, ainda com o pequeno-almoço por tomar, chego ao hospital ofegante do passo apressado. Visto a bata, que devia ter trocado mas esqueci-me da lavada e subo as escadas até ao piso sempre demasiado alto, enquanto penso na inutilidade de ter elevadores se não se conseguem utilizar em tempo útil. E enquanto ensaio o sorriso que tenho de pôr antes de passar aquela porta, vejo se há mensagens no telemóvel e penso que hoje tenho mesmo de sair a horas, para ver se consigo estudar as horas que preciso durante a tarde.
Olha para a lista dos doentes. Três entradas. Ok, vai-me tocar um deles a mim. Lavo as mãos e lá vou eu procurar a senhora, chamemos-lhe Maria.
Vejo-a de alto a baixo, oiço-a por dentro, palpo-lhe o que devo, anoto tudo porque nunca confio na minha memória, muito menos a esta hora da manhã. A seguir vou procurar um esfigmomanómetro que funcione bem e tento trazê-lo através da gincana de macas pelo corredor…
Enquanto falo com a senhora Maria tento concentrar-me nela. Esquecer-me de tudo o resto. Do que tenho para fazer. Do telefonema que me esqueci de retribuir. Da inquietação que me ferve dentro. Da dor de estômago. Do sono. Do cheiro menos agradável que paira por todo o serviço. Da fealdade das doenças. Dos gemidos e gritos que se vão ouvindo. Agora estou para a senhora Maria. Mas é uma vida tão triste, tão complicada, tão vazia, tão solitária, que me apercebo de ser invadida por um sono que não me é totalmente estranho. Faz-me lembrar um outro, há já muitos anos, em que teimavam em cair aqueles que deviam acompanhar um Homem que sofria horrivelmente. O sono de não querer chorar. De não querer sofrer. De fugir da “com-passione”, da compaixão, e deixar o outro viver sozinho a sua paixão. Porquê?
Oh, porque dói. Porque entristece. Porque nos recorda a nossa própria miséria, o nosso próprio destino enquanto seres humanos, que passa necessariamente pela dor e pela morte. Bolas! Se já a nossa vida dói, porque é que hei-de sentir com os outros?... É nessa hora que chega o sono, uma espécie de narcótico para quem não quer estar totalmente consciente da dimensão da dor alheia. Porque isso significaria torná-la nossa.
Só nos esquecemos de um pormenor. É que permanecendo adormecidos, sim não sofremos, mas também não vivemos. Hibernamos, como a Turty lá de casa. E assim não somos homens, não somos nada mais que a Turty.
E no meio destas filosofias, vem-me acordar do meu sono cobarde a senhora Maria, que me aperta a mão firmemente. “Ó Menina Doutora, não me largue! Não me largue, não? As suas mãos são tão boas! Dão-me vida quando me tocam.”
“Dão-me vida quando me tocam.” “Dão-me vida quando me tocam…”, vou pensando enquanto me encaminho para a sala do médicos onde registo “vigil, consciente, desorientada temporal e espacialmente, discurso por vezes incoerente e inadequado”, que corresponde à avaliação realizada. Mas são estes doentes, que no meio da sua confusão e doença, nos vão dando estas bofetadas que nos acordam do sono em que queremos mergulhar, por estarmos cansados de ser homens.
Cátia, Cátia, não adormeças! E não guardes a vida das tuas mãos para ti.
Acordem-me se me virem dormitar, sim?

A todos os que não se deixam adormecer e aos que me acordam diariamente