sábado, 4 de dezembro de 2010

O que se esconde nas entrelinhas do Harrinson

PS- o tamanho deste post é proporcional ao sujeito que o motivou... Parabéns aos que o lerem até ao fim.


Este é um mito antigo. É com este Adamastor que se assustam os alunos recém-chegados ao curso de Medicina, que depois de percorridos seis anos, terão de defrontar. E fazemos Anatomia a pensar que é o cadeirão. Depois Farmacologia e achamos que esta é que é mesmo impossível de ultrapassar (como é que eu hei-de prescrever um medicamento, cujo nome nem sei pronunciar? Por exemplo: eptifibatide? Ah, e aquelas doses todas?!...) Depois é a gincana de Cirurgia, a oral de Medicina e então se for no serviço de Hepatologia, dói mesmo… E continuamos a sobreviver, contra todas as expectativas dos pessimistas do costume. Achamos todos que não chegamos ao fim do curso e da minha parte, repeti-o mais de 500 vezes… Vem o 6º ano, começa-se a vislumbrar a luz ao fundo do caminho… Mas o medo do Adamastor que se aproxima soma-se à tese que atrapalha ainda mais o já pouco sossegado estágio profissionalizante, o nome pomposo que agora dão ao último ano. Apesar de tudo, num abrir e fcechar de olhos, termina o curso. Agora sim, arregaçam-se as mangas e inicia-se a luta ombro a ombro, de olhos fixos nos do adversário… Chamam-no Harry, mas não tem nada da magia do Potter… Antes do o conhecer tinha ouvido as histórias mais assustadoras sobre ele… Grande, muito grande, pesado, mais de 9 kg de matéria, muitas, muitas páginas, no total 2754. Incompreensível, com raciocínios complexos, com números a mais e não há mnemónica que valha, com poucos esquemas e com poucas imagens. Com folhas fininhas e letras como as da Bíblia, tanto que já fazem versão A3 em fotocópias para não estragarmos os olhos. 1000 e tal recém-licenciados por todo o país, fecham-se em suas casas ou na biblioteca mais próxima a partir de Julho, mais ou menos por 4 meses seguindo o fado que alguns profetizaram: “aproveita bem o 6º ano, que depois vais deixar de viver, farás um parêntesis à tua vida!” Ainda para mais, porque é este “tesourinho deprimente”, como o ouvi chamar, a permitir a escolha da especialidade dos novos médicos, definindo em grande parte o futuro profissional dos candidatos. Assim, a luta contra o Adamastor quase se transforma na luta pela sobrevivência e na corrida às especialidades mais apetecidas. Deixa de ser um contra-relógio para ser uma corrida de velocidade. Este é o mito Harrison. Hoje é fácil falar dele porque acabou. Mas no fim de todo este caminho, digo com todas as letras que não passa de um mito. Pesa mais todo o contexto sócio-cultural que se construiu ao longo dos anos à volta deste exame e deste livro, do que propriamente o livro ou o exame. E são 9 Kg!...
O que realmente pesa é o tempo. O que realmente pesa, não é o livro ou o exame, são os dias. É que são muitos. Uns a seguir aos outros, todos iguais. Todos iguais. Só mudam as páginas do livro. Levantar às 7h com o sono de sempre ao som do schlack, schlack do Puma a beber água (o cão da Residência), chamar a vizinha de quarto, encher a alma e o estômago e Harrison intervalado pelo schlack, schlack do Puma. Reencher o estômago e a alma e… Harrison, com mais schlack, schlack do Puma. Reencher o estômago ao lanche e a alma e mais Harrison e o schlack, schlack do Puma a bater o ritmo. Jantar, coisas do coração e Harrison para embalar. Dormir rapidinho ao som do schlack do Puma (mas este cão muita água bebe, deve ter Diabetes insípido!...) e até aos sonhos o Harrinson vem espreitar. Um dia aguenta-se bem. 2,3, uma semana. Um mês… Mas depois cansa. Depois satura. Depois é a prova do tempo, que se vive contigo mesma. Não é um exame à tua memória (apesar de não saber se a LMA tem pior prognóstico se tiver a translocação (8,21)). À tua inteligência. Inclui isso, mas é essencialmente um exame à tua perseverança, à tua serenidade, à tua boa gestão do tempo e à tua hierarquia das coisas. Um exame à tua humildade também. Ali, metida entre o tratamento da hepatite aguda e as taquicardias, ali onde ninguém te vê nem saberá nunca se passaste aquelas linhas infindáveis à frente, ali é que se joga a tua honradez, a tua nobreza. A tua humildade. Pareces o esquilo da Residência, que semi-hibernou e sentes-te uma inútil, fechada todo o tempo e sem disposição interior para festejos ou convívios. É isso que dói. Não veres aplausos ou agradecimentos, não saberes sequer se isso que estudas te vai servir de alguma coisa, porque provavelmente no momento em que precisares dele já te terás esquecido. Não veres fruto. Cumpres a obrigação e calas. E como dizia alguém, cresces para dentro. Ou como dizia outro alguém, constróis a catedral. Assim, escondidinha, às vezes desesperada, com sono ou a chorar, continua-se, pois que lhe havemos de fazer? Mas a dor não é pelo Adamastor, ele coitado, continua inerte em cima do suporte de madeira que tive de usar para não estragar mais o pescoço… A dor é por mim mesma. Pelas minhas limitações. Pela minha ânsia de agora, de já, de aqui… Mas nada na Natureza nasceu grande. Tudo leva o seu tempo a crescer, a ficar maduro. E no fim das contas, estás a mudar o Mundo e não sabes! Deus, que nunca dorme, vela, vela e sorri, perante o teu cabelo desgrenhado pelo último capítulo… Dizem que Deus é simples… Já Lho disse: cada vez me custa mais a acreditar depois do que visitei estes meses… Mas quantas minhoquices nós temos cá dentro!... Autênticos labirintos de reacções a acontecer a cada instante, genes, proteínas, células, iões, enzimas… Uma sinfonia perfeita da qual somos maestros sem saber!... E ainda há quem ache que Deus não existe!... Então devo dizer que o acaso fez um autêntico milagre!...
Ainda assim o maior milagre parece-me mesmo o facto do Homem ter descoberto estas coisas todas… Contribuíram para o Harrison milhares de médicos e cientistas. Admiro estas pessoas… Algumas vezes me deu vontade de lhe chamar algum nome feio, mas nunca passei dos nomes que eles próprios inventaram para as coisas… É realmente extraordinário!... Nós somos uma maravilha, é o que vos digo, e com tanto mecanismozinho que pode correr mal, não estarmos todos doentes de alguma coisa é um milagre ainda maior!...
Enquanto estudava ia pensando nestas coisas todas… e nos doentes que têm aquelas doenças, cujos rostos disformes por elas tentava imaginar. E oferecia o estudo por esses, pelos médicos que as tratam, por aqueles que hei-de tratar… Sim, isto aliviava o peso do estudo. Por outro lado, no meio de tanta prosa árida, confesso-vos que encontrei poesia também, com a qual me ria às vezes em altas gargalhadas… Outras vezes tirava lições para a vida, desse livro da natureza que é o nosso corpo… Exemplos do primeiro são os nomes mais engraçados que encontrei para doenças (elas são tantas que começam a faltar os nomes banais): p. 1629- Síndrome das unhas amarelas (não é um verniz novo não, quem havia de dizer que derrame pleural, linfedema e unhas amarelas, podia ter alguma relação com bronquiectasias? É que ninguém se ia lembrar de associar isto!); Síndrome da plaqueta cinzenta (esta coitada, não cheguei a perceber porque é que fica com esta cor, mas lá que era cinza era); Síndrome da unha-rótula (bem, pensei eu, não me digam agora que as unhas e a rótula têm alguma coisa em comum?!.. E não é que tinham mesmo?...), doença da arranhadela de gato (mas que mal fazem os gatos?, só me faltava mais esta!... E não é que pode mesmo ser fatal!... Já me calo…)… Enfim… Mas não eram só os nomes engraçados, as descrições também faziam poesia: é a embolia pulmonar que dizem ser a “grande mascarada” e que me transportou logo para um baile de máscaras de Carnaval; “a sensação de pancada nas orelhas” da anemia aplásica, que não cheguei a conseguir imaginar o que é, apesar de me ter batido; o próprio autor que descreve a colescistite aguda como “irritante problema” e que me fez sentir solidária, porque a colecistite também me estava a irritar a mim, por acaso… Mas há outras lições… Cito: “Uma sequência ordenada de eventos induz alterações no glóbulo vermelho, por meio das quais, se acumula hemoglobina no citoplasma e se perde a capacidade de biossíntese e os organelos celulares. No fim, o eritrócito sofre um processo com características de apoptose e perda real do núcleo. No entanto, o resultado final é mais altruísta que suicida; o corpo citoplasmático, em vez de se desintegrar, passa a ser capaz de fornecer oxigénio a todas as células do organismo humano pelos 120 dias restantes da sua vida”. Digam lá que é ou não é um exemplo prático do morrer para si mesmo a fim de dar vida aos outros? E então aquela do pericárdio, a membrana que envolve o coração: há um grande parágrafo grande a explicar as suas importantíssimas funções, desde evitar a súbita expansão das câmaras cardíacas, manter a posição do coração, diminuir o atrito entre o coração e as estruturas adjacentes, impedir o deslocamento do coração e a torção dos grandes vasos, dificultar a disseminação das infecções dos pulmões, etc. Depois disto tudo, diz-se (p. 1488) “apesar dessas funções, a completa ausência do pericárdio, congénita ou causada por cirurgia, não causa doença”… É ou não é o exemplo prático da expressão, “só faz cá falta quem está”? Ao ler isto pensava que o pericárdio é como nós, somos úteis muitas vezes e fazemos coisas maravilhosas, Deus conta connosco e criou-nos com uma missão própria, mas somos ao mesmo tempo dispensáveis, Deus não precisa de nós nem o Mundo acabaria por nós não existirmos… Pena que nem todos saibam disso… E aquela outra lição (p. 635) a propósito da estrutura da hemoglobina, que tem 4 cadeias, 2 alfa e duas beta: “o tetrâmero da hemoglobina é altamente solúvel, porém cada cadeia individual é insolúvel. As cadeias não pareadas precipitam, formando-se inclusões que lesam as células. A síntese normal das cadeias é equilibrada, de modo que cada cadeia alfa ou beta recém-sintetizada apresenta sempre um par disponível para se emparelhar”. É ou não é o exemplo real daquela expressão “Quando Deus faz uma panela, faz sempre o testo para ela”, ou ainda, “Se tens vocação para te casares com alguém, descansa que essa pessoa tem vocação para se casar contigo!”… Pensar nisto, deu-me muito ânimo, realmente está tudo muito bem feito… ainda para mais, porque foi mesmo no meio de tanto Harrinson que a cadeia de hemoglobina para emparelhar com a minha apareceu!... Nada acontece por acaso!...
E termino com uma outra imagem que me ficou na cabeça… Aquela da pág. 1504 com a imagem das artérias ocluídas por placas de aterosclerose… Sabem que muitas vezes, quando esses agregados de colesterol semi-obstroem uma artéria e rompem, nem sempre a resposta dela é o entupimento definitivo. Muitas vezes, depois do trombo com plaquetas, vêm os mecanismos reparadores, removem a superfície do coágulo e com enzimas e macrófagos e fibroblastos, a lesão, esse montinho de gordura agora mais estável, é incorporado na própria parede da artéria, que constrói nova capa do lado luminal. Isto fez-me pensar que por vezes, o que nós temos que fazer com as alfinetadas dos outros é isto: integrá-las na nossa parede e desobstruir o lúmen para o sangue poder continuar a passar. Esquecer, acolher, tornar nosso o que até aí não era. Bem, só que isto não se faz sem dor… Por isso é que é bom acabar de ler essa página para perceber como é que se trata a angina até ao fim…
Contente por ter chegado ao fim de mais esta etapa. Mas essencialmente contente por a ter percorrido. Por ter caminhado. E por o ter feito assim, aos tropeções comigo mesmo, e com a ajuda indispensável, indispensável!, de tantos familiares, amigos e amigas, alguns encerrados como eu, outros nos mais variados contextos a recordarem-se constantemente desta cromita. Não sei mesmo agradecer, por isso, que Deus vos pague o bem que me fizeram e a ajuda no caminho. E desculpem tudo. Também o silêncio forçado, a aparente distância e as impaciências todas! E àqueles que se preparam para enfrentar o Adamastor, queria dizer: não tenham medo do que há-de vir, que é essencialmente mito. O Harrison pode tornar-se um bom amiguito. A vida é bem mais fácil do que estudar sobre ela e os doentes mais importantes que as doenças.
Como dizia o Torga, na vida o importante é partir, não é chegar. Hoje viro a página. É a 2755 da minha vida.


18 de Novembro de 2010, 18.20h

A todos os companheiros de hibernação

6 comentários:

  1. Foi uma prova de fundo... =P
    Gostei do post, especialmente do anonimato da dor e sacrifícios. É claro que a parte das doenças já percebi menos.lol
    Bjs, Ivo

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  2. Bem... bendita hibernação que tal despertar proporciona. Estou à espera do meu primeiro piano, tantos anos vagamente desejado. Será um despertar parecido?

    De 18 de Outubro a 4 de Dezembro também vai já algum tempo. Espero que continues bem, Cátia.

    um abraço
    Luís

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  3. Olá Cátia
    Li eté ao fim e por isso já valeu a pena para compreender aquilo que ultrapassaste. Gostei da ligação à vida real, ao rosto dos doentes, às suas histórias. É esse o caminho para uma nova humanidade onde a dignidade conta.
    Um beijito. Tenho novidades para te dar mas ficará para um próximo post.
    Prof. Abel

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  4. Parabéns fundamentalmente e merecidamente à autora!
    Beijinhos, beijinhos, beijinhos*.... 1 Milione di baci*
    TVMB
    teu Ricardinho

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  5. "Contente por ter chegado ao fim de mais esta etapa. Mas essencialmente contente por a ter percorrido."
    Sim, mais importante que chegar é partir!

    Obrigado pela partilha e felicidades para esta nova "página" do livro da tua vida.

    Beijinho. Carmo

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  6. Olá Cátia.
    Por onde andas? Onde estás? E qual o resultado do "dito" exame?
    Bjs
    Prof. Abel

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