domingo, 27 de julho de 2014

Ao Pedrinho


Querido “Pedrinho”,

Desculpa chamar-te por este nome. Bem sei que te arreliou muitas vezes, mas entende-o como uma linguagem só nossa, uma espécie de código… É com carinho que o emprego e até com alguma saudade… Não te zangues desta vez, não?
Lembras-te do dia em que tirámos esta fotografia? Meu Deus, que figuras!... Mas hoje invejo-te…
Pareces tão descontraída, tão genuinamente alegre, tão feliz!... E tudo porque nessa manhã, antes do pai sair para o trabalho, foi ao quarto das meninas dizer: “Querem ver o que está lá fora?”, com aquele ar maroto de quem traz alguma na manga… Levantámo-nos a correr, como para a escola não fazíamos, e puxámos velozmente a persiana…

Ena, tudo branco!...

Nunca tinha visto tanta neve junta! Habitualmente nevava todos os Invernos, mas não o suficiente para acumular no chão e brincar… Naquela manhã de semana, a neve tinha cerca de um metro ou mais (achava eu)! Já não voltámos para a cama, claro que não, o dia chamava por nós!
 “Ó pai, hoje há escola? Se está a nevar assim!...” “Pois, não sei, se calhar é melhor irem ver e se não houver voltam para casa, pronto…” “Oooh, bolas!…”
E lá fomos nós vestir os casacos de Inverno, as galochas e as luvas e corremos para a escola, ainda antes da hora prevista… Pelo aspeto demasiado parado, não parecia haver aulas.
Encontrámos lá a D. Helena, a auxiliar que nos dava o leite achocolatado a meio da manhã e vigiava o recreio, gordinha e com bigode, que andava sempre de xaile preto pelos ombros e perguntámos-lhe se havia aulas: “Ó meninas, não há não, eu vim aqui para avisar os meninos de que não há aulas, porque a D. Prazeres não conseguiu sair de casa, tem a estrada cortada.”
A D. Prazeres era a nossa professora. Santa senhora… Sempre imaginei que ela não se casou porque tinha que tomar conta de muitos filhos, que erámos nós e dávamos muito trabalho…
Bem, mas nesse dia, não tínhamos, portanto, de ficar ali. ‘Bora p’ra casa, que se está a perder a neve! Fiquei a pensar que provavelmente, no dia seguinte, a D. Prazeres nos ia pedir para fazer uma composição com o tema “Um dia com neve”, como sempre acontecia quando apareciam oportunidades originais de temas para composições.
Voltámos para casa, eu e as minhas irmãs, e passámos o resto da manhã na brincadeira… Recordas-te, Pedrinho? É engraçado, nunca tínhamos brincado na neve, mas deve ser como ir à praia pela primeira vez, toda a gente sabe como é que se faz e como é que se brinca na areia e no mar…
E nós, mesmo sem lições prévias, brincámos que nos fartámos… Fizemos batalhas de bolas de neve e contruímos 3 bonecos de neve, um para cada uma de nós, a que a minha irmã mais velha, que tirou as fotos desse dia, chamou “Tortugas”- porque a minha irmã Paula tinha um fato de treino das tartarugas Ninja-, “Chico Fininho”- o Pedrinho, por ser um palito- e Piolho elétrico- porque a minha irmã Carmen parecia ter pilhas, era impossível!... Pelo menos era o que dizia a minha mãe. Cada boneco levou um letreiro com os respetivos nomes, uma cenoura no nariz e o meu levou um cachecol, porque achei que ele devia ter muito frio, assim todo de neve… “És mesmo totó, achas que um boneco de neve tem frio?!” Mas nunca se sabe, nunca se sabe…

O que eu sei é que pela primeira vez na vida pudemos brincar com a neve, como quem vai à Serra da Estrela, só que é no nosso quintal… E o melhor de tudo é que não tivemos aulas!      

Ao fim da tarde desse dia, a neve já não dava para brincar, começava a derreter… E os nossos bonecos estavam mirradinhos… Ainda tentei guardar um bocado no congelador, mas fiquei com um bocado de gelo, não com neve.

Foi um dia em grande! Como um dia de festa. A minha mãe costumava dizer: “Vocês fazem a festa, deitam os foguetes e apanham as canas…” Lembro-me de só em crescida ter percebido o que é que esta frase queria dizer, mas se a minha mãe dizia tinha de ser verdade.

Hoje, à distância de 20 anos, fico feliz ao ver estampada no teu rosto essa alegria que a neve nos trouxe e a festa que nós fizemos com tão pouco… Profecia ou não, a verdade é que a minha primeira “vergonha pública” foi a recitar a “Balada da Neve”, 4 anos mais tarde, na festa de Natal da escola… “Batem leve, levemente, como quem chama por mim…”Ainda hoje a sei de cor e não há forma de memorizar o meu número de telefone!... 

Obrigada, Pedrinho, por estas memórias, por estas lembranças de que ainda consigo sentir o cheiro. E hoje, é em frente ao mesmo quintal que te escrevo… A paisagem mudou um pouco, sabes? O espaço onde ficaram os bonecos de neve tem agora uma cerejeira, um tanque e um poço… Mas mesmo sem neve, o cheiro é o mesmo… E cheira bem… Muito bem… Às lareiras acesas, à terra molhada, às castanhas assadas… Uumm!...

E sabes? Até nem te ficava nada mal esse corte de cabelo!...  Nem ele te impediu de tirares Muito Bom na composição “Viva a neve!”.

Posso pedir-te uma coisa? Não te afastes muito de mim, não? Se não complico-me!... E estou mesmo a precisar da tua alegre simplicidade…

 
À criança que vive em cada um de nós
Viseu, 6 de Novembro de 2013

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