Já sei três acordes, que
a minha irmã mais velha fez o frete de me ensinar, com a recomendação: “Agora
tens de treinar e treinar até doer os dedos…. Com o Lá, Ré MI, já podes tocar
muitas canções…”
Ah, percebi a mensagem... “Ó Laurindinha, vem à janela…” E aquela: “Parabéns a você…” “O mar enrola na
areia…ninguém sabe o que ele diz…”
“Já cantavas outra,
não?!”, grita do andar de baixo outra irmã.
Querer até queria, mas
com o Lá Ré Mi pouco mais do que as canções populares posso tocar… Ah, queria
tocar as “Dunas” mas, chega à parte dos “divãs” e canto sem viola porque não
consigo fazer aquele som, aquele que encaixa ali bem. Parece que está a pedir
um tom mais triste, não sei explicar, mas o ouvido pede outro som…
“Já te ensinei três, e
esses já dão para tocar muitas coisas. Se quiseres tens ali o livro de acordes
para veres outros.”
E lá fui eu à procura do
Ré menor… Ora bem, primeiro dedo no primeiro traste, segundo dedo no segundo
traste terceira corda… ai, que ginástica têm que fazer os dedos… mas alguém
consegue lá chegar?! “Dunas, são como divãs… biombos indiscretos…” O que é que
são biombos? Serão bombons?... “Dunas, são como…” Que som tão estranho, não
devo estar a fazer bem, mas já não esticam mais, os dedos…
“Fecha a pooorta!”
E fecho a porta. “Dunas,
são como divãs… biombos indis…" Ainda desafnado…
“Dunas, são como divãs…
biombos…”
“Dunas, são como divãs…”
Tentativa, após
tentativa, vou esticando os dedos já doridos e quando ia poisar a viola…
“Dunas, são como divãs… biombos indiscretos!” E de repente, as cordas soltam-se!...
Ah, é isto, é este o som!
Uau!...
Que bem que soa!
Então é isto um Ré menor!…
“Dunas, são como divãs…
biombos indiscretos!” Ena, que som tão… certo!
Andei à procura deste
som, tanto tempo, tanto tempo!… Faltava-me o Ré menor.
A canção estava
incompleta, havia ali um vazio na melodia que a voz tentava cobrir, mas
encontrei, ENCONTREI o Ré menor!!!
É mágico, é mágico: três
dedos em dois trastos em três cordas na mão esquerda, cinco dedos na mão
direita a trinar as cordas num ritmo veloz, e, plim!, o som solta-se, a alma
acalma-se e a voz embalada faz coro com a guitarra… E, e agora posso cantar a
alegria, mas também a tristeza, o entusiasmo, como a saudade, o encontro assim
como a solidão, a raiva assim como a gratidão…
Encontrei o Ré menor,
encontrei mais umas letras do alfabeto musical e pude aumentar o meu
vocabulário… Já falo melhor, agora! E com a música posso dizer tudo, mesmo
aquilo que as palavras não alcançam e os sons dizem tão bem…
Ele estava dentro do meu
ouvido, eu ouvia-o por dentro, ainda antes de o conseguir ouvir nos meus dedos…
Ah e soa tão bem! Aquece, conforta, preenche, surpreende, apazigua… Tenho um Ré
menor dentro de mim e agora sei dizê-lo.
“Dunas, são como divãs…
biombos indiscretos!”

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