Mostrar mensagens com a etiqueta saudade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta saudade. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Hino à Enfermeira

Porque
“Estava doente e vieste visitar-me” assim que soubeste, desprezando o teu descanso…
“Estava nu e vestiste-me…”
Estava sujo e lavaste-me…
Imobilizado e pegaste-me ao colo… A mim que não era teu filho…
Estava engasgado e socorreste-me…
Entupido e desobstruíste-me…
Dorido e massajaste-me…
Tolhido e mobilizaste-me…
Com fome e deste-me o comer à boca, que tu mesma cozinhaste…
Estava a sangrar e curaste-me a ferida…
Sozinho e acompanhaste-me…
Choroso e limpaste-me as lágrimas…
Com frio e aconchegaste-me…
Seco e deste-me de beber e aplicaste creme na minha pele que caía…
Cansado e preparaste-me a cama com lençóis lavados…
Com febre e arrefeceste-me…
Saturado e ficaste em silêncio…
Vazio e sorriste-me…
Perdido e rezaste por mim…
De luto e deixaste-me chorar no teu abraço… Sem querer encurtar os segundos…



A doença não passou logo. A mágoa permaneceu. Mas a tua presença afectuosa, que ofereceu mais do que serviços, encheu de sol os dias daquela tempestade de Verão.
Por tudo isso e pelo que não sei dizer…


Obrigada Enfermeira, por seres as mãos e o sorriso de Deus!



À minha querida Enfermeira de serviço... por tudo!


27/07/2011

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O nosso Fado


Faz-se silêncio.

Ouve-se a respiração funda do artista, que fecha os olhos para ver o acorde. De porte imponente como quem tem algo solene a declarar, a guitarra solta a corda e o milagre acontece.


Só é possível ouvir a canção, qualquer canção, se se estiver em silêncio, se se esvaziar dos ruídos habituais dos nossos dias stressantes, se se deixar ir à deriva, embalados pela música, como no berço o bebé.
Para se entrar no mistério que a canção esconde não se pode ter medo de deixar assomar à janela da alma as emoções, as dores, as alegrias, as lágrimas, os sonhos que trazemos dentro. Não se pode ter medo de perder o controlo. Quantos de vós já perderam o controlo diante da Beleza? Habitualmente não deixamos. Ficamos impermeáveis, não nos despimos, não choramos. Temos medo de nos abandonar. Aos outros, ao Outro Infinito, à música, à beleza… porque queremos ser donos de nós e só a ideia de se deixar possuir por algo que não dominamos totalmente deixa-nos aterrorizados.
A vós que me ouvis queria dizer: deixem-se levar, não temam ficar despidos diante da vossa humanidade, deixem que a beleza irrompa pela vida adentro!
O Fado é uma parte dela, dessa Beleza antiga e sempre nova que compete a cada Homem encontrar. Esta é a nossa vida. Digamo-lo de outra forma: não sentem de vez em quando uma vontade imensa de fugir e voltar para casa, essa casa que fica não sei onde, mas que terá de certeza um Pai e uma Mãe e uma lareira acesa? Essa casa onde é sempre festa e onde há sempre dois braços abertos à vossa espera?
Ah saudade, nostalgia do regresso a casa que tem nome de lar…

Esta é a nossa vida. Peregrinos.
Este é o nosso Fado.
E ninguém diga que não gosta de Fado. Porque isso seria dizer que não gosta de ser Homem. Ou então… nunca parou realmente para fazer silêncio.
A todos os que cantam comigo, especialmente à minha irmã quase fadista não fosse a guitarra

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Parabéns vovó!


Num dia especial para mim, partilho convosco uma carta que escrevi há uns anos e que poucos de vós conhecerão. Porque é lindo lembrar as coisas lindas e fazer memória daqueles que transportamos dentro.


"Deixem-me dizer umas palavras…que serão sempre poucas para descrever o que temos vivido ao longo destes seis anos e especialmente ao longo destes últimos dias. Para o dizer numa palavra, a primeira que me vem aos lábios é… obrigada! E depois Missão cumprida!
Obrigada, meu Deus, por esta maratona que nos fizeste correr a partir do momento em que um AVC repetido levou a avó Conceição para a cama, com metade do corpo paralisado. E veio ter a nossa casa… Por pouco tempo, diziam os médicos, mas tu, vóvó, mostraste a todos que eras de bom material e que não te ias assim tão depressa. Ainda tinhas uma tarefa para terminar. Dizias que a tua missão era rezar pelas netas e pelas amigas das netas que não tinham avó que rezasse por elas. E o terço que te fiz tornou-se o teu companheiro diário. Quantas vezes não o íamos topar dentro dos lençóis! E dizias ficar cansadinha de tanto rezar. Por isso vóvó, é que nós passámos sempre nos testes. Dizíamos-te que íamos estudar e tu imediatamente pegavas no terço. Mas tu não rezavas só com o terço. Talvez não tivesses noção disso, mas tu toda eras uma oração. A tua mão seca era uma oração, as tuas dores ao fundo das costas eram uma oração, a tua falta de forças, a tua língua sequinha eram uma oração. Às vezes dizias que isto era sofrer demais, que nós não sabíamos, nem podíamos saber o que era a tua vida: era só sofrer, sofrer sem descanso. Que te doía tudo, até o cabelo! E respondíamos a brincar: só a língua é que não te dói! E tu dizias que também essa te doía e muito, mas nem por isso deixavas de falar, de chamar, de cantar…e a tua missão vóvó, foi esta também. Chamar-nos. Manter-nos vigilantes e atentos ao mundo dos que sofrem, dos que estão sozinhos, dos que são abandonados, dos que perdem a esperança. E as tuas netas aprenderam a lição! Não lamentamos um dia, um dia só, de gritos, de sono e cansaço, de sustos, de trabalhos. Porque isso nos fez crescer a todos, e a ti também. Um dia disseste-me que nunca pensaste chegar a tanta idade. E se te perguntava que idade querias ter, dizias 20 anos. Tenho 20 anos, vóvó, e tu tiveste-os também até ao fim e ensinaste-me a valorizar a minha juventude. Relembro-te a sorrir, sempre bem- disposta, com a resposta sempre pronta. A mãe dizia que tinhas tempo para as estudar! E acabaste por te tornar no santuário da nossa casa.
Dou graças a Deus pela tua serenidade, pela tua bondade, pela tua aceitação de tudo, de tudo, pela tua paciência no sofrimento e na solidão, pela tua fé, pobreza e simplicidade, pela tua sabedoria. Fizeste questão em que escrevêssemos as quadras das Janeiras que tu sabias porque “um dia morro e depois quem é que vos ensina”? Mais que as quadras das Janeiras, vovó, espero ter aprendido a tua lição de vida.
Inverteram-se os papéis e agora o bebé eras tu. Pior que bebé, dizias!...
Chegámos longe vóvó, e hoje posso dizer que tive oportunidade de te conhecer como até aí nunca tinha acontecido e aprendemos tanto todos!
“Gosto muito de ti vóvó!” “Mas eu ainda gosto mais de ti, menina. Muito, Muito!” respondias. Gostavas de ter sido professora. De meninos pequeninos… Foste nossa professora e ensinaste-nos o Amor. Obrigada!
Quanto nos rimos contigo! E se agora choramos não é de desespero, é de saudade e de alegria, porque acreditamos que estás no Céu. “Ó vóvó, se tu pudesses escolher para onde é que querias ir agora?- Ó menina, para o Céu- respondias. E como é que se vai para o Céu? De avião, vó? Oh, não. Há um verso que diz assim “lá no céu há uma escada, feita de mar maravilha onde está a Mãe Santíssima com o Menino nos braços.”
“Então mas há uma escada para o Céu? Onde é que fica?”. “Oh não sei, mas tu também pensas que o Céu é um quarto ou uma sala onde a gente está? O Céu não é um sítio”. “Então o que é, vó?..”. “O céu- disseste tu, grande teóloga que não sabe ler- é estar em Deus…”.
Ó vózinha, agora que já estás com Deus, ensina-nos o caminho para lá, diz-nos onde fica a escada. Nesta altura também já encontraste a tua querida Virgem Maria que tem o teu nome. Gostavas tanto dela que ela até te visitou mais do que uma vez. “E como era a cara dela, vó?”, perguntávamos. “Oh, não sei, estava de costas!”
Hoje já a viste de frente. Já sabes como é o Céu, já nos olhas a todos sem a prisão de um corpinho doente.
As últimas coisas que me disseste, antes de ir para Lisboa, foram resposta ao pedido que hoje renovo: “Ó vó, bote cá a sua bênção!”
Sim, vó, abençoa-nos desde aí e ajuda-nos a cortar a meta como tu a cortaste: com dignidade e feliz!
Descansa agora, da tua vida de entrega e sacrifício.
E pede a Deus que agradeça como só Ele sabe fazer, a todas as pessoas amigas, que pela oração, trabalho ou pela companhia, nos ajudaram a chegar aqui.

Aprendeste connosco este verso que gostavas tanto e que resume muito bem a tua vida:
“Boa noite, boa noite Maria,
Boa noite minha Mãe.
O dia foi lindo p’ra mim,
Foi lindo p’ra ti,na harmonia.
Vivemos na mesma Cruz
Juntos com Jesus na alegria.”


15/12/06, dia do seu último voo

À minha avó Conceição que ontem celebrou mais um aniversário! Que saudades, vovó!

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A cachupa da vida




Ao som de um colchão a encher com a força do pé, de 2 chinesas a falar um língua estranha, ao lado de 2 ou 3 grupinhos de voluntárias a ler, de muitas gargalhadas e conversas ao fundo dos contentores, no meio de garrafas Luso vazias que jazem pelo chão na espuma dos banhos improvisados, sob um Céu de nuvens que nunca chovem, sob uma Lua que é o único candeeiro da rua cheia de sal e lama e cheiro a "katinga"... às 23h desta ilha da Boavista, com os calções arregaçados enquanto o creme das melgas seca e com os cabelos molhados pela água bendita do chuveiro que só existe para nós e para o Hotel Rio e não para o resto da ilha, com a barriguinha cheia de esparguete depois de um dia de trabalho a aliviar os corpinhos chupados da fome que vi todo o dia... Aqui estou.

O coração chora e os olhos também. Hoje percebi o que é dar de comer com os meus cinco pães. Até já os dois peixes começam a escassear e só nos sobram as mãos e as palavras para consolar um povo que tem pílula de graça, mas come uma vez por dia.

Estes são meus irmãos de voo também.

Nós não chegamos a nada. Não valemos nada. A nossa sede é a mesma, a nossa fome a mesma, os nossos sofrimentos, a nossa falta de forças e a nossa indignação é a mesma. Quanta solidão, quanto abandono... Quanta indignidade se oferece a esta gente!... E quereria trocar de lugar com a moça que tem um tiróide de livro e com o menino cujo brinquedo é um maço de cigarros usado com duas pilhas ferrugentas dentro... E com o jovem que quereria estudar direito internacional... E com o jogador de futebol lesionado...

Devolver esperança a quem foi roubado. Na comida também, no salário justo também. Mas essencialmente roubado na esperança. Na dignidade. E ao olhar para ti, que te pões a jeito para que te abracem sem medo de sujar a bata, eles reconhecem a sua humanidade, que já tinham esquecido. E curiosamente é aí que tu também vais desencantar a tua. E ensinam-se mutuamente o que é sonhar e reconhecem aí um mesmo horizonte que querem acreditar estar a ver lá ao fundo... Está ali, não vês? Vamos elevar-nos mais uns metrozitos neste céu de cristal e vais ver como está mesmo ali o sonho que viste quando finalmente conseguiste fechar os olhos no teu metro quadrado de casa, a cheirar a porcaria, só porque alguém se esqueceu que era teu companheiro de voo.

Obrigada por me teres deixado entrar na tua vida.

Obrigada pela cachupa da vida, onde depois de misturares a solidão, o sofrimento, a angústia, a esperança, a simplicidade, a fé, a alegria e a humildade, e ao som de uma coladeira que quiseste dançar comigo, me teres oferecido do mesmo prato onde tu comes. Sem precisar de talheres.


E como já falei de mais, vou deixar que a tua voz se faça ouvir também. Não encontrei melhor fotografia para Cabo Verde do que aquela que um dos teus filhos te tirou. E eu, de lagrimita no olho, vou relê-la e cantar "sodade, sodade...!"



7 de Agosto de 2009
Ao Ovani, ao Cesário, ao Igualdino e aos seus irmãos todos
Às voluntárias que voaram comigo

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Suspenso


Fecho os olhos. E o tempo pára ali.
Volto a abrir para ver como é, mas o instante assim ficou… Imagina...
Suspenso.
Para que eu não passe por ele sem o olhar.
E eu olho.


E descubro um Mundo que nunca vi, nem pensava que existisse.
Descubro de que cor é o azul e o verde.


Descubro a que cheira o limão acabado de colher.


Descubro a que sabe o pão quando é amassado pelas minhas mãos.


Descubro que os pardais conseguem cantar mais alto que os aviões que não param.


Descubro o brilho que os olhos castanhos encerram e a misteriosa luz que sai de um sorriso cândido.


Descubro a transparência da voz da criança que salta à macaca e a maciez das mãos enrugadas e calejadas do pai.


Descubro a infinita grandeza de uma noite estrelada na aldeia onde o céu não tem limites e onde os homens ainda não quiseram pôr luz. Ilumina-o a transparência do luar, como se qualquer outra fonte desfigurasse aquela terra de pureza e dureza.
Descubro o cheiro da terra quando o sol bate nela.


Descubro as histórias que são tantas, demasiadas, para serem contadas num fôlego... Que são tantas, demasiado íntimas, para serem contadas a qualquer um… Qualquer um que as oiça sem lhes sentir o peso. Sem lhes respirar a vida que está por trás. Quando um segredo se conta muitas vezes, banaliza-se, perde-se.
Talvez por isso este instante não deva ser colhido por todos. Para que não se gaste. Para que mantenha sempre esta frescura. Para que tenha de ser procurado apenas pelos olhos capazes de fazer silêncio. E de esperar. Só quem se cala pode ouvir a vida que ele encerra.
Descobri que a maior parte dos gestos são muito mais do que só gestos, dos quais nem colho a metade. Descobri que as palavras acariciam a alma tal como os cabelos o vento mansinho que alegra a manhã... Que essas mesmas palavras, que são o melhor que temos, dizem tão pouco do que quereria e poderia dizer. Não sei dizer mais. O resto senti-lo-às tu.
Descobri que somos muito mais bonitos quando nos olhamos devagarinho, sem pressas, sem tempo, registando na memória cada imagem, guardando o calor de cada respiração. Perdemos tanto uns dos outros!... Descobri que um abraço é mais doce que a aletria que a mãe faz e que a nossa alma tem ainda mais necessidade dele que o nosso peito e os nosso braços que sabem mais depressa pedi-lo que ela.
Não é só nosso isto… também o céu se agarra à terra, numa linha tortuosa salpicada de neve a que chamam Estrela, transformando o horizonte num abraço infinito e eterno.
Para nos recordar que o nosso destino é a comunhão. Essa união do que temos em comum é aquela que se colhe no instante: infinitos que procuram infinitos, para partilhar o infinito desejo de se darem e de se receberem, nessa troca de vidas a que se chama Amor e cujo desejo provoca um prurido chamado saudade.
Hoje, antes de fechar de novo os olhos e de novo os abrir para seguir para a vida de acordo com o relógio, fiz o propósito de viver mais devagar, fotografando cada instante.
E assim, suspenso, poder bebê-lo todo e sentir que sou mulher e estou viva.






Ao fotógrafo que me ensinou a olhar para a história dos instantes
Lisboa, 24 de Fevereiro de 2009



segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Cheiro a Homem


Curvas e contracurvas que ziguezagueiam milagrosamente pelos montes imponentes.
Mais uma vez, a ciência de Deus e o engenho dedicado dos Homens abraçam-se para oferecer a quem chega um presente delicioso: um mar verde estende-se à nossa frente e convida-nos a deixar-nos ir, a ousar mais que as nossas forças e a nossa natureza colada à terra. Ponho-me em bicos de pé no gradeamento que os Homens fizeram na varanda que Deus lhes deu e aspiro... Ah, se pudesse levar comigo este perfume a terra e a aldeia, a pedras da calçada e a urze selvagem, a castanhas fritas e a festa da Senhora do Livramento... Este é o cheiro da vida, da simplicidade, da genuinidade, da gratuidade! É o cheiro a Homem!...
Uma borboleta cor de laranja vem fazer-me um bailado na brisa de eucalipto. As montanhas servem-lhe de palco. Erguem-se magestosas, com ar senhorial que a gente rude, que mora lá em baixo, não sabe mostrar. São as donas do lugar, nós o pormenor excepcional que por ali apareceu. Elas ficarão, depois de termos feito a visita. Elas ficarão, como até aqui, a ver nascer outra geração e outra, enquanto que a anterior regressa à terra, com a mesma naturalidade com que o sol nasce e morre cada dia, depois de percorrer alegremente as encostas silenciosas do lugar.
Como as mãos de uma mãe que acariciam o filho, assim estes montes envolvem o pequeno vale onde tanto têm trabalhado os filhos fiéis. Hoje, até o padeiro lá vai e a terrinha de ninguém atrai muitos curiosos...
No silêncio dourado da manhã, vou pensando para comigo que se tivesse um lugarzinho assim para mim, seria feliz... E rio de seguida porque me vem à cabeça que todos temos um lugar como este, maior ou mais pequeno, mais humilde ou portentoso, a que chamamos casa. Não tem que ter quatro paredes e uma porta. Por vezes não tem. Mas é o lugar onde a alma se expande e onde os curiosos te podem conhecer realmente, pois só aí és realmente tu. Sabes que és amado por seres seu e não por seres um prémio nobel. Não tens que provar nada a ninguém, porque és bem conhecido. Tenhas ou não chegado às horas previstas, foste recebido como se te esperassem desde sempre.
É nesse lugar de confiança (que mais não é do que a certeza do Amor) que aperfeiçoas os teus voos. E te dás conta da tua originalidade. Mesmo rude, também tu cheiras a Homem. E porque és Homem, também tu desejas ardentemente regressar a essa casa que é o coração de quem te ama e que tem como caminho para lá chegar a saudade.

Ao lote 5, para quem nunca chego fora de horas
28 de Agosto de 2009

Curral das Freiras, Madeira

domingo, 4 de outubro de 2009

O pão da aldeia



O forno aquece a cozinha onde o pão finta na maceira. Ao longe a voz destes montes onde a vida é dura e o grito do galo pela manhã. Oiço a voz da pequenita que mora ao lado que chama por aquele a quem muitas vezes o vinho impede de ser mais pai. E vejo a velha vizinha que se aproxima, mulher rija, que ousa dizer ao Sr Dr. que o melhor medicamento que lhe pode dar é uma enxada na mão. Essa mão que tanta terra já trabalhou para levar para a frente a família de quem ficou a ser o homem da casa depois que o marido morreu num acidente de trabalho. Os filhos eram pequenos demais para se lembrarem, mas as mãos calejadas sabem bem o que custou mostrar à tristeza que não ia levar a melhor. E chega, passado um pouco, a vizinha da frente, com uma mão cheia de couves “porque sei que agora não têm cá e estavam para fazer a sopa”… E sobre a mesa pintalgada de farinha deposita-as. Deram mais tarde um caldo delicioso, com sabor a humildade (de dar e de receber). Vem o tio Manuel depois, devolver o caldeiro onde tinha levado as batatas para semear que lhe emprestáramos. Olhar cansado, muito cansado, de quem não dorme bem desde que um AVC empurrou para a cama a esposa. Agora ele é mãe e irmão e marido e tudo. Vejo-o mais tarde estender a roupa. Mais tarde ainda passar com um fardo de erva para os coelhos à cabeça. Mais tarde ainda, sair com a enxada na mão. Mais tarde ainda, entrando em sua casa, vejo-o atrás da esposa em cadeira de rodas a servir-lhe o jantar. A esposa já não se lembra de muita coisa. Mas não se esquece das suas 1001 doenças que deve relembrar a toda a hora ao marido e ao filho, que deixou o emprego na Alemanha para vir cuidar dos pais, agora que a família sofreu tal revolução. Há menos de meio ano que a esposa o trocou por outro e saiu de casa. O tio Manuel nunca se queixa. E encontra sempre forma de desculpar a mulher. Mesmo quando para todos os que os visitam ela transpira egocentrismo e indelicadeza. Nunca está bem feito o jantar. Nunca está boa a temperatura do quarto. Sempre estão demasiado pesados os cobertores na cama. Sempre tem alguma dor. E Deus esqueceu-se dela. E assim, passa os dias a desfilar queixas e a exigir o que ninguém lhe pode dar: a serenidade de quem está em paz consigo e com a vida. E o Sr. Manuel vive um dia atrás do outro, qual pai amoroso, não apenas aceitando resignado um fado que alguém escreveu por ele, mas abraçando-o, honrando um sim dito algures há mais de 40 anos. Não exige nada, não pergunta nada. Não pretende perceber. A única coisa que percebe é que houve lá qualquer artéria que entupiu na cabeça da esposa e que a impede de mexer metade do corpo. E por isso, agora ela precisa totalmente dele. Agora. Agora isto. Amanhã não importa. E com o ontem, não se faz vida.
Mais tarde falo com a velha tia, viúva há tantos anos quantos os de casamento do tio Manuel. Dois anos depois do enlace o marido morria. E desde então viveu sempre para as 3 irmãs, para os sobrinhos, para os sobrinhos netos, para os vizinhos, para quem lhe batesse à porta. Ah, que ousadia esta de enfrentar a solidão de cabeça erguida… como se os olhos enxergassem lá ao fundo qualquer coisa que mais ninguém vê… como se por essa luz que se vislumbra no horizonte (e que mais ninguém vislumbra) continuasse a fazer sentido existir e levantar-se cada manhã para agradecer à vida mais este dia. “Ó tia, porque é que não voltou a casar?” “Ó menina, não calhou!...” Porque o coração tem razões que os vizinhos não podem entender. Nem os da tia, nem os do tio Manuel. Nem os da vizinha da frente. Nem os da pequenita do lado.
O perfume desta aldeia hoje é de pão. Daquele pão que outros compram embrulhado em sacos de plástico com etiqueta na prateleira de um hipermercado qualquer. Que não cheira, que não tem sabor. Este sabe a mãos gretadas de trabalho duro, a pele morena do sol escaldante no pico do Verão, sabe à vida pobre que chega sempre para o vizinho, sabe a pouco porque não chega para mais. Talvez eles (que o fazem) não saibam mas… sabe a tudo. É a vida entregue por amor que é ali amassada. É a oblação da existência de cada um que finta na maceira. E é depois a plenitude da humanidade que vai ao forno. No final? É o pão saboroso que dá sentido a tudo o resto. Sabe a amor genuíno polvilhado com saudade. E regresso a casa saciada. Aqui pertenço.

Às mulheres rijas como a minha Mãe que tornam a nossa vida mais saborosa
Guimarães aldeia, 21 de Fevereiro de 2009