Ultimamente, moro numa casa de bonecas, com paredes de vidro. As que não
são de vidro são vermelhas. Nunca está às escuras. De dia, o sol entra por
quatro frentes e seca-me sempre a fruta em cima da bancada. De noite, a
ausência de persianas, torna a lua convidada para a minha privacidade. Quando
não há luar, mantêm o ambiente acolhedor os candeeiros da rua, creio que os do Paço
Episcopal, cuja capela olha para a minha varanda. A outra varanda estende-se
para o Caramulo e não me canso de lhe olhar a beleza. Com a luz tímida do sol
nascente, no laranja da tarde quente, no tom violeta e azul do início da noite,
há vários quadros e cada qual mais lindo que o outro. O Céu tem tantas cores!...
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Outro pormenor que me delicia é o voo das andorinhas… De
manhã acordo com a brincadeira delas e no fim da tarde, lá voltam elas!... Não
sei o que fazem durante o dia, mas, e sem querer ser auto-referencial, diria
que vão ali para o largo em frente à minha varanda quando eu estou em casa. E
já as observei, demoradamente, tentando compreender o padrão da sua dança. Vêm
às dezenas, são imensas, negras e pequeninas, ágeis. E voam sempre juntas, é
impressionante!... Como se ensaia uma coreografia com tantos figurantes?...
Mas elas parecem saber os passos de cor. E não, não lhes
encontrei um padrão. Andam para aqui e para ali, aos S, sem destino, para a
esquerda e para baixo. Se lhes tivesse que pôr um adjetivo diria: divertidas.
Sim, é isso. Não sei se estão a voar bem se não, mas parecem divertidas.
Alegres, tontas. A disfrutar as cores do céu. E eu desconfio que vêm também
para embelezar o quadro, à espera que eu queira tirar uma fotografia ao
Caramulo e as apanhe.
São divertidas. Simples. Andam para ali a dançar de um lado
para o outro. Sem propósito. Sem programa, sem horário. Ou então esse é o seu propósito,
o seu horário. Não ter um.
Como fazem para conseguir voar naquelas inclinações?!...
Desafiam a gravidade, deixam-me tonta, a mim que tenho algum medo das alturas e
de tudo o que seja tirar os pés do chão!…
Divertidas. E com o olhar acompanho a dança delas e
imagino-me andorinha… Para aqui e para ali. Livre e divertida. Feliz. A dançar.
Como dizia o Marco, “dançar é chamar corpo ao pensamento”; fico a imaginar em
que é que elas estarão a pensar... Às vezes, tenho pensamentos que postos em dança
dariam uma coreografia espantosa, vibrante, transparente, enérgica!...
É muito bom dançar.
Ando agora a descobrir músculos no meu corpo… E
articulações. E movimentos. Apesar de ter passado no exame de anatomia há muito
tempo. A verdade é que só me perguntaram os músculos do antebraço… Mas a dança
é outra coisa. É músculos mais música. É articulações mais ritmo. É movimentos
mais liberdade. Exterior e interior. É conversar com o corpo todo. Num diálogo sôfrego,
como todas as minhas conversas que parecem nunca acabar e desafiam a lei da
relatividade do tempo que parece sempre muito curto. Novamente o Marco: dançar
é “ir atrás do mar quando o mar vem atrás de nós”… Agora tu, agora eu… 1,2,3,4,
e 1,2,3,4… Para a esquerda, para a direita, 1,2,3,4… Oh, mas lá estou eu a
controlar!...
Esquece. Voa como quiseres, dança como quiseres… Conversa
tudo, como quiseres. Tenho de aprender a dançar “free style”!... Porque é que o
mais difícil é o fazer como me apetecer?
Constrange-me o improviso. A imprevisibilidade. O
descontrolo. Desejo-o e temo. Como sempre acontece com o que se deseja.
A minha casa está construída sobre um penedo de granito. Coberto
de musgo. Cada vez que estaciono o carro por baixo das trepadeiras bem
cheirosas, cumprimento-o e acolhe-me sempre com um sorriso e um abraço. Tenho
penedos a toda a volta da minha casa. Uma explosão de granito que me recorda a
força que habita em mim! Em ti.
Refúgio, memória, saudade, reconstrução, pensamento, dança. Inabalável.
Como o meu penedo ladeado de cheiros primaveris e amarelos. Saio de casa, desço
as escadas e abro os dois portões com a chave que tem uma pequena mania. Com jeitinho,
deixa-se levar. Saio feliz. Enquanto o portão automático abre, passo o batom
nos lábios, arrumo o telemóvel, ligo o rádio com o CD e troco o cheirinho do
carro. Um pensamento para o céu, com o pedido matinal- “Que eu seja boa hoje!”-
e o portão acaba de abrir.
Ao regressar, novamente o meu penedo me abraça, envolvente e
inabalável. Perfumado. Ainda hei-de subir a ele um dia! “O dia foi bom, sim,
obrigada!” E subo, vagarosa, as escadas. Sem me esquecer de contrair o
transverso. E abro as manias aos dois portões. E respiro novamente o doce sabor
a casa. “Home is where the heart is”.
Abro as janelas para o ar circular. E enquanto bebo o meu
batido com canela, acompanho a dança das andorinhas.
Em casa.
19/07/14
À andorinha que com a sua dança me desafiou a voltar a dançar.
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