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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Já chega Senhor, já chega!...


Olho para ele e vejo um corpinho carcomido pela doença, pelos maus tratos e pela solidão e o grito me escapa da alma…
“Não hei-de beber o cálice que o Pai me deu?”
Ninguém se interessa realmente, porque este não é um caso para publicar… É só mais um velhinho de muita idade com mais uma pneumonia cuja lista de problemas tem 14 pontos…
“Já Te disse mulher que não O conheço”.
Ainda assim o maior deles não foi escrito. Ninguém investe muito, principalmente em relação, porque está escrito “frequentes períodos de confusão, pouco comunicativo e desorientado”.
“Se falei mal, mostra-me em quê, mas se falei bem, porque me bates?”
O maior problema? Medo.
Da parte de quem trata.
Tanto gemido, tanto sofrimento, tanto tanto… E ali sozinho, entre os panos amarelados que chamam a morte, com que se isolam os doentes “em estado crítico”…
“Não pudeste vigiar uma hora comigo?”
Vou lá espreitar e saio logo em seguida porque o trabalho urge. Alguém me lança um olhar que diz “Já foi? Se não foi está para ir…”
“Crucifica-O, crucifica-O!”
E tudo passa tão rápido… A dor passa tão rapidamente, e os gritos também…
Tudo se cala. O doente velhinho (que tem um nome mas não tem família que o queira), porque teve “alta celestial”, como costumam brincar…. E calam também aqueles que deveriam cuidar, porque “estas coisas acontecem”…
“E, inclinando a cabeça, expirou.”
Estas coisas são a vida e a morte. E dói muito. Dói muito. Porque é suposto, dizem, tratar as pessoas, não gostar delas. E eu não sei não gostar.
“Filho, eis aí a tua Mãe!”
Abre-se a terra na Madeira, com a força destruidora das águas… Vidas lavradas… Frutos de anos de vida arrastados pela lama…
“Mãe, eis aí o teu filho!”
Pescadores que desaparecem no azul enfurecido daquele que aprenderam a domar… E que nunca mais ninguém encontrou.
“Colocaram-Lhe uma coroa de espinhos e mandaram-nO flagelar.”
A Mãe que fica sozinha com 4 meninos, dois deles “Down”, porque o marido encontrou umas pernas mais bonitas, que lhe oferecem o que ele diz nunca ter tido.
“Aproximavam-se d’Ele e diziam: Salve ó Rei dos Judeus, e davam-Lhe bofetadas.”
Pais que choram no silêncio da noite não poderem dar mais “Nestum” aos filhinhos pequenos. Porque a crise os pôs na espiral dos “dispensados”.
“Tenho sede!”
Meninos que morrem porque nasceram no país errado.
“Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.”
Homens que desistem da vida.
“Não choreis por Mim, chorai antes por vós, porque se fazem isto ao lenho verde, que farão ao seco?”
Porque com a morte tudo se cala.
“Na verdade, este Homem era justo.”
Já chega, Senhor, já chega!...
“Deus amou tanto o Mundo, que lhe deu o Seu Filho Unigénito…”
Calo-me. Porque para Ti, Senhor, nunca chega.
Sabes a conta a cada lágrima vertida por cada homem (e minhas tens umas quantas!), porque Tu mesmo as choraste.
A todos os que choram sozinhos

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Parabéns vovó!


Num dia especial para mim, partilho convosco uma carta que escrevi há uns anos e que poucos de vós conhecerão. Porque é lindo lembrar as coisas lindas e fazer memória daqueles que transportamos dentro.


"Deixem-me dizer umas palavras…que serão sempre poucas para descrever o que temos vivido ao longo destes seis anos e especialmente ao longo destes últimos dias. Para o dizer numa palavra, a primeira que me vem aos lábios é… obrigada! E depois Missão cumprida!
Obrigada, meu Deus, por esta maratona que nos fizeste correr a partir do momento em que um AVC repetido levou a avó Conceição para a cama, com metade do corpo paralisado. E veio ter a nossa casa… Por pouco tempo, diziam os médicos, mas tu, vóvó, mostraste a todos que eras de bom material e que não te ias assim tão depressa. Ainda tinhas uma tarefa para terminar. Dizias que a tua missão era rezar pelas netas e pelas amigas das netas que não tinham avó que rezasse por elas. E o terço que te fiz tornou-se o teu companheiro diário. Quantas vezes não o íamos topar dentro dos lençóis! E dizias ficar cansadinha de tanto rezar. Por isso vóvó, é que nós passámos sempre nos testes. Dizíamos-te que íamos estudar e tu imediatamente pegavas no terço. Mas tu não rezavas só com o terço. Talvez não tivesses noção disso, mas tu toda eras uma oração. A tua mão seca era uma oração, as tuas dores ao fundo das costas eram uma oração, a tua falta de forças, a tua língua sequinha eram uma oração. Às vezes dizias que isto era sofrer demais, que nós não sabíamos, nem podíamos saber o que era a tua vida: era só sofrer, sofrer sem descanso. Que te doía tudo, até o cabelo! E respondíamos a brincar: só a língua é que não te dói! E tu dizias que também essa te doía e muito, mas nem por isso deixavas de falar, de chamar, de cantar…e a tua missão vóvó, foi esta também. Chamar-nos. Manter-nos vigilantes e atentos ao mundo dos que sofrem, dos que estão sozinhos, dos que são abandonados, dos que perdem a esperança. E as tuas netas aprenderam a lição! Não lamentamos um dia, um dia só, de gritos, de sono e cansaço, de sustos, de trabalhos. Porque isso nos fez crescer a todos, e a ti também. Um dia disseste-me que nunca pensaste chegar a tanta idade. E se te perguntava que idade querias ter, dizias 20 anos. Tenho 20 anos, vóvó, e tu tiveste-os também até ao fim e ensinaste-me a valorizar a minha juventude. Relembro-te a sorrir, sempre bem- disposta, com a resposta sempre pronta. A mãe dizia que tinhas tempo para as estudar! E acabaste por te tornar no santuário da nossa casa.
Dou graças a Deus pela tua serenidade, pela tua bondade, pela tua aceitação de tudo, de tudo, pela tua paciência no sofrimento e na solidão, pela tua fé, pobreza e simplicidade, pela tua sabedoria. Fizeste questão em que escrevêssemos as quadras das Janeiras que tu sabias porque “um dia morro e depois quem é que vos ensina”? Mais que as quadras das Janeiras, vovó, espero ter aprendido a tua lição de vida.
Inverteram-se os papéis e agora o bebé eras tu. Pior que bebé, dizias!...
Chegámos longe vóvó, e hoje posso dizer que tive oportunidade de te conhecer como até aí nunca tinha acontecido e aprendemos tanto todos!
“Gosto muito de ti vóvó!” “Mas eu ainda gosto mais de ti, menina. Muito, Muito!” respondias. Gostavas de ter sido professora. De meninos pequeninos… Foste nossa professora e ensinaste-nos o Amor. Obrigada!
Quanto nos rimos contigo! E se agora choramos não é de desespero, é de saudade e de alegria, porque acreditamos que estás no Céu. “Ó vóvó, se tu pudesses escolher para onde é que querias ir agora?- Ó menina, para o Céu- respondias. E como é que se vai para o Céu? De avião, vó? Oh, não. Há um verso que diz assim “lá no céu há uma escada, feita de mar maravilha onde está a Mãe Santíssima com o Menino nos braços.”
“Então mas há uma escada para o Céu? Onde é que fica?”. “Oh não sei, mas tu também pensas que o Céu é um quarto ou uma sala onde a gente está? O Céu não é um sítio”. “Então o que é, vó?..”. “O céu- disseste tu, grande teóloga que não sabe ler- é estar em Deus…”.
Ó vózinha, agora que já estás com Deus, ensina-nos o caminho para lá, diz-nos onde fica a escada. Nesta altura também já encontraste a tua querida Virgem Maria que tem o teu nome. Gostavas tanto dela que ela até te visitou mais do que uma vez. “E como era a cara dela, vó?”, perguntávamos. “Oh, não sei, estava de costas!”
Hoje já a viste de frente. Já sabes como é o Céu, já nos olhas a todos sem a prisão de um corpinho doente.
As últimas coisas que me disseste, antes de ir para Lisboa, foram resposta ao pedido que hoje renovo: “Ó vó, bote cá a sua bênção!”
Sim, vó, abençoa-nos desde aí e ajuda-nos a cortar a meta como tu a cortaste: com dignidade e feliz!
Descansa agora, da tua vida de entrega e sacrifício.
E pede a Deus que agradeça como só Ele sabe fazer, a todas as pessoas amigas, que pela oração, trabalho ou pela companhia, nos ajudaram a chegar aqui.

Aprendeste connosco este verso que gostavas tanto e que resume muito bem a tua vida:
“Boa noite, boa noite Maria,
Boa noite minha Mãe.
O dia foi lindo p’ra mim,
Foi lindo p’ra ti,na harmonia.
Vivemos na mesma Cruz
Juntos com Jesus na alegria.”


15/12/06, dia do seu último voo

À minha avó Conceição que ontem celebrou mais um aniversário! Que saudades, vovó!