domingo, 27 de julho de 2014

Era uma vez uma casa


Era uma vez uma casa. Tinha paredes, tinha telhado. As paredes tinham várias janelas, de vários tamanhos, viradas para o sol nalguma hora do dia. Ao telhado podia-se chegar por dentro, através da claraboia do sótão, um espaço amplo, forrado de madeira que ainda cheirava a pinheiro. No resto da casa cheirava à lareira acesa da sala dos sofás, onde as pessoas ao fim do dia se aconchegavam em mantas e pantufas e conversavam. Cheirava a castanhas assadas no Outono, a rabanadas pelo Natal, a flores frescas na Páscoa e a rosmaninho pelo S. João. Tinha varandas onde pendiam floreiras verdes com petúnias e sardinheiras, vermelhas, amarelas e cor de laranja. Tinha uma entrada ampla, com uma grande porta amarela onde se chegava depois de um pequeno trajeto em ladrilho que atravessava a relva. Lá dentro havia muitas fotografias espalhadas por todas as paredes dos corredores, dos quartos, da sala dos sofás… Fotografias de muitos lugares, de muitas pessoas diferentes, com tons de pele diferentes, com cabelos e chapéus diferentes, com sorrisos diferentes mas parecidos… Crianças, velhinhos, adultos, famílias inteiras… Quem entrava naquela casa, ficava com a sensação de fazer uma viagem pelo mundo todo!... Aquela casa guardava muitas imagens bonitas, de muitas paisagens bonitas, que a maior parte das pessoas nunca verão pessoalmente, por não terem tido essa oportunidade ou essa coragem. E para além das imagens, das cores e dos cheiros bons, aquela casa tinha qualquer coisa mais, de maravilhoso, de precioso, que é difícil pôr por palavras… Não sei se era das gargalhadas que se ouviam ou do tagarelar de quem lá vivia, da roda viva do quotidiano ou do silêncio ao olhar para a lenha a queimar… Não sei… Mas sei que ali o espaço existia. Ali, o tempo existia. Havia passado, passados- muitas muitas memórias-, presente, presentes -uns mais inesperados do que outros-, futuro, futuros –muitos muitos sonhos-… Havia tempo e havia espaço. Havia pessoas com tempo e com espaço. Havia espaço para abraços, por exemplo, daqueles largos, envolventes, que parece que nos cobrem como cobertores… Espaço para passos de dança toscos e improvisados ao som da guitarra tosca que improvisava, acompanhada de uma voz brincalhona que improvisava. Espaço para corridas nos corredores, a pé, ao pé coxinho, às cavalitas… Espaço para fingir que se é o monstro das bolachas que vai comer quem não se esconder… Espaços em branco também, à espera de serem pintados por algum artista com inspiração de momento… Espaço para sentar no chão e ler até de madrugada… E havia tempo. Tempo para ouvir e chorar, tempo para falar e sonhar, tempo para se agarrar à barriga que doía de tanto rir, tempo para cozinhar com tempo, tempo para pensar, tempo para sentir, tempo para apreciar os cheiros, os sabores, os sons, as vidas que habitavam aquela casa. E havia ali um enorme respeito, veneração mesmo, pelo tempo que já passara. E um enorme entusiasmo, ganas mesmo, pelo tempo que havia de vir…   

Não sei se eram só o tempo e o espaço que existiam naquela casa que a tornavam tão cativante… Mas também não sei o que era… Talvez fossem as pessoas. As que lá moravam e aquelas que moravam nas que lá moravam… Estas então eram imensas!... Talvez por isso, aquela casa parecesse ser habitada por uma multidão! E apesar disso, as pessoas entendiam-se e eram todas bem-vindas. Sentiam-se bem ali. Sentiam que pertenciam a algum lado, a alguém. Sentiam-se herança umas das outras. Companheiras de caminho umas das outras. Sim, porque algumas demoravam-se pouco por lá, repousavam um pouco e seguiam viagem. De um certo modo, permaneciam ali, nas outras que lá ficavam. E acabavam sempre por regressar. Saudade. Muitas saudades. Atrevo-me a dizer que eram felizes, as pessoas que habitavam aquela casa. Ali também não faltava a mãe. E também não faltava o pai. Pode haver uma casa sem mãe? Sem pai?     

Era uma vez uma casa, que era um lar.
 
Às casas humanas que tenho aí espalhadas pelo Mundo
Lousã, 10/12/2013

A descoberta do Ré menor

‘Ti Anica, Ti’Anica, Ti’Anica do Loulé! A quem deixaria ela a caixinha do rapé…”

Já sei três acordes, que a minha irmã mais velha fez o frete de me ensinar, com a recomendação: “Agora tens de treinar e treinar até doer os dedos…. Com o Lá, Ré MI, já podes tocar muitas canções…”

Ah, percebi a mensagem... “Ó Laurindinha, vem à janela…” E aquela: “Parabéns a você…” “O mar enrola na areia…ninguém sabe o que ele diz…”

“Já cantavas outra, não?!”, grita do andar de baixo outra irmã.

Querer até queria, mas com o Lá Ré Mi pouco mais do que as canções populares posso tocar… Ah, queria tocar as “Dunas” mas, chega à parte dos “divãs” e canto sem viola porque não consigo fazer aquele som, aquele que encaixa ali bem. Parece que está a pedir um tom mais triste, não sei explicar, mas o ouvido pede outro som…

“Já te ensinei três, e esses já dão para tocar muitas coisas. Se quiseres tens ali o livro de acordes para veres outros.”

E lá fui eu à procura do Ré menor… Ora bem, primeiro dedo no primeiro traste, segundo dedo no segundo traste terceira corda… ai, que ginástica têm que fazer os dedos… mas alguém consegue lá chegar?! “Dunas, são como divãs… biombos indiscretos…” O que é que são biombos? Serão bombons?... “Dunas, são como…” Que som tão estranho, não devo estar a fazer bem, mas já não esticam mais, os dedos…

“Fecha a pooorta!”

E fecho a porta. “Dunas, são como divãs… biombos indis…" Ainda desafnado…

“Dunas, são como divãs… biombos…”

“Dunas, são como divãs…”

Tentativa, após tentativa, vou esticando os dedos já doridos e quando ia poisar a viola… “Dunas, são como divãs… biombos indiscretos!” E de repente, as cordas soltam-se!...

Ah, é isto, é este o som! Uau!...
Que bem que soa!
Então é isto um Ré menor!…

“Dunas, são como divãs… biombos indiscretos!” Ena, que som tão… certo!

Andei à procura deste som, tanto tempo, tanto tempo!… Faltava-me o Ré menor.

A canção estava incompleta, havia ali um vazio na melodia que a voz tentava cobrir, mas encontrei, ENCONTREI o Ré menor!!!

É mágico, é mágico: três dedos em dois trastos em três cordas na mão esquerda, cinco dedos na mão direita a trinar as cordas num ritmo veloz, e, plim!, o som solta-se, a alma acalma-se e a voz embalada faz coro com a guitarra… E, e agora posso cantar a alegria, mas também a tristeza, o entusiasmo, como a saudade, o encontro assim como a solidão, a raiva assim como a gratidão…

Encontrei o Ré menor, encontrei mais umas letras do alfabeto musical e pude aumentar o meu vocabulário… Já falo melhor, agora! E com a música posso dizer tudo, mesmo aquilo que as palavras não alcançam e os sons dizem tão bem…

Ele estava dentro do meu ouvido, eu ouvia-o por dentro, ainda antes de o conseguir ouvir nos meus dedos… Ah e soa tão bem! Aquece, conforta, preenche, surpreende, apazigua… Tenho um Ré menor dentro de mim e agora sei dizê-lo.

“Dunas, são como divãs… biombos indiscretos!”

Às minhas professoras caseiras de viola, aos meus amigos companheiros de palco
17/10/13


 

Ao Pedrinho


Querido “Pedrinho”,

Desculpa chamar-te por este nome. Bem sei que te arreliou muitas vezes, mas entende-o como uma linguagem só nossa, uma espécie de código… É com carinho que o emprego e até com alguma saudade… Não te zangues desta vez, não?
Lembras-te do dia em que tirámos esta fotografia? Meu Deus, que figuras!... Mas hoje invejo-te…
Pareces tão descontraída, tão genuinamente alegre, tão feliz!... E tudo porque nessa manhã, antes do pai sair para o trabalho, foi ao quarto das meninas dizer: “Querem ver o que está lá fora?”, com aquele ar maroto de quem traz alguma na manga… Levantámo-nos a correr, como para a escola não fazíamos, e puxámos velozmente a persiana…

Ena, tudo branco!...

Nunca tinha visto tanta neve junta! Habitualmente nevava todos os Invernos, mas não o suficiente para acumular no chão e brincar… Naquela manhã de semana, a neve tinha cerca de um metro ou mais (achava eu)! Já não voltámos para a cama, claro que não, o dia chamava por nós!
 “Ó pai, hoje há escola? Se está a nevar assim!...” “Pois, não sei, se calhar é melhor irem ver e se não houver voltam para casa, pronto…” “Oooh, bolas!…”
E lá fomos nós vestir os casacos de Inverno, as galochas e as luvas e corremos para a escola, ainda antes da hora prevista… Pelo aspeto demasiado parado, não parecia haver aulas.
Encontrámos lá a D. Helena, a auxiliar que nos dava o leite achocolatado a meio da manhã e vigiava o recreio, gordinha e com bigode, que andava sempre de xaile preto pelos ombros e perguntámos-lhe se havia aulas: “Ó meninas, não há não, eu vim aqui para avisar os meninos de que não há aulas, porque a D. Prazeres não conseguiu sair de casa, tem a estrada cortada.”
A D. Prazeres era a nossa professora. Santa senhora… Sempre imaginei que ela não se casou porque tinha que tomar conta de muitos filhos, que erámos nós e dávamos muito trabalho…
Bem, mas nesse dia, não tínhamos, portanto, de ficar ali. ‘Bora p’ra casa, que se está a perder a neve! Fiquei a pensar que provavelmente, no dia seguinte, a D. Prazeres nos ia pedir para fazer uma composição com o tema “Um dia com neve”, como sempre acontecia quando apareciam oportunidades originais de temas para composições.
Voltámos para casa, eu e as minhas irmãs, e passámos o resto da manhã na brincadeira… Recordas-te, Pedrinho? É engraçado, nunca tínhamos brincado na neve, mas deve ser como ir à praia pela primeira vez, toda a gente sabe como é que se faz e como é que se brinca na areia e no mar…
E nós, mesmo sem lições prévias, brincámos que nos fartámos… Fizemos batalhas de bolas de neve e contruímos 3 bonecos de neve, um para cada uma de nós, a que a minha irmã mais velha, que tirou as fotos desse dia, chamou “Tortugas”- porque a minha irmã Paula tinha um fato de treino das tartarugas Ninja-, “Chico Fininho”- o Pedrinho, por ser um palito- e Piolho elétrico- porque a minha irmã Carmen parecia ter pilhas, era impossível!... Pelo menos era o que dizia a minha mãe. Cada boneco levou um letreiro com os respetivos nomes, uma cenoura no nariz e o meu levou um cachecol, porque achei que ele devia ter muito frio, assim todo de neve… “És mesmo totó, achas que um boneco de neve tem frio?!” Mas nunca se sabe, nunca se sabe…

O que eu sei é que pela primeira vez na vida pudemos brincar com a neve, como quem vai à Serra da Estrela, só que é no nosso quintal… E o melhor de tudo é que não tivemos aulas!      

Ao fim da tarde desse dia, a neve já não dava para brincar, começava a derreter… E os nossos bonecos estavam mirradinhos… Ainda tentei guardar um bocado no congelador, mas fiquei com um bocado de gelo, não com neve.

Foi um dia em grande! Como um dia de festa. A minha mãe costumava dizer: “Vocês fazem a festa, deitam os foguetes e apanham as canas…” Lembro-me de só em crescida ter percebido o que é que esta frase queria dizer, mas se a minha mãe dizia tinha de ser verdade.

Hoje, à distância de 20 anos, fico feliz ao ver estampada no teu rosto essa alegria que a neve nos trouxe e a festa que nós fizemos com tão pouco… Profecia ou não, a verdade é que a minha primeira “vergonha pública” foi a recitar a “Balada da Neve”, 4 anos mais tarde, na festa de Natal da escola… “Batem leve, levemente, como quem chama por mim…”Ainda hoje a sei de cor e não há forma de memorizar o meu número de telefone!... 

Obrigada, Pedrinho, por estas memórias, por estas lembranças de que ainda consigo sentir o cheiro. E hoje, é em frente ao mesmo quintal que te escrevo… A paisagem mudou um pouco, sabes? O espaço onde ficaram os bonecos de neve tem agora uma cerejeira, um tanque e um poço… Mas mesmo sem neve, o cheiro é o mesmo… E cheira bem… Muito bem… Às lareiras acesas, à terra molhada, às castanhas assadas… Uumm!...

E sabes? Até nem te ficava nada mal esse corte de cabelo!...  Nem ele te impediu de tirares Muito Bom na composição “Viva a neve!”.

Posso pedir-te uma coisa? Não te afastes muito de mim, não? Se não complico-me!... E estou mesmo a precisar da tua alegre simplicidade…

 
À criança que vive em cada um de nós
Viseu, 6 de Novembro de 2013

sábado, 19 de julho de 2014

Casa

Lembrei-me agora, ou fizeram-me lembrar para ser exata, que há já muito tempo que não ponho em palavras escritas algum pensamento-andorinha. Como diz a parede do Largo Pintor Gata, que gostavas de te mostrar, “Sempre é tempo”. E aqui estou.

Ultimamente, moro numa casa de bonecas, com paredes de vidro. As que não são de vidro são vermelhas. Nunca está às escuras. De dia, o sol entra por quatro frentes e seca-me sempre a fruta em cima da bancada. De noite, a ausência de persianas, torna a lua convidada para a minha privacidade. Quando não há luar, mantêm o ambiente acolhedor os candeeiros da rua, creio que os do Paço Episcopal, cuja capela olha para a minha varanda. A outra varanda estende-se para o Caramulo e não me canso de lhe olhar a beleza. Com a luz tímida do sol nascente, no laranja da tarde quente, no tom violeta e azul do início da noite, há vários quadros e cada qual mais lindo que o outro. O Céu tem tantas cores!...

Outro pormenor que me delicia é o voo das andorinhas… De manhã acordo com a brincadeira delas e no fim da tarde, lá voltam elas!... Não sei o que fazem durante o dia, mas, e sem querer ser auto-referencial, diria que vão ali para o largo em frente à minha varanda quando eu estou em casa. E já as observei, demoradamente, tentando compreender o padrão da sua dança. Vêm às dezenas, são imensas, negras e pequeninas, ágeis. E voam sempre juntas, é impressionante!... Como se ensaia uma coreografia com tantos figurantes?...

Mas elas parecem saber os passos de cor. E não, não lhes encontrei um padrão. Andam para aqui e para ali, aos S, sem destino, para a esquerda e para baixo. Se lhes tivesse que pôr um adjetivo diria: divertidas. Sim, é isso. Não sei se estão a voar bem se não, mas parecem divertidas. Alegres, tontas. A disfrutar as cores do céu. E eu desconfio que vêm também para embelezar o quadro, à espera que eu queira tirar uma fotografia ao Caramulo e as apanhe.

São divertidas. Simples. Andam para ali a dançar de um lado para o outro. Sem propósito. Sem programa, sem horário. Ou então esse é o seu propósito, o seu horário. Não ter um.

Como fazem para conseguir voar naquelas inclinações?!... Desafiam a gravidade, deixam-me tonta, a mim que tenho algum medo das alturas e de tudo o que seja tirar os pés do chão!…

Divertidas. E com o olhar acompanho a dança delas e imagino-me andorinha… Para aqui e para ali. Livre e divertida. Feliz. A dançar. Como dizia o Marco, “dançar é chamar corpo ao pensamento”; fico a imaginar em que é que elas estarão a pensar... Às vezes, tenho pensamentos que postos em dança dariam uma coreografia espantosa, vibrante, transparente, enérgica!...

É muito bom dançar.

Ando agora a descobrir músculos no meu corpo… E articulações. E movimentos. Apesar de ter passado no exame de anatomia há muito tempo. A verdade é que só me perguntaram os músculos do antebraço… Mas a dança é outra coisa. É músculos mais música. É articulações mais ritmo. É movimentos mais liberdade. Exterior e interior. É conversar com o corpo todo. Num diálogo sôfrego, como todas as minhas conversas que parecem nunca acabar e desafiam a lei da relatividade do tempo que parece sempre muito curto. Novamente o Marco: dançar é “ir atrás do mar quando o mar vem atrás de nós”… Agora tu, agora eu… 1,2,3,4, e 1,2,3,4… Para a esquerda, para a direita, 1,2,3,4… Oh, mas lá estou eu a controlar!...

Esquece. Voa como quiseres, dança como quiseres… Conversa tudo, como quiseres. Tenho de aprender a dançar “free style”!... Porque é que o mais difícil é o fazer como me apetecer?

Constrange-me o improviso. A imprevisibilidade. O descontrolo. Desejo-o e temo. Como sempre acontece com o que se deseja.

A minha casa está construída sobre um penedo de granito. Coberto de musgo. Cada vez que estaciono o carro por baixo das trepadeiras bem cheirosas, cumprimento-o e acolhe-me sempre com um sorriso e um abraço. Tenho penedos a toda a volta da minha casa. Uma explosão de granito que me recorda a força que habita em mim! Em ti.

Refúgio, memória, saudade, reconstrução, pensamento, dança. Inabalável. Como o meu penedo ladeado de cheiros primaveris e amarelos. Saio de casa, desço as escadas e abro os dois portões com a chave que tem uma pequena mania. Com jeitinho, deixa-se levar. Saio feliz. Enquanto o portão automático abre, passo o batom nos lábios, arrumo o telemóvel, ligo o rádio com o CD e troco o cheirinho do carro. Um pensamento para o céu, com o pedido matinal- “Que eu seja boa hoje!”- e o portão acaba de abrir.

Ao regressar, novamente o meu penedo me abraça, envolvente e inabalável. Perfumado. Ainda hei-de subir a ele um dia! “O dia foi bom, sim, obrigada!” E subo, vagarosa, as escadas. Sem me esquecer de contrair o transverso. E abro as manias aos dois portões. E respiro novamente o doce sabor a casa. “Home is where the heart is”.

Abro as janelas para o ar circular. E enquanto bebo o meu batido com canela, acompanho a dança das andorinhas. 
Em casa.
 
19/07/14
À andorinha que com a sua dança me desafiou a voltar a dançar.