terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O nosso Fado


Faz-se silêncio.

Ouve-se a respiração funda do artista, que fecha os olhos para ver o acorde. De porte imponente como quem tem algo solene a declarar, a guitarra solta a corda e o milagre acontece.


Só é possível ouvir a canção, qualquer canção, se se estiver em silêncio, se se esvaziar dos ruídos habituais dos nossos dias stressantes, se se deixar ir à deriva, embalados pela música, como no berço o bebé.
Para se entrar no mistério que a canção esconde não se pode ter medo de deixar assomar à janela da alma as emoções, as dores, as alegrias, as lágrimas, os sonhos que trazemos dentro. Não se pode ter medo de perder o controlo. Quantos de vós já perderam o controlo diante da Beleza? Habitualmente não deixamos. Ficamos impermeáveis, não nos despimos, não choramos. Temos medo de nos abandonar. Aos outros, ao Outro Infinito, à música, à beleza… porque queremos ser donos de nós e só a ideia de se deixar possuir por algo que não dominamos totalmente deixa-nos aterrorizados.
A vós que me ouvis queria dizer: deixem-se levar, não temam ficar despidos diante da vossa humanidade, deixem que a beleza irrompa pela vida adentro!
O Fado é uma parte dela, dessa Beleza antiga e sempre nova que compete a cada Homem encontrar. Esta é a nossa vida. Digamo-lo de outra forma: não sentem de vez em quando uma vontade imensa de fugir e voltar para casa, essa casa que fica não sei onde, mas que terá de certeza um Pai e uma Mãe e uma lareira acesa? Essa casa onde é sempre festa e onde há sempre dois braços abertos à vossa espera?
Ah saudade, nostalgia do regresso a casa que tem nome de lar…

Esta é a nossa vida. Peregrinos.
Este é o nosso Fado.
E ninguém diga que não gosta de Fado. Porque isso seria dizer que não gosta de ser Homem. Ou então… nunca parou realmente para fazer silêncio.
A todos os que cantam comigo, especialmente à minha irmã quase fadista não fosse a guitarra

1 comentário:

  1. Ola querida Cátia. Obrigado. Simplesmente lindo, como a tua voz e a tua alma.

    Não, não pares, a grandeza do Peregrino é perseverar, possa ou não chegar à meta. voa e verás que não etás só nesse Céu.

    Beijinhos,
    Carmo

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