domingo, 27 de julho de 2014

A descoberta do Ré menor

‘Ti Anica, Ti’Anica, Ti’Anica do Loulé! A quem deixaria ela a caixinha do rapé…”

Já sei três acordes, que a minha irmã mais velha fez o frete de me ensinar, com a recomendação: “Agora tens de treinar e treinar até doer os dedos…. Com o Lá, Ré MI, já podes tocar muitas canções…”

Ah, percebi a mensagem... “Ó Laurindinha, vem à janela…” E aquela: “Parabéns a você…” “O mar enrola na areia…ninguém sabe o que ele diz…”

“Já cantavas outra, não?!”, grita do andar de baixo outra irmã.

Querer até queria, mas com o Lá Ré Mi pouco mais do que as canções populares posso tocar… Ah, queria tocar as “Dunas” mas, chega à parte dos “divãs” e canto sem viola porque não consigo fazer aquele som, aquele que encaixa ali bem. Parece que está a pedir um tom mais triste, não sei explicar, mas o ouvido pede outro som…

“Já te ensinei três, e esses já dão para tocar muitas coisas. Se quiseres tens ali o livro de acordes para veres outros.”

E lá fui eu à procura do Ré menor… Ora bem, primeiro dedo no primeiro traste, segundo dedo no segundo traste terceira corda… ai, que ginástica têm que fazer os dedos… mas alguém consegue lá chegar?! “Dunas, são como divãs… biombos indiscretos…” O que é que são biombos? Serão bombons?... “Dunas, são como…” Que som tão estranho, não devo estar a fazer bem, mas já não esticam mais, os dedos…

“Fecha a pooorta!”

E fecho a porta. “Dunas, são como divãs… biombos indis…" Ainda desafnado…

“Dunas, são como divãs… biombos…”

“Dunas, são como divãs…”

Tentativa, após tentativa, vou esticando os dedos já doridos e quando ia poisar a viola… “Dunas, são como divãs… biombos indiscretos!” E de repente, as cordas soltam-se!...

Ah, é isto, é este o som! Uau!...
Que bem que soa!
Então é isto um Ré menor!…

“Dunas, são como divãs… biombos indiscretos!” Ena, que som tão… certo!

Andei à procura deste som, tanto tempo, tanto tempo!… Faltava-me o Ré menor.

A canção estava incompleta, havia ali um vazio na melodia que a voz tentava cobrir, mas encontrei, ENCONTREI o Ré menor!!!

É mágico, é mágico: três dedos em dois trastos em três cordas na mão esquerda, cinco dedos na mão direita a trinar as cordas num ritmo veloz, e, plim!, o som solta-se, a alma acalma-se e a voz embalada faz coro com a guitarra… E, e agora posso cantar a alegria, mas também a tristeza, o entusiasmo, como a saudade, o encontro assim como a solidão, a raiva assim como a gratidão…

Encontrei o Ré menor, encontrei mais umas letras do alfabeto musical e pude aumentar o meu vocabulário… Já falo melhor, agora! E com a música posso dizer tudo, mesmo aquilo que as palavras não alcançam e os sons dizem tão bem…

Ele estava dentro do meu ouvido, eu ouvia-o por dentro, ainda antes de o conseguir ouvir nos meus dedos… Ah e soa tão bem! Aquece, conforta, preenche, surpreende, apazigua… Tenho um Ré menor dentro de mim e agora sei dizê-lo.

“Dunas, são como divãs… biombos indiscretos!”

Às minhas professoras caseiras de viola, aos meus amigos companheiros de palco
17/10/13


 

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