O senhor Tónio Careca- assim chamado desde sempre, mesmo no
tempo em que tinha o cabelo todo- de bigode esbranquiçado, de copo tinto na mão
esquerda e pão com sardinha na direita, sorri ao olhar para os frutos do nosso
trabalho.
- Está contente, Sr. António?
- Foi uma boa dose, foi! E agora vai continuar…
- Vai para casa, descansar, a seguir?
- Ó menina, para casa?! Não…
- Ainda há-de ir às videiras hoje e depois à lenha!, interrompe
a esposa, em tom assertivo.
- Está a ver, menina? Ela é que manda…
- E já não vais beber mais hoje, que te quero direito para o
trabalho!
- Elas mandam em nós, menina, vê? Pronto, é só mais este
copo… Mas sabe? Tem-me sempre o comerzito que eu gosto, pronto todos os dias…
- O que é uma coisa importante…
- É sim, trata de mim como eu preciso. Há 46 anos que trata
de mim… Agora também já não vale a pena pensar em trocar…
- Olha que estás sempre a tempo! Mas quem é que te queria
agora?!, pergunta a esposa brincando.
- Quem é que me queria? Uma moça nova qualquer!...
- Assim careca e acabado?!
- Eu é que não queria mais ninguém, estou muito bem assim!
Sabe, menina, a patroa até pode refilar comigo e mandar-me trabalhar, mas eu
gosto dela assim. Sempre gostei… Ainda me lembro de quando a vi a primeira vez.
Estava com o pai dela… Eu fiquei à distância, claro!… Era nova e jeitosa… Agora
já está velha, mas continua jeitosa. Eu lhe digo, menina, que não fiz mais
escola além da quarta classe, não percebo assim muitas coisas, nem sei quem é
que mais seria capaz de me aturar… Mas uma coisa eu sei: isto assim é que é
bonito. Ter paciência para a nossa mulher e ela ter paciência para nós e
querer-se bem… Isso é que é bonito.
E no meio dos ralhetes da esposa, que o mandava comer mais e
falar menos, disfarçando com o seu tom de general a dificuldade em receber as
declarações carinhosas do marido em público, este simpático senhor bebeu
tranquilamente o seu quarto copo de vinho e voltou à sardinha. Ar sereno e
feliz. Cheio. Dei por mim a desejar uma genuinidade assim. Como a simplicidade
da mesa improvisada, como a pureza da água do ribeiro, como a dedicação da
apanha das batatas, como a integridade daquelas mãos calejadas. Um amor assim.
Incondicional e complementar. Que faz dos defeitos particularidades divertidas
e das virtudes momentos de gratidão.
Regressei a casa cheia. Como o trator no fim do trabalho.
Aos homens de coração
grande
Cumbarinho, 7/8/14

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