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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Hino à Enfermeira

Porque
“Estava doente e vieste visitar-me” assim que soubeste, desprezando o teu descanso…
“Estava nu e vestiste-me…”
Estava sujo e lavaste-me…
Imobilizado e pegaste-me ao colo… A mim que não era teu filho…
Estava engasgado e socorreste-me…
Entupido e desobstruíste-me…
Dorido e massajaste-me…
Tolhido e mobilizaste-me…
Com fome e deste-me o comer à boca, que tu mesma cozinhaste…
Estava a sangrar e curaste-me a ferida…
Sozinho e acompanhaste-me…
Choroso e limpaste-me as lágrimas…
Com frio e aconchegaste-me…
Seco e deste-me de beber e aplicaste creme na minha pele que caía…
Cansado e preparaste-me a cama com lençóis lavados…
Com febre e arrefeceste-me…
Saturado e ficaste em silêncio…
Vazio e sorriste-me…
Perdido e rezaste por mim…
De luto e deixaste-me chorar no teu abraço… Sem querer encurtar os segundos…



A doença não passou logo. A mágoa permaneceu. Mas a tua presença afectuosa, que ofereceu mais do que serviços, encheu de sol os dias daquela tempestade de Verão.
Por tudo isso e pelo que não sei dizer…


Obrigada Enfermeira, por seres as mãos e o sorriso de Deus!



À minha querida Enfermeira de serviço... por tudo!


27/07/2011

domingo, 7 de março de 2010

Acorda-me!


Dormi só 5 horas. Cheia de sono, com o cabelo enrodilhado por esta chuva que teima em não ir embora (só me consola o que diz a companheira de quarto, que o meu estilo é o penteado despenteado, que está na moda…), com frio porque mais uma vez me enganei na quantidade de roupa a vestir, ainda com o pequeno-almoço por tomar, chego ao hospital ofegante do passo apressado. Visto a bata, que devia ter trocado mas esqueci-me da lavada e subo as escadas até ao piso sempre demasiado alto, enquanto penso na inutilidade de ter elevadores se não se conseguem utilizar em tempo útil. E enquanto ensaio o sorriso que tenho de pôr antes de passar aquela porta, vejo se há mensagens no telemóvel e penso que hoje tenho mesmo de sair a horas, para ver se consigo estudar as horas que preciso durante a tarde.
Olha para a lista dos doentes. Três entradas. Ok, vai-me tocar um deles a mim. Lavo as mãos e lá vou eu procurar a senhora, chamemos-lhe Maria.
Vejo-a de alto a baixo, oiço-a por dentro, palpo-lhe o que devo, anoto tudo porque nunca confio na minha memória, muito menos a esta hora da manhã. A seguir vou procurar um esfigmomanómetro que funcione bem e tento trazê-lo através da gincana de macas pelo corredor…
Enquanto falo com a senhora Maria tento concentrar-me nela. Esquecer-me de tudo o resto. Do que tenho para fazer. Do telefonema que me esqueci de retribuir. Da inquietação que me ferve dentro. Da dor de estômago. Do sono. Do cheiro menos agradável que paira por todo o serviço. Da fealdade das doenças. Dos gemidos e gritos que se vão ouvindo. Agora estou para a senhora Maria. Mas é uma vida tão triste, tão complicada, tão vazia, tão solitária, que me apercebo de ser invadida por um sono que não me é totalmente estranho. Faz-me lembrar um outro, há já muitos anos, em que teimavam em cair aqueles que deviam acompanhar um Homem que sofria horrivelmente. O sono de não querer chorar. De não querer sofrer. De fugir da “com-passione”, da compaixão, e deixar o outro viver sozinho a sua paixão. Porquê?
Oh, porque dói. Porque entristece. Porque nos recorda a nossa própria miséria, o nosso próprio destino enquanto seres humanos, que passa necessariamente pela dor e pela morte. Bolas! Se já a nossa vida dói, porque é que hei-de sentir com os outros?... É nessa hora que chega o sono, uma espécie de narcótico para quem não quer estar totalmente consciente da dimensão da dor alheia. Porque isso significaria torná-la nossa.
Só nos esquecemos de um pormenor. É que permanecendo adormecidos, sim não sofremos, mas também não vivemos. Hibernamos, como a Turty lá de casa. E assim não somos homens, não somos nada mais que a Turty.
E no meio destas filosofias, vem-me acordar do meu sono cobarde a senhora Maria, que me aperta a mão firmemente. “Ó Menina Doutora, não me largue! Não me largue, não? As suas mãos são tão boas! Dão-me vida quando me tocam.”
“Dão-me vida quando me tocam.” “Dão-me vida quando me tocam…”, vou pensando enquanto me encaminho para a sala do médicos onde registo “vigil, consciente, desorientada temporal e espacialmente, discurso por vezes incoerente e inadequado”, que corresponde à avaliação realizada. Mas são estes doentes, que no meio da sua confusão e doença, nos vão dando estas bofetadas que nos acordam do sono em que queremos mergulhar, por estarmos cansados de ser homens.
Cátia, Cátia, não adormeças! E não guardes a vida das tuas mãos para ti.
Acordem-me se me virem dormitar, sim?

A todos os que não se deixam adormecer e aos que me acordam diariamente

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Já chega Senhor, já chega!...


Olho para ele e vejo um corpinho carcomido pela doença, pelos maus tratos e pela solidão e o grito me escapa da alma…
“Não hei-de beber o cálice que o Pai me deu?”
Ninguém se interessa realmente, porque este não é um caso para publicar… É só mais um velhinho de muita idade com mais uma pneumonia cuja lista de problemas tem 14 pontos…
“Já Te disse mulher que não O conheço”.
Ainda assim o maior deles não foi escrito. Ninguém investe muito, principalmente em relação, porque está escrito “frequentes períodos de confusão, pouco comunicativo e desorientado”.
“Se falei mal, mostra-me em quê, mas se falei bem, porque me bates?”
O maior problema? Medo.
Da parte de quem trata.
Tanto gemido, tanto sofrimento, tanto tanto… E ali sozinho, entre os panos amarelados que chamam a morte, com que se isolam os doentes “em estado crítico”…
“Não pudeste vigiar uma hora comigo?”
Vou lá espreitar e saio logo em seguida porque o trabalho urge. Alguém me lança um olhar que diz “Já foi? Se não foi está para ir…”
“Crucifica-O, crucifica-O!”
E tudo passa tão rápido… A dor passa tão rapidamente, e os gritos também…
Tudo se cala. O doente velhinho (que tem um nome mas não tem família que o queira), porque teve “alta celestial”, como costumam brincar…. E calam também aqueles que deveriam cuidar, porque “estas coisas acontecem”…
“E, inclinando a cabeça, expirou.”
Estas coisas são a vida e a morte. E dói muito. Dói muito. Porque é suposto, dizem, tratar as pessoas, não gostar delas. E eu não sei não gostar.
“Filho, eis aí a tua Mãe!”
Abre-se a terra na Madeira, com a força destruidora das águas… Vidas lavradas… Frutos de anos de vida arrastados pela lama…
“Mãe, eis aí o teu filho!”
Pescadores que desaparecem no azul enfurecido daquele que aprenderam a domar… E que nunca mais ninguém encontrou.
“Colocaram-Lhe uma coroa de espinhos e mandaram-nO flagelar.”
A Mãe que fica sozinha com 4 meninos, dois deles “Down”, porque o marido encontrou umas pernas mais bonitas, que lhe oferecem o que ele diz nunca ter tido.
“Aproximavam-se d’Ele e diziam: Salve ó Rei dos Judeus, e davam-Lhe bofetadas.”
Pais que choram no silêncio da noite não poderem dar mais “Nestum” aos filhinhos pequenos. Porque a crise os pôs na espiral dos “dispensados”.
“Tenho sede!”
Meninos que morrem porque nasceram no país errado.
“Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.”
Homens que desistem da vida.
“Não choreis por Mim, chorai antes por vós, porque se fazem isto ao lenho verde, que farão ao seco?”
Porque com a morte tudo se cala.
“Na verdade, este Homem era justo.”
Já chega, Senhor, já chega!...
“Deus amou tanto o Mundo, que lhe deu o Seu Filho Unigénito…”
Calo-me. Porque para Ti, Senhor, nunca chega.
Sabes a conta a cada lágrima vertida por cada homem (e minhas tens umas quantas!), porque Tu mesmo as choraste.
A todos os que choram sozinhos

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dói


Que ânsia é esta que acelera cá dentro?
Que pressa é esta de chegar ao fim?
Parem, parem. Por favor, parem. Que alguém me olhe cinco minutos. Sem tempo contado. Alguém que me fale de mim. Que me diga quem sou, que me esqueci. Não sei onde me deixei, mas perdi-me em qualquer esquina dum bairro mal frequentado. E não sei como voltar. Parem. Peço um silêncio para partilhar. Alguém que não se importe de esperar que eu chore. E será que alguém vai chorar quando eu não estiver cá? Será que eu vou importar para alguém?
Porque é que haveria de importar?...
A maior parte de nós vive só, sem ninguém que ponha como fim da sua vida a felicidade desse a quem ama. Mas os homens conseguem amar porque sim?...
Tristes monjes de vocação forçada, vivendo em torres altas, escuras, frias. De vez em quando o sol passa o vidro sujo das poucas janelas que existem e lembramo-nos que ainda somos homens. Fora disso vamos tentando não nos lembrar muito que vivemos, como se doesse só o recordar dessa verdade insuperável…
Preciso de uma razão para amanhã me levantar da cama, apesar das ligaduras no chão de uma vida que já cá não está. Porque é que a vida é assim?
O que é que se podia ter feito mais?, perguntamos, depois que tudo acabou…
Achamo-nos senhores do mundo e não passamos de formigas do universo… por isso ainda mais me espanta que sejamos tão grandes por dentro, que tenhamos tantos recantos que nunca ninguém conhecerá. Dói-me a minha humanidade. Toda ela chora agora. Porquê esta solidão?... Porquê esta impotência diante das nossas próprias forças interiores? Porquê este peregrinar infindável de quem procura uma gota de água e já nem sequer pode gritar porque a garganta está colada?
Porque é que continuam a mentir, dizendo que não há fim, quando é ele a única razão para não deixar de respirar e o único toque de calor que anima o coração preste a parar?...
Não me mintam! Olhem para mim, por favor. Levem-me a casa.
Não, não quero aliviar esta opressão… quero beber cada gota deste sangue que me escorre da alma. Quero ser boa irmã dos meus irmãos, os homens, e dividir a angústia de ser homem mas não totalmente e de estar em terra estrangeira à procura de água, sem saber a língua que se fala. E choro, choro, choro, triste. A alegria de ser homem, cansado.
Não tenho mais forças, baixo os braços. Alguém que mos segure.


27 de Fevereiro de 2009
Aos companheiros de voo que me são espelho