terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Herói pequenino


Olha para as minhas mãos. E olha depois as suas. As minhas estão geladas e apesar de as ter posto de molho na água quente, continuam frias… O verniz já começou a sair, depois de tantas vezes passar as mãos no bendito desinfectante do plano de contingência que cheira mal. As suas estão quentes. Uma está inchada. Foi da “maldade” que esta manhã a enfermeira lhe fez para lhe tentar tirar um bocadinho de sangue.
O meu pequeno paciente tem 1700 gramas e 4 dias de vida. Tem um irmãozinho com quem teve de partilhar o mesmo ninho durante as 34 semanas que quiseram estar lá dentro em alegre conversação. Cá fora, construíam-se prédios, aumentavam-se estradas, o Benfica alimentava o sonho dos adeptos de ganhar a taça este ano, homens engravatados discursavam animadamente no Parlamento como quem tem razão mas ninguém os escuta, mães ensinavam os seus meninos a rezar à borda da cama de um quarto cor de rosa, as chuvas destruíam as colheitas dos agricultores, faziam-se planos de guerra e planos de paz, descobriam-se novos genes, velhinhos morriam sozinhos na cama de um hospital com má fama e o sol nascia e despedia-se… Um dia após outro, uma hora após outra… E no silêncio do quarto partilhado os dois irmãozinhos cresciam irmãmente, dividindo as reservas e a cumplicidade… E sem que ninguém visse nada (porque há coisas que de tão puras, não podem ser vistas pelos nossos olhos contaminados), eles iam montando os seus corpinhos grandes e fortes, com a paciência de um escultor… Dias de muito trabalho, ãh?, estes primeiros que passamos escondidos a cozinhar o futuro!... E a mãezinha ajuda, e o pai vai falando connosco e até nos canta, enquanto pergunta à mãe se acha que nós ouvimos… Ela ri-se, enternecida, por ver um homem daquele tamanho sujeito a dois pequeninos que nunca viu e já monopolizam a sua vida…
Obrigado, pequenino, pela tua paciência. Sim, tens as fontanelas no sítio, os reflexos presentes, a barriguinha está em ordem, como o coração e os pulmões e a icterícia diminuiu o suficiente para poderes ir para a tua casa hoje. Obrigada, pequenino, por não chorares às minhas mãos frias que te pegam desajeitadamente com medo de te partir. Vou fingir que esse escape que me fizeste em cima não é vingança.
E enquanto te entrego à tua mãe e ao teu irmãozinho que estavam à espera que pudesses ter alta, vou pensando que será de ti… Em quem te vais tornar? Que vida te aguarda? Que surpresas? Que sonhos? Onde chegarás? Olha, amiguinho, se te posso dizer qualquer coisa qual irmã mais velha, deixa-me dizer-te que o pior já tu passaste, mesmo sem consciência disso: as 34 semanas mais trabalhosas da tua vida já passaram e venceste-as. Como venceste o medo do desconhecido e o desconforto de ser estrangeiro, há 4 dias atrás. O pior já passou. Agora, “vai e vive”! E já agora, se puderes ensinar a tua irmã de bata branca com xixi a ser assim corajosa!...

25 de Outubro de 2009
Aos pequeninos heróis que todos os dias fazem pela vida enquanto nós dormimos

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