quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Vamos ao presépio?




Meu amigo…
No meio da correria habitual, parei o relógio, que me deitou um daqueles olhares de lado, como quem não gosta que o governem, e ajoelhei.
Este tempo, que é sagrado porque emprestado, é para ti.



É quase dia de Natal e tenho (porque assim o coração me obriga) de te dizer que és importante.
És importante para mim (e obrigada pela tua contribuição na obra que eu sou, não te sabia pedreiro!) e com certeza para muitos outros amigos que só não te dizem que gostam de ti por vergonha (que é piroso, dizem. Sim, sou pirosa!). Mas isso é o menos.
Valerias pouco se o teu valor fosse ser importante para mim…



Há muitos muitos anos atrás, Alguém (louco como nunca houve outro igual…) decidiu fazer um presépio.
E preparou tudo com muito carinho. Cada pedra, cada floco de neve, cada personagem. As do capítulo presente, as do epílogo, as do prólogo… Todas!...
Nenhum pormenor foi deixado perdido.
E tu, caro amigo, ainda que não tenhas estudado as tuas falas (que tu próprio escreves), também fazes parte da história. Desta História humana que é a melhor novela alguma vez vista (e a concorrência é grande!)… Também há traições, ciúmes, invejas, pais que matam filhos e filhos que matam pais... Há personagens que parecem fora do baralho, por serem demasiado cruéis ou demasiado luminosas…
Mas a história não pára… Tem de chegar ao fim! E não queres estar lá para o aplauso final, quando subirmos todos ao palco para fazer a vénia?



Caro amigo, se tens valor?! Mas todo o valor!!! Não acreditarias se te contasse este segredo: é que sabes, foi para ti que esta história foi feita, a pensar em ti!


Não, não és a personagem principal, mas és um dos protagonistas e co-autor...


Não fiques ciumento, porque a principal é um bebezinho.
Esse tal que viveu no presépio uns tempos. E que foi morto. E que está vivo. E que é Deus. De sobrenome Jesus.
Se és importante?! Digo-te de outra forma: ainda que só existisses tu, toda a história teria sido escrita e haveria Natal igualmente!...
E eu, meu amigo, com o calor da lareira nos pés gelados, o cheirinho a rabanadas e a música da época, coloco-te a meu lado no presépio cá de casa... Podes ser aquele menino que vence o frio da noite para chegar à gruta iluminada. E eu serei a ovelhinha fiel que nunca o larga.
Viste como Maria sorriu, S. José aprovou e até Jesus parou de chorar?






Natal 2009


A toda a família, amigos e amigas, companheiros de voo e Lda, com os votos de um Natal muito feliz!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Calço

Tens uma ideia brilhante.
Leva-la para a frente. Ela pertence-te. Recebes os aplausos. E sentes-te realizado. És feliz. O primeiro lugar é teu.
Conheces alguém próximo que tem uma ideia brilhante. Chama-te para trabalhar com ele. Levam-na para a frente. És o seu braço direito. Agradeces os aplausos. E sentes-te realizado pelo sucesso. És feliz. O segundo lugar é teu.
Conheces alguém próximo que tem uma ideia brilhante. Convida-te a trabalhar com ele. Levam-na para a frente. És o seu braço esquerdo. Reconfortam-te os aplausos. E a tua vida faz sentido. És feliz. Teu é o terceiro lugar. Que também não é mau.
Não tens ideias. Nada começas, nada levas para a frente pelo medo de falhar. Tens vergonha de ti próprio por seres tão pobre. Ninguém te aplaude. Mas vendo-te tão pequenino e miserável, um dos primeiros vem ter contigo e decide fazer de ti a sua obra de caridade. Aplaudes. E dás graças a Deus por ainda haver gente boa no Mundo. És feliz. Porque alguém olhou para ti.
Mas imagina agora que não tens vocação de primeiro lugar (porque em tudo há alguém melhor que tu) e por isso não és digno de ser aplaudido pelas tuas ideias a meio brilho. E nem sequer tens lugar no pódio. Nem é teu o ouro, a prata, o bronze.
Podias ao menos ter ficado no meio onde dizem que está a virtude. Mas nem sequer aí. E também não és dos últimos de que se diz serão os primeiros e aos quais é tão fácil reconhecer e sentir compaixão.
Mas não. O teu não é o primeiro, nem o segundo lugar, nem nenhum da linha da frente onde é visível, nem da última linha, onde é visível também. O teu lugar não é o do meio. É outro.
Um desses qualquer, sem números engraçados ou significativos… Pode ser o 17, o 34, o 59, não importa. Mas é um desses lugares perdido no meio da multidão que cada dia procura o sentido para a sua vida e para o trabalho das suas mãos. Ninguém vai reparar em ti, nem aplaudir-te, nem sentir pena de ti e confortar-te. És um elo da cadeia que leva o Mundo para a frente, obedecendo silenciosamente e terminando com brio o que começa, a maior parte das vezes, ideias que outros fabricaram…
Ena, isto dói! Isto de não ser visto por ninguém, isto de não ver directamente a recompensa do que somos e fazemos, isto de ser herói fazendo o que se tem que fazer!... Dói. Isto de ter como alegria e coroação de cada dia, o dever cumprido com nobreza, de cabeça erguida, como se se cozinhasse o melhor prato do Mundo para a pessoa mais importante… Não, é só mais um livro para estudar, mais um cesto de roupa para estender, é só mais uma sopa para fazer, é só mais um doente para ver, é só mais uma reunião para participar. Com o sabor de não ter sido escolhido por ti. Como a maior parte das coisas na nossa vida. São presentes. São convites. Não são escolhas imaginadas por nós.
E tu, agradecido por não seres nada, mas ao mesmo tempo ciente da tua importância nesse encontro diário com a tua vocação de homem a que não queres faltar, acabas de sublinhar mais uma linha, na tua secretária solitária, enquanto sorris, pensando que se não fosse o senhor que produz os adubos, provavelmente amanhã não poderias ir trabalhar com o aconchego de um pão torrado com canela ao acordar.

28 de Novembro de 2009
Ao principal “calço” da minha vida não por escolha mas por vocação, a quem chamo irmã.

Fora da validade

Há produtos que foram feitos para durarem muito tempo. São, por exemplo, aqueles que nos ensinavam na escola a ter sempre preparados para uma situação de terramoto. São bons, ninguém diz que não… Mas não sei se gostava de passar os meus dias a enlatados.
Depois há outros, que são de consumo imediato, porque só assim mantêm as características que evitam a visita precoce ao WC. Como o leite e o queijo frescos…
Depois há muitos outros, com um prazo determinado, que alegram as nossas mesas.
Para todos eles há um tempo próprio. E ninguém quer consumir algo que há meses foi à vida…
Na nossa vida, tudo tem também o seu tempo próprio. Há muitas coisas recicláveis e reutilizáveis, isto é, não irremediavelmente perdidas, que se podem recuperar, mas… aquela conversa que devia ter sido!..., aquelas palavras que te ficaram em nó na garganta!.., aquele presente que podia ter sido entregue!..., aquele sorriso que estava para desprender-se mas que o teu orgulho amarrou!..., aquele “gosto de ti” franco e simples que não foi senão sonho!..., aquela maluqueira boa que teria feito tão bem ao companheiro de guerra!.., aquela canção que teria mudado tudo!..., aquele piscar de olhos cúmplice, que aliviaria o rosto carregado!..., aquele arriscar tudo, por tudo que era ela!... Não quiseste. Não quiseste o prazo que tinhas. Não quiseste despir a tua armadura e lutar corpo a corpo com a fera que todos trazemos dentro e nos aprisiona dentro do nosso egoísmo solitário. E assim, fora do prazo ficaste. Tenho pena. Não pelo cheiro azedo que a vida exalou, mas porque queria mesmo saborear esse gauffre com doce de maçã e canela.

28 de Novembro de 2009
A todos os que alguma vez saíram fora do prazo de validade e não tiveram medo de ser reciclados

Herói pequenino


Olha para as minhas mãos. E olha depois as suas. As minhas estão geladas e apesar de as ter posto de molho na água quente, continuam frias… O verniz já começou a sair, depois de tantas vezes passar as mãos no bendito desinfectante do plano de contingência que cheira mal. As suas estão quentes. Uma está inchada. Foi da “maldade” que esta manhã a enfermeira lhe fez para lhe tentar tirar um bocadinho de sangue.
O meu pequeno paciente tem 1700 gramas e 4 dias de vida. Tem um irmãozinho com quem teve de partilhar o mesmo ninho durante as 34 semanas que quiseram estar lá dentro em alegre conversação. Cá fora, construíam-se prédios, aumentavam-se estradas, o Benfica alimentava o sonho dos adeptos de ganhar a taça este ano, homens engravatados discursavam animadamente no Parlamento como quem tem razão mas ninguém os escuta, mães ensinavam os seus meninos a rezar à borda da cama de um quarto cor de rosa, as chuvas destruíam as colheitas dos agricultores, faziam-se planos de guerra e planos de paz, descobriam-se novos genes, velhinhos morriam sozinhos na cama de um hospital com má fama e o sol nascia e despedia-se… Um dia após outro, uma hora após outra… E no silêncio do quarto partilhado os dois irmãozinhos cresciam irmãmente, dividindo as reservas e a cumplicidade… E sem que ninguém visse nada (porque há coisas que de tão puras, não podem ser vistas pelos nossos olhos contaminados), eles iam montando os seus corpinhos grandes e fortes, com a paciência de um escultor… Dias de muito trabalho, ãh?, estes primeiros que passamos escondidos a cozinhar o futuro!... E a mãezinha ajuda, e o pai vai falando connosco e até nos canta, enquanto pergunta à mãe se acha que nós ouvimos… Ela ri-se, enternecida, por ver um homem daquele tamanho sujeito a dois pequeninos que nunca viu e já monopolizam a sua vida…
Obrigado, pequenino, pela tua paciência. Sim, tens as fontanelas no sítio, os reflexos presentes, a barriguinha está em ordem, como o coração e os pulmões e a icterícia diminuiu o suficiente para poderes ir para a tua casa hoje. Obrigada, pequenino, por não chorares às minhas mãos frias que te pegam desajeitadamente com medo de te partir. Vou fingir que esse escape que me fizeste em cima não é vingança.
E enquanto te entrego à tua mãe e ao teu irmãozinho que estavam à espera que pudesses ter alta, vou pensando que será de ti… Em quem te vais tornar? Que vida te aguarda? Que surpresas? Que sonhos? Onde chegarás? Olha, amiguinho, se te posso dizer qualquer coisa qual irmã mais velha, deixa-me dizer-te que o pior já tu passaste, mesmo sem consciência disso: as 34 semanas mais trabalhosas da tua vida já passaram e venceste-as. Como venceste o medo do desconhecido e o desconforto de ser estrangeiro, há 4 dias atrás. O pior já passou. Agora, “vai e vive”! E já agora, se puderes ensinar a tua irmã de bata branca com xixi a ser assim corajosa!...

25 de Outubro de 2009
Aos pequeninos heróis que todos os dias fazem pela vida enquanto nós dormimos

Dói


Que ânsia é esta que acelera cá dentro?
Que pressa é esta de chegar ao fim?
Parem, parem. Por favor, parem. Que alguém me olhe cinco minutos. Sem tempo contado. Alguém que me fale de mim. Que me diga quem sou, que me esqueci. Não sei onde me deixei, mas perdi-me em qualquer esquina dum bairro mal frequentado. E não sei como voltar. Parem. Peço um silêncio para partilhar. Alguém que não se importe de esperar que eu chore. E será que alguém vai chorar quando eu não estiver cá? Será que eu vou importar para alguém?
Porque é que haveria de importar?...
A maior parte de nós vive só, sem ninguém que ponha como fim da sua vida a felicidade desse a quem ama. Mas os homens conseguem amar porque sim?...
Tristes monjes de vocação forçada, vivendo em torres altas, escuras, frias. De vez em quando o sol passa o vidro sujo das poucas janelas que existem e lembramo-nos que ainda somos homens. Fora disso vamos tentando não nos lembrar muito que vivemos, como se doesse só o recordar dessa verdade insuperável…
Preciso de uma razão para amanhã me levantar da cama, apesar das ligaduras no chão de uma vida que já cá não está. Porque é que a vida é assim?
O que é que se podia ter feito mais?, perguntamos, depois que tudo acabou…
Achamo-nos senhores do mundo e não passamos de formigas do universo… por isso ainda mais me espanta que sejamos tão grandes por dentro, que tenhamos tantos recantos que nunca ninguém conhecerá. Dói-me a minha humanidade. Toda ela chora agora. Porquê esta solidão?... Porquê esta impotência diante das nossas próprias forças interiores? Porquê este peregrinar infindável de quem procura uma gota de água e já nem sequer pode gritar porque a garganta está colada?
Porque é que continuam a mentir, dizendo que não há fim, quando é ele a única razão para não deixar de respirar e o único toque de calor que anima o coração preste a parar?...
Não me mintam! Olhem para mim, por favor. Levem-me a casa.
Não, não quero aliviar esta opressão… quero beber cada gota deste sangue que me escorre da alma. Quero ser boa irmã dos meus irmãos, os homens, e dividir a angústia de ser homem mas não totalmente e de estar em terra estrangeira à procura de água, sem saber a língua que se fala. E choro, choro, choro, triste. A alegria de ser homem, cansado.
Não tenho mais forças, baixo os braços. Alguém que mos segure.


27 de Fevereiro de 2009
Aos companheiros de voo que me são espelho

O mal do Mundo


Estava a conversa animada. Era noite. Estávamos ao serão sentados em volta da lareira apagada pois já era Primavera. E cada um ia contando as histórias do dia quase no fim.
Dizia uma:
- Hoje, lá no hospital fizeram-me esperar 2h, acreditam? Aqueles empregados não sabem fazer nada. Primeiro mandam uma pessoa para ali, depois dizem que é no andar de cima, chego lá e está uma bicha enorme só para marcações, para me dizerem no fim, que já não há consultas antes das férias! Que o médico não pode atender antes! É pá, vim de lá furiosa! Este sistema vai de mal a pior. Quando ele chegar pode ser que já nem seja precisa consulta!
(Risada geral)
- Pronto, passava a vez!...

Começou outra:
- Hoje esteve cá a D. Ana. Veio desabafar. Outra vez o marido, sabem? Esta gente não pensa antes de se casar! Então não é que ele até lhe controla todas as chamadinhas que ela faz no telemóvel? Vai à loja e pede todo o relatório e quer saber o porquê de todas. E faz cada uma aos filhos, que só visto… Ai aquela família, não sei não…
- As famílias já não são o que eram não. Isto está cada vez pior…

E contou outra:
- Hoje tive de ir à cidade e vim de lá toda divertida. Nunca tinha visto tanta barriguinha à mostra! E elegantes! As meninas andam todas com as saias e as calças de cintura baixa e com as camisolas curtinhas e põe o umbigo a ver-se!
- Oh, isso já é de há muito tempo. É uma pouca vergonha! Já ninguém se veste como antes. Anda tudo desarranjado e com roupa a menos. São estas modas. Mesmo indecentes!
- Ah, mas olhem que eu achei muita graça aquilo… São tão girinhas! Ia pela rua abaixo admirada com aquelas barriguinhas tão bem feitas e só dava graças a Deus por ter feito uns umbiguinhos tão perfeitos!...
- …


Onde é que está a crise? Nos meus olhos?


Aos olhos que me trazem sempre lufadas de ar fresco mesmo quando o ar está carregado

14 de Agosto de 2004

Transparente


Um dia, uma velhinha, daquelas velhinhas de cabelos brancos e rugas no rosto escuro de Angola, que já viram muita vida a passar e aprenderam muita coisa com ela, daquelas velhinhas santas que sustêm o Mundo com a sua oração e sabem ouvir com muita paciência e bondade os mais novos, que já choraram muitas lágrimas e sabem calar a dor, um dia a velhinha disse-me:
- Preciso de te dar uma palavrinha…
Admirada e felicíssima por a anciã me querer dizer algo, logo vou ter com ela, com aquele corpinho franzino pela doença e mãos delgadas e perfeitas de costureira de anos.
E eis o que ela, por detrás dos óculos redondos escondendo uns olhos lindíssimos cinzentos e azuis de Angola que sabem ver as almas das pessoas que até ficamos com medo de que veja algum segredo que queremos esconder, eis o que ela tinha para me dizer:
- Filha, tenho olhado muito para ti, sabes?... E queria dizer-te… que tu podes ser santa! Tu vais ser santa, se quiseres. Daquelas santas heróicas, de altar mesmo. Porque tens algo que eu não vejo noutras pessoas. Escuta bem o que te digo: o caminho da santidade é a subir e é como a encosta de um monte escarpado, mas nunca desistas. Não queiras chegar lá cima num dia. Tens de caminhar muito, sabes? E vai custar- te muito muitas vezes. Mas podes lá chegar. Ouve o que eu te digo: tu amas, mas não podes guardar esse amor dentro de ti. Se não é para dar, o amor não vale nada! Tens de ser como uma rosa que primeiro é um botão que vai abrindo as pétalas ao sol da Primavera, e se abre toda. Toda. Reparas? Tem uma maçãzinha que mantém sempre fechada para si. É lá que guarda as sementes, que lhe permitem manter-se viva. Tudo o mais, ela dá a quem passa: abre as pétalas e exala perfume, alegrando a existência de quem visita. Sabes qual é o segredo? Transparência. Vês esta chávena? É de vidro. E tu sabes sempre o que ela contém. Porquê? Porque ela é transparente e deixa que todos saibam o que vai dentro dela. Sê transparente. Sê aquilo que mostras. Ou melhor mostra aquilo que és. Tens muito para dar, filha. E não temas as lágrimas. Chora à vontade. É assim que se faz a vida.
Era só isto que te queria dizer.

Só pude chorar. Porque é uma velhinha, mais baixa do que eu dois palmos, que já viu muita vida vir e ir, uma velhinha que é santa tenho a certeza, que me vem dizer que eu devo sê-lo, porque posso.
Nunca me senti tão pequenina. Acho que nunca vi alma tão grande.
Quem sou eu?

Aos profetas da minha vida
17 de Agosto de 2004