Mas esta conversa toda era só para te fazer uma pergunta… É possível sonhar com algo que não existe? É possível desejar algo que esteja fora do perímetro do possível? São os nossos sonhos maiores que a própria vida, com toda a liberdade e vontade que ela transporta? São os nossos sonhos mais bonitos e grandes que os de Deus?
Acontece-me muitas vezes aquilo que Pessoa dizia de si mesmo: “tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.”
Talvez todos possamos dizer isto… Seja como for, tenho a sensação de que quase sempre, os meus sonhos me passam a perna… Que não cabem cá dentro… E há uma ânsia de ser mais, de chegar mais longe, de pertencer mais, de me abandonar mais, de me despir mais, de me libertar das defesas todas e dos medos e das vergonhas… e chegar a casa... que…
Onde é que tu andas, meu amigo? Onde é que tu andas, que não te encontro? Vejo-te e não sei se é a realidade bem pintada, se sonho realizado… Vejo-te, acordada ou a dormir, e tenho a sensação de passar o dia a falar contigo, de caminhar contigo, de me rir e chorar e trabalhar ao teu lado. Sei que tenho uma imaginação fértil e que tudo isto pode ser um quadro bem pintado… Mas será possível que eu possa querer-te já tanto e tu não existires? Será possível que ninguém saiba a letra da melodia que compus? Será possível que tenha de guardar para mim a vida que explode em mim? Será possível que aquilo que “crio” no meu pensamento seja menos possível do que aquilo que Deus cria no Seu? Será possível que ande tão distraída?
Há uma canção italiana que diz: “se eu não te conhecesse e tu chegasses agora de improviso, enquanto estou aqui a não fazer nada, sentado à beira do caminho… se eu não te conhecesse, dizia eu, e não tivesse nunca dito “amo-te” a ninguém, por medo ou por vergonha, ou simplesmente porque… não existe…” Etc, etc… Falou-me especialmente, quando a ouvi a primeira vez, pela última frase. Assusta. Assusta-me pensar no que me podem fazer o medo e a vergonha. São dois diabinhos pequenos estes, mas com a capacidade de deitar por terra o melhor dos propósitos, a melhor das metas, o mais lindo dos sonhos. Asfixiam. E sujam o meu desenho. Aquele que fizemos todos quando éramos mais novos, enquanto a mãe nos tentava calar pedindo-nos que desenhássemos os nossos sonhos… Depois, à medida que os anos avançavam fomos retocando a pintura, que ainda está por terminar. Acho mesmo que o ponto final só será posto por quem vier depois de nós, que nessa altura conhecerá a obra que completámos. Infelizmente nós só lhe vemos as costas…
Como se faz para perder o medo dos desejos?
Há depois uma outra canção, mais conhecida, cujo refrão diz qualquer coisa deste estilo: “Sou um sortudo por estar apaixonado (a) pela minha melhor amiga (o), sortudo por ter estado onde estive, sortudo por regressar a casa de novo…” Para mim, impressionante! O que é um amigo? O que é um melhor amigo? Quem é este ombro, este braço direito e o esquerdo também? Este que sabe que gostas de começar as canções em ré e que pões canela no café? Este que te chama quando precisa de outro olhar, este que te areja a alma e te faz sorrir quando está a chover? Esse que caminha contigo até casa, essa casa que é o coração de Deus, que te deu a ele e ele a ti, para que fossem irmãos, não pela biologia, mas por vontade própria. Por um acto de liberdade. É por isso que nós só somos realmente irmãos dos nossos irmãos de sangue, quando o fossemos mesmo que não tivéssemos o sangue em comum, isto é quando os amamos porque queremos e não porque são irmãos. E que maravilha poder partilhar a vida com o teu melhor amigo, que é também irmão e que morreria por ti, porque assim o decidiu. Que maravilha poder chamar esposo àquele que foi e será sempre o teu maior amigo!... Que maravilha poder amar assim, não tendo nada a perder, porque se entregou já tudo… Que maravilha esta, de chegar ao conhecimento tão grande do outro, que são os dois uma só alma, uma só carne!... Que maravilha perder o medo de se abandonar, de se deixar cuidar, de perder o controlo!...
Só o amor abre certas portas. A da confiança, por exemplo, que dá acesso ao pudor, esse guarda da intimidade que a protege dos curiosos. Tu escondes-te de quem queres e mostras-te a quem queres. Essa é a grandeza do dom: dar-se a quem se escolheu. E receber porque se foi escolhido. Porquê? Já dizia Pascal que o coração tem razões que a razão desconhece… Não sei. Não sei. É um mistério. Como aliás as coisas mais belas da vida. Não quero perceber. Mas queria tanto encontrar!... Assim, pelo menos calaria o diabinho que todos os dias me segreda que este sonho, o sonho do amor para sempre, é bom demais para ser verdade!
Eu bem lhe digo que precisamente por ser bom é que é verdade, mas ele não me ouve. Alguém quer tentar convencê-lo?
Eu bem lhe digo que precisamente por ser bom é que é verdade, mas ele não me ouve. Alguém quer tentar convencê-lo?
A todas(os) as (os) que se deixaram convencer pelo diabinho
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