quinta-feira, 11 de setembro de 2014

À sombra do carvalho

Depois da apanha das batatas, sob um céu fresco acinzentado, estendeu-se a toalha ao xadrez azul e branco no chão de erva fresca. Queijo de cabra, pão de centeio, sardinhas em molho de escabeche, pão de ló, polvo com salsa e cebola, pataniscas de bacalhau, panados de peru e chouriça assada. E claro, um garrafão de vinho tinto, produzido em casa. Depois da última batata recolhida –nenhuma se perde, pequena, cortada, grande ou verde… para assar, para consumir brevemente, para a sopa, para os animais… -, depois de carregado o trator, lavámos as mãos no ribeiro que corre ali ao lado. A roupa empoeirada, a cara suada, as unhas com terra… a barriga com fome. Sentei-me no chão e convidei a amiga de 8 anos a sentar-se ao meu lado. “Mas, ó Cátia, esta é comida de jantar ou de almoço!... Aqui come-se bacalhau à tarde?” “Ó menina, sabe que o trabalho duro da terra precisa de alimento!” “Você bebe vinho ao lanche?!”, continuou ela, chocada. Sim, Sarita, o vinho dá energia, aquece e consola. É companhia habitual destes amigos mais velhos e marca o ritmo da enxada na terra...

O senhor Tónio Careca- assim chamado desde sempre, mesmo no tempo em que tinha o cabelo todo- de bigode esbranquiçado, de copo tinto na mão esquerda e pão com sardinha na direita, sorri ao olhar para os frutos do nosso trabalho.

- Está contente, Sr. António?

- Foi uma boa dose, foi! E agora vai continuar…

- Vai para casa, descansar, a seguir?

- Ó menina, para casa?! Não…

- Ainda há-de ir às videiras hoje e depois à lenha!, interrompe a esposa, em tom assertivo.

- Está a ver, menina? Ela é que manda…

- E já não vais beber mais hoje, que te quero direito para o trabalho!

- Elas mandam em nós, menina, vê? Pronto, é só mais este copo… Mas sabe? Tem-me sempre o comerzito que eu gosto, pronto todos os dias…

- O que é uma coisa importante…

- É sim, trata de mim como eu preciso. Há 46 anos que trata de mim… Agora também já não vale a pena pensar em trocar…

- Olha que estás sempre a tempo! Mas quem é que te queria agora?!, pergunta a esposa brincando.

- Quem é que me queria? Uma moça nova qualquer!...

- Assim careca e acabado?!

- Eu é que não queria mais ninguém, estou muito bem assim! Sabe, menina, a patroa até pode refilar comigo e mandar-me trabalhar, mas eu gosto dela assim. Sempre gostei… Ainda me lembro de quando a vi a primeira vez. Estava com o pai dela… Eu fiquei à distância, claro!… Era nova e jeitosa… Agora já está velha, mas continua jeitosa. Eu lhe digo, menina, que não fiz mais escola além da quarta classe, não percebo assim muitas coisas, nem sei quem é que mais seria capaz de me aturar… Mas uma coisa eu sei: isto assim é que é bonito. Ter paciência para a nossa mulher e ela ter paciência para nós e querer-se bem… Isso é que é bonito.

E no meio dos ralhetes da esposa, que o mandava comer mais e falar menos, disfarçando com o seu tom de general a dificuldade em receber as declarações carinhosas do marido em público, este simpático senhor bebeu tranquilamente o seu quarto copo de vinho e voltou à sardinha. Ar sereno e feliz. Cheio. Dei por mim a desejar uma genuinidade assim. Como a simplicidade da mesa improvisada, como a pureza da água do ribeiro, como a dedicação da apanha das batatas, como a integridade daquelas mãos calejadas. Um amor assim. Incondicional e complementar. Que faz dos defeitos particularidades divertidas e das virtudes momentos de gratidão.

Regressei a casa cheia. Como o trator no fim do trabalho.

Aos homens de coração grande

Cumbarinho, 7/8/14

 

 

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