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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Cheiro a Homem


Curvas e contracurvas que ziguezagueiam milagrosamente pelos montes imponentes.
Mais uma vez, a ciência de Deus e o engenho dedicado dos Homens abraçam-se para oferecer a quem chega um presente delicioso: um mar verde estende-se à nossa frente e convida-nos a deixar-nos ir, a ousar mais que as nossas forças e a nossa natureza colada à terra. Ponho-me em bicos de pé no gradeamento que os Homens fizeram na varanda que Deus lhes deu e aspiro... Ah, se pudesse levar comigo este perfume a terra e a aldeia, a pedras da calçada e a urze selvagem, a castanhas fritas e a festa da Senhora do Livramento... Este é o cheiro da vida, da simplicidade, da genuinidade, da gratuidade! É o cheiro a Homem!...
Uma borboleta cor de laranja vem fazer-me um bailado na brisa de eucalipto. As montanhas servem-lhe de palco. Erguem-se magestosas, com ar senhorial que a gente rude, que mora lá em baixo, não sabe mostrar. São as donas do lugar, nós o pormenor excepcional que por ali apareceu. Elas ficarão, depois de termos feito a visita. Elas ficarão, como até aqui, a ver nascer outra geração e outra, enquanto que a anterior regressa à terra, com a mesma naturalidade com que o sol nasce e morre cada dia, depois de percorrer alegremente as encostas silenciosas do lugar.
Como as mãos de uma mãe que acariciam o filho, assim estes montes envolvem o pequeno vale onde tanto têm trabalhado os filhos fiéis. Hoje, até o padeiro lá vai e a terrinha de ninguém atrai muitos curiosos...
No silêncio dourado da manhã, vou pensando para comigo que se tivesse um lugarzinho assim para mim, seria feliz... E rio de seguida porque me vem à cabeça que todos temos um lugar como este, maior ou mais pequeno, mais humilde ou portentoso, a que chamamos casa. Não tem que ter quatro paredes e uma porta. Por vezes não tem. Mas é o lugar onde a alma se expande e onde os curiosos te podem conhecer realmente, pois só aí és realmente tu. Sabes que és amado por seres seu e não por seres um prémio nobel. Não tens que provar nada a ninguém, porque és bem conhecido. Tenhas ou não chegado às horas previstas, foste recebido como se te esperassem desde sempre.
É nesse lugar de confiança (que mais não é do que a certeza do Amor) que aperfeiçoas os teus voos. E te dás conta da tua originalidade. Mesmo rude, também tu cheiras a Homem. E porque és Homem, também tu desejas ardentemente regressar a essa casa que é o coração de quem te ama e que tem como caminho para lá chegar a saudade.

Ao lote 5, para quem nunca chego fora de horas
28 de Agosto de 2009

Curral das Freiras, Madeira

Quando pensavas que já tinhas visto tudo


E quando pensavas que já tinhas visto tudo... abre-se diante dos teus olhos um festival de cores, cheiros e sons que não terias conseguido imaginar...
A rua cortada ao trânsito de lata avisa que vai acontecer alguma coisa. De repente, ouves um grito e tens de te afastar porque um carro de madeira rasteiro vem pela estrada a pique a alta velocidade. E atrás daquele, outros. Ris-te durante um momento pelas figuras hilariantes dos condutores até que os olhos se deparam e a boca se abre de espanto com a "iminência da queda": uma escarpa no cimo da qual há um hotel de luxo, que parece estar segura por um pilarzinho rochoso todo escavado pelo tempo... Aqui tudo parece milagre. Estes montes, este mar azul tão longínquo como nunca o tinha visto, estas flores fantásticas que alegram o palco, triunfantes! Colocadas ali cada uma de propósito, com a mesma gratuidade e paciência... Na Madeira há tempo para tudo... Para decorar as ruas estreitas com corredores aéreos de luzes e flores que muitas mãos velhinhas demoradamente fizeram. Tempo para montar as barracas onde se oferece um bolo do caco com manteiga de alho divinal, deliciosas ponchas de maracujá, "nikitas", pães com chouriço, vitela no espeto que tu próprio vais guiando sobre o lume... Toda a gente parece ter vindo para a festa! Ninguém vem enganado. Os emigrantes regressam a casa depois de um ano de suór. E a Madeira veste-se de flores para receber estes seus filhos que nunca esquecem o caminho para casa!...
E tu ali, no meio daquela multidão familiar, com as lapas na barriga, mergulhas num alegre baile de costas curvadas. Os teus pés batem também, porque é impossivel não ser contagiado. E deixas-te ir, canção após canção, frescas, repousantes, graciosas, com rodas alegres de saias coloridas que competem com as flores pela vaidade... E já nao sabes se estás ali se no palco, no meio da roda divertida onde elas são mais donzelas e eles mais cavalheiros. "Quer dançar, menina?", diz ele inclinando-se. E a menina, sorrindo para as amigas, deixa-se ir no abraço seguro do cavalheiro. Ali todos esperam pela sua vez de convidar, pela sua vez de aceitar o convite. Todos seguem o ritmo natural que o brinquinho na mão do velhote vai dando. E eles esperam. E elas também.
Também quem vê espera a sua vez na vida, para entrar na roda. O amor é uma roda, não tem princípio nem fim, já está a rodar quando nós cá chegamos e aguarda o momento em que nos vamos decidir a entrar e a mostrar que também sabemos dançar.
É meia-noite. O festival de folclore com cheiro a carne na brasa e cerveja chega ao fim. E como se os nossos pobres aplausos não chegassem (porque a beleza não tem preço), uma explosão de cores ilumina o céu, ao lado das estrelas. E sentado na praia, admiras maravilhado, o fogo de artifício, que é realmente a ponta do sol que veio iluminar a nossa noite.
Nunca digas ou penses que já viste tudo, porque não sabes de todo aquilo de que os homens são capazes.

Aos meus professores de português que me ensinaram a dançar com as palavras
30 de Agosto de 2009 Ponta do Sol, Madeira

sábado, 3 de outubro de 2009

Fotografia em palavras


Azul, azul, azul a perder de vista.
Sobes por estradinhas a pique que fazem tremer o coração da mãe e suscitam o grito à Carmen.
Pagam-se os bilhetes (simbólicos: nada disto é pagável porque não é quantificável) e entras por um portão verde.
Estás no "Reino Maravilhoso" (deve ter sido aqui que se inspiraram os autores da "Polegarzinha").
Os olhos não chegam para conter tudo e as câmaras só registam um aperitivo.
A Madeira é uma toalha de flores com que Deus cobriu um pedaço de terra montanhosa que já não encaixava no Continente.
E para lá do portão verde fica o hall do Céu.
Verde, verde, verde. E branco e amarelo e rosa e vermelho e violeta e todas as cores que a tua imaginação te permita. Indescritível! Os cinco sentidos são assediados por aromas a terra e a sol e a àgua e a fotossíntese. O canto dos insectos e da água a correr. Plantas e flores fininhas e carnudas, agrestes e suculentas, de qualquer feitio. E palmeiras. E catos. E flores, flores, flores. Tudo está delicadamente no lugar para, no silêncio das tardes, os grãos de polén voarem para o coração da flor, onde o milagre da vida acontece. A brisa quente que abraça. E as aves faladoras (Meu Deus, não sabia que era possível ultrapassar-me!) aplaudem a beleza que nasce, sempre nova, sempre estonteante, sempre mistério!...
E achamos nós que sabemos muito!... Que temos a vida nas nossas mãos... Que fazemos as nossas leis...
Esterlícias, hortências, antúrios, alegrias do lar, violetas, amores perfeitos, só para dizer aquelas que reconheço... Mas as formas são inumeráveis! Dá vontade de colher e levar para casa, para poder repetir noutros momentos mais críticos esta genuína sensação de ser homem, irmão destas criaturas sinceras... Mas não.
Pegar numa delas para pôr no jardim (às escondidas do jardineiro) tirar-lhe-ia a vida. Porque a grandeza e a exuberância está no contraste, na diversidade, na saudável competição das suas vaidades. Uma sozinha não atrairia o olhar do viajante. Não faria festa... É como os homens. É quando estão juntos que descobrimos a maravilhosa sinfonia de personalidades, sorrisos, desejos... É o contraste de vidas que nos faz encontrar a especialidade deliciosa de cada um. E neste Reino Maravilhoso como na vida, há uma saudável competição entre Deus e os homens para ver quem faz a obra mais fascinante. É em vão. Ele ganhou, quando te fez a ti.
As palavras não chegam para nada.
E neste Reino Maravilhoso a alma expande-se e adquire o seu tamanho normal- andava um pouco tolhida... E o coração ajoelha-se emocionado, sem saber para onde olhar, sem palavras que digam o que ele quer dizer...
Como de outras vezes, tenho a sensação de ser maior do que eu própria... E desta solidão que reclama pertença, brota um sonho que é maior do que a vida.

À minha madeirense preferida que é uma força da natureza
26 de Agosto 09, Jardim Botânico, Madeira