Querido “Pedrinho”,
Desculpa chamar-te por este nome. Bem sei que te arreliou
muitas vezes, mas entende-o como uma linguagem só nossa, uma espécie de código…
É com carinho que o emprego e até com alguma saudade… Não te zangues desta vez, não?
Pareces tão descontraída, tão genuinamente
alegre, tão feliz!... E tudo porque nessa manhã, antes do pai sair para o
trabalho, foi ao quarto das meninas dizer: “Querem ver o que está lá fora?”, com
aquele ar maroto de quem traz alguma na manga… Levantámo-nos a correr, como
para a escola não fazíamos, e puxámos velozmente a persiana…
Ena, tudo branco!...
Nunca tinha visto tanta neve junta! Habitualmente nevava todos
os Invernos, mas não o suficiente para acumular no chão e brincar… Naquela
manhã de semana, a neve tinha cerca de um metro ou mais (achava eu)! Já não
voltámos para a cama, claro que não, o dia chamava por nós!
“Ó pai, hoje há
escola? Se está a nevar assim!...” “Pois, não sei, se calhar é melhor irem ver
e se não houver voltam para casa, pronto…” “Oooh, bolas!…”
E lá fomos nós vestir
os casacos de Inverno, as galochas e as luvas e corremos para a escola, ainda
antes da hora prevista… Pelo aspeto demasiado parado, não parecia haver aulas.
Encontrámos lá a D. Helena, a auxiliar que nos dava o leite achocolatado a meio
da manhã e vigiava o recreio, gordinha e com bigode, que andava sempre de xaile
preto pelos ombros e perguntámos-lhe se havia aulas: “Ó meninas, não há não, eu
vim aqui para avisar os meninos de que não há aulas, porque a D. Prazeres não
conseguiu sair de casa, tem a estrada cortada.”
A D. Prazeres era a nossa
professora. Santa senhora… Sempre imaginei que ela não se casou porque tinha
que tomar conta de muitos filhos, que erámos nós e dávamos muito trabalho…
Bem,
mas nesse dia, não tínhamos, portanto, de ficar ali. ‘Bora p’ra casa, que se
está a perder a neve! Fiquei a pensar que provavelmente, no dia seguinte, a D.
Prazeres nos ia pedir para fazer uma composição com o tema “Um dia com neve”,
como sempre acontecia quando apareciam oportunidades originais de temas para
composições.
Voltámos para casa, eu e as minhas irmãs, e passámos o resto
da manhã na brincadeira… Recordas-te, Pedrinho? É engraçado, nunca tínhamos
brincado na neve, mas deve ser como ir à praia pela primeira vez, toda a gente
sabe como é que se faz e como é que se brinca na areia e no mar…
E nós, mesmo
sem lições prévias, brincámos que nos fartámos… Fizemos batalhas de bolas de
neve e contruímos 3 bonecos de neve, um para cada uma de nós, a que a minha
irmã mais velha, que tirou as fotos desse dia, chamou “Tortugas”- porque a
minha irmã Paula tinha um fato de treino das tartarugas Ninja-, “Chico
Fininho”- o Pedrinho, por ser um palito- e Piolho elétrico- porque a minha irmã
Carmen parecia ter pilhas, era impossível!... Pelo menos era o que dizia a
minha mãe. Cada boneco levou um letreiro com os respetivos nomes, uma cenoura
no nariz e o meu levou um cachecol, porque achei que ele devia ter muito frio,
assim todo de neve… “És mesmo totó, achas que um boneco de neve tem frio?!” Mas
nunca se sabe, nunca se sabe…
O que eu sei é que pela primeira vez na vida pudemos brincar
com a neve, como quem vai à Serra da Estrela, só que é no nosso quintal… E o
melhor de tudo é que não tivemos aulas!
Ao fim da tarde desse dia, a neve já não dava para brincar,
começava a derreter… E os nossos bonecos estavam mirradinhos… Ainda tentei
guardar um bocado no congelador, mas fiquei com um bocado de gelo, não com
neve.
Foi um dia em grande! Como um dia de festa. A minha mãe costumava
dizer: “Vocês fazem a festa, deitam os foguetes e apanham as canas…” Lembro-me
de só em crescida ter percebido o que é que esta frase queria dizer, mas se a
minha mãe dizia tinha de ser verdade.
Hoje, à distância de 20 anos, fico feliz ao ver estampada no
teu rosto essa alegria que a neve nos trouxe e a festa que nós fizemos com tão
pouco… Profecia ou não, a verdade é que a minha primeira “vergonha pública” foi
a recitar a “Balada da Neve”, 4 anos mais tarde, na festa de Natal da escola…
“Batem leve, levemente, como quem chama por mim…”Ainda hoje a sei de cor e não
há forma de memorizar o meu número de telefone!...
Obrigada, Pedrinho, por estas memórias, por estas lembranças
de que ainda consigo sentir o cheiro. E hoje, é em frente ao mesmo quintal que
te escrevo… A paisagem mudou um pouco, sabes? O espaço onde ficaram os bonecos
de neve tem agora uma cerejeira, um tanque e um poço… Mas mesmo sem neve, o
cheiro é o mesmo… E cheira bem… Muito bem… Às lareiras acesas, à terra molhada,
às castanhas assadas… Uumm!...
E sabes? Até nem te ficava nada mal esse corte de cabelo!...
Nem ele te impediu de tirares Muito Bom
na composição “Viva a neve!”.
Posso pedir-te uma coisa? Não te afastes muito de mim, não?
Se não complico-me!... E estou mesmo a precisar da tua alegre simplicidade…
Viseu, 6 de Novembro de 2013
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