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domingo, 7 de março de 2010

Parabéns Mulher!


Se tivesse que te dizer numa palavra, diria ternura.
Alegra-te, Mulher, porque se o Homem foi a última obra e o cume da Criação, tu foste o exagero da generosidade e da perfeição de Deus.
Vi-te, escondida, de joelhos a rezar. E nesse dia tinha discutido contigo.
Vi-te, em silêncio, ouvir palavras injustas ditas a ti, por aqueles a quem serves. Mais tarde disseste-me que isso não era aturar, era amar.
Vi-te acordar muitas, muitas vezes durante as noites, tão curtas para ti, para acudir à desorientação das velhinhas de casa, enquanto, no meu edredon, escondia a voz da consciência que me dizia que também eu me poderia ter levantado.
Vi-te levantar com as galinhas para preparar as refeições que eu levaria para os dias longe de casa, enquanto eu sonhava no meu sono não sei com quê.
Vi-te engolir em seco a lagrimazita que escorria ao canto do olho porque quem devia estar não estava. Nunca estava.
E nunca te ouvi uma palavra negativa contra ninguém. De casa ou fora de casa.
Vi-te emocionada até às lágrimas no dia em que consegui terminar aquele trabalho tão importante e tão bem cotado. E naquele outro em que ganhei o festival. E sinceramente, não percebi como se podia ficar tão feliz por algo que não nos pertencia.
Mais tarde entendi que tudo o que era meu te pertencia. Mais tarde percebi que é verdade o que diz a velhinha do Titanic: “o coração de uma mulher é como o oceano, não tem fim nem fundo, alberga muito segredos, muitas alegrias, muitas dores, que nunca ninguém poderá abarcar”. E percebi ainda que a vocação de qualquer Mulher, que o queira ser é esta: ser Mãe. Ser Mãe é não ter fronteiras no coração.
O Mundo está todo desarrumado. É como a nossa casa quando tu vais para fora. Falta-lhe a Mãe. Ao Mundo também lhe faltam Mães. Porque são as únicas que sabem realmente o que é… cuidar. A Mãe é aquela que cuida. Discreta. Serena. Sacrificada. Alegre. Elegante. Delicada. Magnânime. Senhora de si. Humilde. Nobre. Belíssima!
Não há nada como as mãos de uma Mãe! Bem, talvez o rosto. E o colo…
Obrigada Mulher! Obrigada Mãe!
Se há tanta gente fria e má, é porque nunca soube o que era ter uma Mãe. É por isso que não podemos parar.
Queridas amigas, Mulheres, Irmãs, Mães, que ao longo da vida se têm cruzado comigo, que me ensinaram o que é ser Mulher, ser Mãe, que me mostraram o caminho feliz de viver para servir, para cuidar, para dar a forma de lar a cada casa, o caminho feliz de aliviar as cargas dos que chegam, de mandar felizes os que partem, obrigada! Obrigada!
Não tenham medo. Da dor, da solidão, do sacrifício, da entrega, da fidelidade, do segundo plano. Porque a maior parte da vida passa-se nos bastidores. E para que o palco se mantenha aberto, não podem faltar as Mães.
Continuem assim, dignas, diferentes, porque Mulheres. O Mundo agradece. E eu também. Ambos precisamos de Mulheres sem medo de o serem. Não se esqueçam de quem são!
E é com o coração de joelhos diante da vossa grandeza que vos digo mais uma vez: muito obrigada!


À minha Mãe, às minhas Mães, às Mães de toda a gente, que mantêm no Mundo a lareira acesa

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O nosso Fado


Faz-se silêncio.

Ouve-se a respiração funda do artista, que fecha os olhos para ver o acorde. De porte imponente como quem tem algo solene a declarar, a guitarra solta a corda e o milagre acontece.


Só é possível ouvir a canção, qualquer canção, se se estiver em silêncio, se se esvaziar dos ruídos habituais dos nossos dias stressantes, se se deixar ir à deriva, embalados pela música, como no berço o bebé.
Para se entrar no mistério que a canção esconde não se pode ter medo de deixar assomar à janela da alma as emoções, as dores, as alegrias, as lágrimas, os sonhos que trazemos dentro. Não se pode ter medo de perder o controlo. Quantos de vós já perderam o controlo diante da Beleza? Habitualmente não deixamos. Ficamos impermeáveis, não nos despimos, não choramos. Temos medo de nos abandonar. Aos outros, ao Outro Infinito, à música, à beleza… porque queremos ser donos de nós e só a ideia de se deixar possuir por algo que não dominamos totalmente deixa-nos aterrorizados.
A vós que me ouvis queria dizer: deixem-se levar, não temam ficar despidos diante da vossa humanidade, deixem que a beleza irrompa pela vida adentro!
O Fado é uma parte dela, dessa Beleza antiga e sempre nova que compete a cada Homem encontrar. Esta é a nossa vida. Digamo-lo de outra forma: não sentem de vez em quando uma vontade imensa de fugir e voltar para casa, essa casa que fica não sei onde, mas que terá de certeza um Pai e uma Mãe e uma lareira acesa? Essa casa onde é sempre festa e onde há sempre dois braços abertos à vossa espera?
Ah saudade, nostalgia do regresso a casa que tem nome de lar…

Esta é a nossa vida. Peregrinos.
Este é o nosso Fado.
E ninguém diga que não gosta de Fado. Porque isso seria dizer que não gosta de ser Homem. Ou então… nunca parou realmente para fazer silêncio.
A todos os que cantam comigo, especialmente à minha irmã quase fadista não fosse a guitarra

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Cheiro a Homem


Curvas e contracurvas que ziguezagueiam milagrosamente pelos montes imponentes.
Mais uma vez, a ciência de Deus e o engenho dedicado dos Homens abraçam-se para oferecer a quem chega um presente delicioso: um mar verde estende-se à nossa frente e convida-nos a deixar-nos ir, a ousar mais que as nossas forças e a nossa natureza colada à terra. Ponho-me em bicos de pé no gradeamento que os Homens fizeram na varanda que Deus lhes deu e aspiro... Ah, se pudesse levar comigo este perfume a terra e a aldeia, a pedras da calçada e a urze selvagem, a castanhas fritas e a festa da Senhora do Livramento... Este é o cheiro da vida, da simplicidade, da genuinidade, da gratuidade! É o cheiro a Homem!...
Uma borboleta cor de laranja vem fazer-me um bailado na brisa de eucalipto. As montanhas servem-lhe de palco. Erguem-se magestosas, com ar senhorial que a gente rude, que mora lá em baixo, não sabe mostrar. São as donas do lugar, nós o pormenor excepcional que por ali apareceu. Elas ficarão, depois de termos feito a visita. Elas ficarão, como até aqui, a ver nascer outra geração e outra, enquanto que a anterior regressa à terra, com a mesma naturalidade com que o sol nasce e morre cada dia, depois de percorrer alegremente as encostas silenciosas do lugar.
Como as mãos de uma mãe que acariciam o filho, assim estes montes envolvem o pequeno vale onde tanto têm trabalhado os filhos fiéis. Hoje, até o padeiro lá vai e a terrinha de ninguém atrai muitos curiosos...
No silêncio dourado da manhã, vou pensando para comigo que se tivesse um lugarzinho assim para mim, seria feliz... E rio de seguida porque me vem à cabeça que todos temos um lugar como este, maior ou mais pequeno, mais humilde ou portentoso, a que chamamos casa. Não tem que ter quatro paredes e uma porta. Por vezes não tem. Mas é o lugar onde a alma se expande e onde os curiosos te podem conhecer realmente, pois só aí és realmente tu. Sabes que és amado por seres seu e não por seres um prémio nobel. Não tens que provar nada a ninguém, porque és bem conhecido. Tenhas ou não chegado às horas previstas, foste recebido como se te esperassem desde sempre.
É nesse lugar de confiança (que mais não é do que a certeza do Amor) que aperfeiçoas os teus voos. E te dás conta da tua originalidade. Mesmo rude, também tu cheiras a Homem. E porque és Homem, também tu desejas ardentemente regressar a essa casa que é o coração de quem te ama e que tem como caminho para lá chegar a saudade.

Ao lote 5, para quem nunca chego fora de horas
28 de Agosto de 2009

Curral das Freiras, Madeira