Leva-la para a frente. Ela pertence-te. Recebes os aplausos. E sentes-te realizado. És feliz. O primeiro lugar é teu.
Conheces alguém próximo que tem uma ideia brilhante. Chama-te para trabalhar com ele. Levam-na para a frente. És o seu braço direito. Agradeces os aplausos. E sentes-te realizado pelo sucesso. És feliz. O segundo lugar é teu.
Conheces alguém próximo que tem uma ideia brilhante. Convida-te a trabalhar com ele. Levam-na para a frente. És o seu braço esquerdo. Reconfortam-te os aplausos. E a tua vida faz sentido. És feliz. Teu é o terceiro lugar. Que também não é mau.
Não tens ideias. Nada começas, nada levas para a frente pelo medo de falhar. Tens vergonha de ti próprio por seres tão pobre. Ninguém te aplaude. Mas vendo-te tão pequenino e miserável, um dos primeiros vem ter contigo e decide fazer de ti a sua obra de caridade. Aplaudes. E dás graças a Deus por ainda haver gente boa no Mundo. És feliz. Porque alguém olhou para ti.
Mas imagina agora que não tens vocação de primeiro lugar (porque em tudo há alguém melhor que tu) e por isso não és digno de ser aplaudido pelas tuas ideias a meio brilho. E nem sequer tens lugar no pódio. Nem é teu o ouro, a prata, o bronze.
Podias ao menos ter ficado no meio onde dizem que está a virtude. Mas nem sequer aí. E também não és dos últimos de que se diz serão os primeiros e aos quais é tão fácil reconhecer e sentir compaixão.
Mas não. O teu não é o primeiro, nem o segundo lugar, nem nenhum da linha da frente onde é visível, nem da última linha, onde é visível também. O teu lugar não é o do meio. É outro.
Um desses qualquer, sem números engraçados ou significativos… Pode ser o 17, o 34, o 59, não importa. Mas é um desses lugares perdido no meio da multidão que cada dia procura o sentido para a sua vida e para o trabalho das suas mãos. Ninguém vai reparar em ti, nem aplaudir-te, nem sentir pena de ti e confortar-te. És um elo da cadeia que leva o Mundo para a frente, obedecendo silenciosamente e terminando com brio o que começa, a maior parte das vezes, ideias que outros fabricaram…
Ena, isto dói! Isto de não ser visto por ninguém, isto de não ver directamente a recompensa do que somos e fazemos, isto de ser herói fazendo o que se tem que fazer!... Dói. Isto de ter como alegria e coroação de cada dia, o dever cumprido com nobreza, de cabeça erguida, como se se cozinhasse o melhor prato do Mundo para a pessoa mais importante… Não, é só mais um livro para estudar, mais um cesto de roupa para estender, é só mais uma sopa para fazer, é só mais um doente para ver, é só mais uma reunião para participar. Com o sabor de não ter sido escolhido por ti. Como a maior parte das coisas na nossa vida. São presentes. São convites. Não são escolhas imaginadas por nós.
E tu, agradecido por não seres nada, mas ao mesmo tempo ciente da tua importância nesse encontro diário com a tua vocação de homem a que não queres faltar, acabas de sublinhar mais uma linha, na tua secretária solitária, enquanto sorris, pensando que se não fosse o senhor que produz os adubos, provavelmente amanhã não poderias ir trabalhar com o aconchego de um pão torrado com canela ao acordar.
28 de Novembro de 2009
Ao principal “calço” da minha vida não por escolha mas por vocação, a quem chamo irmã.
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