terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Fora da validade

Há produtos que foram feitos para durarem muito tempo. São, por exemplo, aqueles que nos ensinavam na escola a ter sempre preparados para uma situação de terramoto. São bons, ninguém diz que não… Mas não sei se gostava de passar os meus dias a enlatados.
Depois há outros, que são de consumo imediato, porque só assim mantêm as características que evitam a visita precoce ao WC. Como o leite e o queijo frescos…
Depois há muitos outros, com um prazo determinado, que alegram as nossas mesas.
Para todos eles há um tempo próprio. E ninguém quer consumir algo que há meses foi à vida…
Na nossa vida, tudo tem também o seu tempo próprio. Há muitas coisas recicláveis e reutilizáveis, isto é, não irremediavelmente perdidas, que se podem recuperar, mas… aquela conversa que devia ter sido!..., aquelas palavras que te ficaram em nó na garganta!.., aquele presente que podia ter sido entregue!..., aquele sorriso que estava para desprender-se mas que o teu orgulho amarrou!..., aquele “gosto de ti” franco e simples que não foi senão sonho!..., aquela maluqueira boa que teria feito tão bem ao companheiro de guerra!.., aquela canção que teria mudado tudo!..., aquele piscar de olhos cúmplice, que aliviaria o rosto carregado!..., aquele arriscar tudo, por tudo que era ela!... Não quiseste. Não quiseste o prazo que tinhas. Não quiseste despir a tua armadura e lutar corpo a corpo com a fera que todos trazemos dentro e nos aprisiona dentro do nosso egoísmo solitário. E assim, fora do prazo ficaste. Tenho pena. Não pelo cheiro azedo que a vida exalou, mas porque queria mesmo saborear esse gauffre com doce de maçã e canela.

28 de Novembro de 2009
A todos os que alguma vez saíram fora do prazo de validade e não tiveram medo de ser reciclados

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