E quando pensavas que já tinhas visto tudo... abre-se diante dos teus olhos um festival de cores, cheiros e sons que não terias conseguido imaginar...
A rua cortada ao trânsito de lata avisa que vai acontecer alguma coisa. De repente, ouves um grito e tens de te afastar porque um carro de madeira rasteiro vem pela estrada a pique a alta velocidade. E atrás daquele, outros. Ris-te durante um momento pelas figuras hilariantes dos condutores até que os olhos se deparam e a boca se abre de espanto com a "iminência da queda": uma escarpa no cimo da qual há um hotel de luxo, que parece estar segura por um pilarzinho rochoso todo escavado pelo tempo... Aqui tudo parece milagre. Estes montes, este mar azul tão longínquo como nunca o tinha visto, estas flores fantásticas que alegram o palco, triunfantes! Colocadas ali cada uma de propósito, com a mesma gratuidade e paciência... Na Madeira há tempo para tudo... Para decorar as ruas estreitas com corredores aéreos de luzes e flores que muitas mãos velhinhas demoradamente fizeram. Tempo para montar as barracas onde se oferece um bolo do caco com manteiga de alho divinal, deliciosas ponchas de maracujá, "nikitas", pães com chouriço, vitela no espeto que tu próprio vais guiando sobre o lume... Toda a gente parece ter vindo para a festa! Ninguém vem enganado. Os emigrantes regressam a casa depois de um ano de suór. E a Madeira veste-se de flores para receber estes seus filhos que nunca esquecem o caminho para casa!...
E tu ali, no meio daquela multidão familiar, com as lapas na barriga, mergulhas num alegre baile de costas curvadas. Os teus pés batem também, porque é impossivel não ser contagiado. E deixas-te ir, canção após canção, frescas, repousantes, graciosas, com rodas alegres de saias coloridas que competem com as flores pela vaidade... E já nao sabes se estás ali se no palco, no meio da roda divertida onde elas são mais donzelas e eles mais cavalheiros. "Quer dançar, menina?", diz ele inclinando-se. E a menina, sorrindo para as amigas, deixa-se ir no abraço seguro do cavalheiro. Ali todos esperam pela sua vez de convidar, pela sua vez de aceitar o convite. Todos seguem o ritmo natural que o brinquinho na mão do velhote vai dando. E eles esperam. E elas também.
Também quem vê espera a sua vez na vida, para entrar na roda. O amor é uma roda, não tem princípio nem fim, já está a rodar quando nós cá chegamos e aguarda o momento em que nos vamos decidir a entrar e a mostrar que também sabemos dançar.
É meia-noite. O festival de folclore com cheiro a carne na brasa e cerveja chega ao fim. E como se os nossos pobres aplausos não chegassem (porque a beleza não tem preço), uma explosão de cores ilumina o céu, ao lado das estrelas. E sentado na praia, admiras maravilhado, o fogo de artifício, que é realmente a ponta do sol que veio iluminar a nossa noite.
Nunca digas ou penses que já viste tudo, porque não sabes de todo aquilo de que os homens são capazes.
Aos meus professores de português que me ensinaram a dançar com as palavras
30 de Agosto de 2009 Ponta do Sol, Madeira
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