Bendita a normalidade dos dias normais.
A mesma hora para levantar…
O mesmo esforço de ontem para viver o primeiro minuto do dia heroicamente…
O mesmo olhar à Virgem, que velou toda a noite…
E a oração de joelhos, ainda meia a dormir…
A voz doce do outro lado do telefone: “Bom dia! Estou na vida à tua espera!”…
E sai-se para o Mundo.
O mesmo caminho.
A mesma Igreja. Os mesmos companheiros.
Os mesmos dejectos caninos no passeio da Alameda.
O mesmo galo que canta de hora a hora em frente à biblioteca.
Leite com café e canela. Às vezes sem leite. Pão com compota. Partido daquela forma. Com laranja e canela a acompanhar.
Ainda são só as primeiras horas do dia e já tudo é como ontem. Excepto o dia do calendário. E as páginas do livro de estudo. Felizmente, essas vão variando…
A mesma hora de almoço. A mesma Visita. O mesmo estudo de tarde.
E os dias parecem cópias. Até a sms diz algo muito semelhante a qualquer uma da véspera: “… … … 1 abracinho do tamanho do Mundo… até já…”
Termina-se o trabalho. E o já chega. Arranjo-me por fora e por dentro. Um pouco do mesmo perfume e da maquilhagem em frente à porta de espelho. Os mesmos cabelos desordenados, sem jeito. Um adeus na capela.
O mesmo abraço, terno, terno, intemporal, “sconvolgente”, avassalador!...
E as palavras são as mesmas. Não temos outras!...
O mesmo tempo que escorre. O mesmo fim de dia.
Os rituais e as rotinas são pertença, são identidade. Poupam-nos tempo, que é importante para tantas coisas!... Fazem parte desse património individual único e irrepetível. Sem eles não nos sentiríamos em casa.
Os dias iguais trazem-nos segurança, confiança, domínio. Fugir deles por medo do cansaço seria como dormir cada noite numa cama diferente para não estar quente da noite anterior… Mas que bom é sentir o perfume do nosso champô na almofada!...
Os dias normais são a escola e o palco das virtudes. É aí que nós mais nos revelamos, porque aí passamos a maior parte da vida e aí se prova a perseverança. Bendita normalidade, sem festas, sem extraordinaridades, sem outra música que a tranquila brisa dos segundos que passam a cada instante e nos pedem que os agarremos.
Os apaixonados são os que mais se repetem. Porque são os que vivem mais intensamente. Mas os gestos e as palavras são limitados. Por isso necessitam repeti-los. São os mesmos, mas sempre diferentes. Não há dois olhares iguais, nem dois sorrisos iguais, nem dois abraços iguais. Só há este, de agora. Deve ser por isso que não cansa. Porque tudo é presente.
E escondido nas malhas dos dias iguais, descobre-se a intemporalidade, que é o presente elevado a infinito.
21 de Outubro 2010
A mesma hora para levantar…
O mesmo esforço de ontem para viver o primeiro minuto do dia heroicamente…
O mesmo olhar à Virgem, que velou toda a noite…
E a oração de joelhos, ainda meia a dormir…
A voz doce do outro lado do telefone: “Bom dia! Estou na vida à tua espera!”…
E sai-se para o Mundo.
O mesmo caminho.
A mesma Igreja. Os mesmos companheiros.
Os mesmos dejectos caninos no passeio da Alameda.
O mesmo galo que canta de hora a hora em frente à biblioteca.
Leite com café e canela. Às vezes sem leite. Pão com compota. Partido daquela forma. Com laranja e canela a acompanhar.
Ainda são só as primeiras horas do dia e já tudo é como ontem. Excepto o dia do calendário. E as páginas do livro de estudo. Felizmente, essas vão variando…
A mesma hora de almoço. A mesma Visita. O mesmo estudo de tarde.
E os dias parecem cópias. Até a sms diz algo muito semelhante a qualquer uma da véspera: “… … … 1 abracinho do tamanho do Mundo… até já…”
Termina-se o trabalho. E o já chega. Arranjo-me por fora e por dentro. Um pouco do mesmo perfume e da maquilhagem em frente à porta de espelho. Os mesmos cabelos desordenados, sem jeito. Um adeus na capela.
O mesmo abraço, terno, terno, intemporal, “sconvolgente”, avassalador!...
E as palavras são as mesmas. Não temos outras!...
O mesmo tempo que escorre. O mesmo fim de dia.
Os rituais e as rotinas são pertença, são identidade. Poupam-nos tempo, que é importante para tantas coisas!... Fazem parte desse património individual único e irrepetível. Sem eles não nos sentiríamos em casa.
Os dias iguais trazem-nos segurança, confiança, domínio. Fugir deles por medo do cansaço seria como dormir cada noite numa cama diferente para não estar quente da noite anterior… Mas que bom é sentir o perfume do nosso champô na almofada!...
Os dias normais são a escola e o palco das virtudes. É aí que nós mais nos revelamos, porque aí passamos a maior parte da vida e aí se prova a perseverança. Bendita normalidade, sem festas, sem extraordinaridades, sem outra música que a tranquila brisa dos segundos que passam a cada instante e nos pedem que os agarremos.
Os apaixonados são os que mais se repetem. Porque são os que vivem mais intensamente. Mas os gestos e as palavras são limitados. Por isso necessitam repeti-los. São os mesmos, mas sempre diferentes. Não há dois olhares iguais, nem dois sorrisos iguais, nem dois abraços iguais. Só há este, de agora. Deve ser por isso que não cansa. Porque tudo é presente.
E escondido nas malhas dos dias iguais, descobre-se a intemporalidade, que é o presente elevado a infinito.
21 de Outubro 2010
Aos que carregam o peso da normalidade e ainda não fazem poesia com ela...
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