Era uma vez uma casa. Tinha
paredes, tinha telhado. As paredes tinham várias janelas, de vários tamanhos,
viradas para o sol nalguma hora do dia. Ao telhado podia-se chegar por dentro,
através da claraboia do sótão, um espaço amplo, forrado de madeira que ainda
cheirava a pinheiro. No resto da casa cheirava à lareira acesa da sala dos
sofás, onde as pessoas ao fim do dia se aconchegavam em mantas e pantufas e
conversavam. Cheirava a castanhas assadas no Outono, a rabanadas pelo Natal, a
flores frescas na Páscoa e a rosmaninho pelo S. João. Tinha varandas onde pendiam
floreiras verdes com petúnias e sardinheiras, vermelhas, amarelas e cor de
laranja. Tinha uma entrada ampla, com uma grande porta amarela onde se chegava
depois de um pequeno trajeto em ladrilho que atravessava a relva. Lá dentro
havia muitas fotografias espalhadas por todas as paredes dos corredores, dos
quartos, da sala dos sofás… Fotografias de muitos lugares, de muitas pessoas
diferentes, com tons de pele diferentes, com cabelos e chapéus diferentes, com
sorrisos diferentes mas parecidos… Crianças, velhinhos, adultos, famílias
inteiras… Quem entrava naquela casa, ficava com a sensação de fazer uma viagem
pelo mundo todo!... Aquela casa guardava muitas imagens bonitas, de muitas
paisagens bonitas, que a maior parte das pessoas nunca verão pessoalmente, por
não terem tido essa oportunidade ou essa coragem. E para além das imagens, das
cores e dos cheiros bons, aquela casa tinha qualquer coisa mais, de
maravilhoso, de precioso, que é difícil pôr por palavras… Não sei se era das
gargalhadas que se ouviam ou do tagarelar de quem lá vivia, da roda viva do
quotidiano ou do silêncio ao olhar para a lenha a queimar… Não sei… Mas sei que
ali o espaço existia. Ali, o tempo existia. Havia passado, passados- muitas muitas
memórias-, presente, presentes -uns mais inesperados do que outros-, futuro,
futuros –muitos muitos sonhos-… Havia tempo e havia espaço. Havia pessoas com
tempo e com espaço. Havia espaço para abraços, por exemplo, daqueles largos,
envolventes, que parece que nos cobrem como cobertores… Espaço para passos de
dança toscos e improvisados ao som da guitarra tosca que improvisava,
acompanhada de uma voz brincalhona que improvisava. Espaço para corridas nos
corredores, a pé, ao pé coxinho, às cavalitas… Espaço para fingir que se é o
monstro das bolachas que vai comer quem não se esconder… Espaços em branco
também, à espera de serem pintados por algum artista com inspiração de momento…
Espaço para sentar no chão e ler até de madrugada… E havia tempo. Tempo para
ouvir e chorar, tempo para falar e sonhar, tempo para se agarrar à barriga que
doía de tanto rir, tempo para cozinhar com tempo, tempo para pensar, tempo para
sentir, tempo para apreciar os cheiros, os sabores, os sons, as vidas que
habitavam aquela casa. E havia ali um enorme respeito, veneração mesmo, pelo
tempo que já passara. E um enorme entusiasmo, ganas mesmo, pelo tempo que havia
de vir…
Não sei se eram só o tempo e o
espaço que existiam naquela casa que a tornavam tão cativante… Mas também não
sei o que era… Talvez fossem as pessoas. As que lá moravam e aquelas que
moravam nas que lá moravam… Estas então eram imensas!... Talvez por isso,
aquela casa parecesse ser habitada por uma multidão! E apesar disso, as pessoas
entendiam-se e eram todas bem-vindas. Sentiam-se bem ali. Sentiam que
pertenciam a algum lado, a alguém. Sentiam-se herança umas das outras.
Companheiras de caminho umas das outras. Sim, porque algumas demoravam-se pouco
por lá, repousavam um pouco e seguiam viagem. De um certo modo, permaneciam
ali, nas outras que lá ficavam. E acabavam sempre por regressar. Saudade.
Muitas saudades. Atrevo-me a dizer que eram felizes, as pessoas que habitavam
aquela casa. Ali também não faltava a mãe. E também não faltava o pai. Pode
haver uma casa sem mãe? Sem pai?
Era uma vez uma casa, que era um
lar.
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