sábado, 19 de julho de 2014

Casa

Lembrei-me agora, ou fizeram-me lembrar para ser exata, que há já muito tempo que não ponho em palavras escritas algum pensamento-andorinha. Como diz a parede do Largo Pintor Gata, que gostavas de te mostrar, “Sempre é tempo”. E aqui estou.

Ultimamente, moro numa casa de bonecas, com paredes de vidro. As que não são de vidro são vermelhas. Nunca está às escuras. De dia, o sol entra por quatro frentes e seca-me sempre a fruta em cima da bancada. De noite, a ausência de persianas, torna a lua convidada para a minha privacidade. Quando não há luar, mantêm o ambiente acolhedor os candeeiros da rua, creio que os do Paço Episcopal, cuja capela olha para a minha varanda. A outra varanda estende-se para o Caramulo e não me canso de lhe olhar a beleza. Com a luz tímida do sol nascente, no laranja da tarde quente, no tom violeta e azul do início da noite, há vários quadros e cada qual mais lindo que o outro. O Céu tem tantas cores!...

Outro pormenor que me delicia é o voo das andorinhas… De manhã acordo com a brincadeira delas e no fim da tarde, lá voltam elas!... Não sei o que fazem durante o dia, mas, e sem querer ser auto-referencial, diria que vão ali para o largo em frente à minha varanda quando eu estou em casa. E já as observei, demoradamente, tentando compreender o padrão da sua dança. Vêm às dezenas, são imensas, negras e pequeninas, ágeis. E voam sempre juntas, é impressionante!... Como se ensaia uma coreografia com tantos figurantes?...

Mas elas parecem saber os passos de cor. E não, não lhes encontrei um padrão. Andam para aqui e para ali, aos S, sem destino, para a esquerda e para baixo. Se lhes tivesse que pôr um adjetivo diria: divertidas. Sim, é isso. Não sei se estão a voar bem se não, mas parecem divertidas. Alegres, tontas. A disfrutar as cores do céu. E eu desconfio que vêm também para embelezar o quadro, à espera que eu queira tirar uma fotografia ao Caramulo e as apanhe.

São divertidas. Simples. Andam para ali a dançar de um lado para o outro. Sem propósito. Sem programa, sem horário. Ou então esse é o seu propósito, o seu horário. Não ter um.

Como fazem para conseguir voar naquelas inclinações?!... Desafiam a gravidade, deixam-me tonta, a mim que tenho algum medo das alturas e de tudo o que seja tirar os pés do chão!…

Divertidas. E com o olhar acompanho a dança delas e imagino-me andorinha… Para aqui e para ali. Livre e divertida. Feliz. A dançar. Como dizia o Marco, “dançar é chamar corpo ao pensamento”; fico a imaginar em que é que elas estarão a pensar... Às vezes, tenho pensamentos que postos em dança dariam uma coreografia espantosa, vibrante, transparente, enérgica!...

É muito bom dançar.

Ando agora a descobrir músculos no meu corpo… E articulações. E movimentos. Apesar de ter passado no exame de anatomia há muito tempo. A verdade é que só me perguntaram os músculos do antebraço… Mas a dança é outra coisa. É músculos mais música. É articulações mais ritmo. É movimentos mais liberdade. Exterior e interior. É conversar com o corpo todo. Num diálogo sôfrego, como todas as minhas conversas que parecem nunca acabar e desafiam a lei da relatividade do tempo que parece sempre muito curto. Novamente o Marco: dançar é “ir atrás do mar quando o mar vem atrás de nós”… Agora tu, agora eu… 1,2,3,4, e 1,2,3,4… Para a esquerda, para a direita, 1,2,3,4… Oh, mas lá estou eu a controlar!...

Esquece. Voa como quiseres, dança como quiseres… Conversa tudo, como quiseres. Tenho de aprender a dançar “free style”!... Porque é que o mais difícil é o fazer como me apetecer?

Constrange-me o improviso. A imprevisibilidade. O descontrolo. Desejo-o e temo. Como sempre acontece com o que se deseja.

A minha casa está construída sobre um penedo de granito. Coberto de musgo. Cada vez que estaciono o carro por baixo das trepadeiras bem cheirosas, cumprimento-o e acolhe-me sempre com um sorriso e um abraço. Tenho penedos a toda a volta da minha casa. Uma explosão de granito que me recorda a força que habita em mim! Em ti.

Refúgio, memória, saudade, reconstrução, pensamento, dança. Inabalável. Como o meu penedo ladeado de cheiros primaveris e amarelos. Saio de casa, desço as escadas e abro os dois portões com a chave que tem uma pequena mania. Com jeitinho, deixa-se levar. Saio feliz. Enquanto o portão automático abre, passo o batom nos lábios, arrumo o telemóvel, ligo o rádio com o CD e troco o cheirinho do carro. Um pensamento para o céu, com o pedido matinal- “Que eu seja boa hoje!”- e o portão acaba de abrir.

Ao regressar, novamente o meu penedo me abraça, envolvente e inabalável. Perfumado. Ainda hei-de subir a ele um dia! “O dia foi bom, sim, obrigada!” E subo, vagarosa, as escadas. Sem me esquecer de contrair o transverso. E abro as manias aos dois portões. E respiro novamente o doce sabor a casa. “Home is where the heart is”.

Abro as janelas para o ar circular. E enquanto bebo o meu batido com canela, acompanho a dança das andorinhas. 
Em casa.
 
19/07/14
À andorinha que com a sua dança me desafiou a voltar a dançar.    

 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Voltar a casa

O que eu não trocava por nada deste Mundo?...

O Pai. A Mãe. Os meus olhos azuis. O meu ursinho de peluche (não gozem, deram-me quando eu tinha 5 anos e viu-me crescer!...). A minha irmã. A minha camisola rosa. O meu Deus. A minha viola. O Harrinson (é uma piadinha, ãh?). Os meus amigos. O meu país.

 O que me faz chorar?

O Hino nacional. Um golo da selecção nas meias-finais do Europeu. Picar cebola. O discurso do Pai no dia do meu aniversário. Regressar a casa depois de um ano de Erasmus. A humilhação de um exame oral embrulhado. O “Orgulho e Preconceito”. As imagens do jornal da noite. A dor de barriga insuportável naqueles dias do mês. A notícia da morte do meu amigo. A declaração de amor esperada mas improvável. A saudade. Um Fado sentido. 

Coisas favoritas?

Cereais ao pequeno-almoço. Com canela. Vestidos. Pantufas. Festinhas no cabelo. Abraços. Dormir. Botas novas. Gelados. O toque dos sinos. O cheiro a castanhas assadas. Pão acabadinho de fazer com manteiga. A cor azul.

Uma casa tem de ter…

Lareira. Sofá. Mesa de jantar. Uma jarra de flores. Um armário dos doces. Tecto. Porta de entrada grande. Um rádio. Livros. Uma cama. Uma sanita. Uma viola. Um cão.

A última palavra que gostavas de pronunciar…

Missão cumprida. Fui feliz. Valeu a pena. É bom estar aqui. Desculpa. Obrigada. Muito obrigada.


"Não me lembro bem do que se passou. Sei que era noite. Daquelas noites frias de Inverno, de céu limpo, com cheiro a terra molhada da véspera, possível de sentir pelos jardins da cidade. Estava em Lisboa. Num desses bairrinhos que o tempo mudou as caras mas não a graça. Tinha o nariz vermelho e a pele arrepiada, apesar de estar embrulhada até aos olhos no meu cachecol comprado nos saldos da Baixa.
Não me lembro porque saí nessa noite. Talvez porque houvesse pouca gente em casa- o período de férias de Natal já começara para algumas- e me sentisse só. Precisava de ver pessoas. Gente viva. Movimento. Aconchego. Sim, eu sei que agora já sou grande. Isso é o que dizem. Os meus pais, os professores da faculdade logo na primeira aula o recordaram... Até a minha avó que me continua a chamar “piquena”, me disse antes de vir para Lisboa, que agora eu era uma mulherzinha e que tinha de fazer pela vida. Como é que se faz pela vida?
Passamos a infância e a adolescência a querer ser grandes, a querer independência e autonomia… Por vontade própria ou pela força das circunstâncias, um dia temos de deixar a nossa casa. Ah, e como custa!... Ainda para mais tem lareira. E a manta do sofá? E a prateleira superior do armário da sala onde a Mãe tenta guardar as bolachas e os chocolates para as visitas? Como custa deixar a mesa de jantar onde se joga monopólio ao serão!...
E com a nossa casa, fica para trás também a nossa terra, o sino da paróquia, os nossos amigos espalhados pelas faculdades do país inteiro, os jogos de futebol com a família inteira a torcer pela selecção, até dos discursos do Pai sobre o défice e o estado da Nação tenho saudades… Saudades? Oh… E a lagrimita apareceu no canto do olho, quando nessa noite, ao percorrer as ruas daquele bairrinho, ouvi uma canção que me soube mesmo a casa… Era a que costumávamos cantar na escola primária na Festa de Natal dos Pais…
Noite feliz, noite feliz cantava-se… mas eu confesso que me sentia um pouquinho triste… Lisboa é linda, nem eu imaginava que esta cidade me iria dizer tanto antes de vir para cá, mas faz-me chorar…  Talvez seja do ar antigo e cansado das ruas de Alfama… Ou das aves raras que se cruzam comigo ao passar o Bairro Alto e me metem medo… Talvez a nostalgia do Castelo, que me recorda tempos áureos passados também tenha o seu peso. E os sem-abrigo a dormir nos passadiços do Terreiro do Paço, que me dão tanta pena… Ao lado, passa a senhora fina a correr, com as compras de Natal… Junto a Santa Apolónia, as eternas obras que nunca mais acabam desfeiam o lugar e complicam o trânsito, e com atenção, ouve-se uma voz fadista ao longe, triste… Não se vê muita gente de cara alegre por estas bandas, não… Tudo passa apressado, como se tivesse o último eléctrico para apanhar… Parece que as pessoas estão desencantadas, desiludidas, desconfiadas, que ninguém quer saber de nada ou de ninguém. Tudo com pressa. Tudo sem tempo. Para além de sem dinheiro, como dizem no telejornal, todos os dias. Deixei até de o ver, confesso, porque não me ajudava a levantar da cama no dia seguinte para ir para a faculdade. Era como se acordasse já vencida. E estas imagens, na minha terra nunca as tinha visto… As pessoas conversam mais, conhecem-se mais, preocupam-se mais umas com as outras… O espaço é mais pequeno, menos disperso e também há menos gente…
É nestas alturas, quando o que vejo à minha volta é triste, que as saudades de casa apertam mais. Porque o meu Pai poria tudo no lugar. Pelo menos lá em casa, não há persiana estragada ou torneira a pingar que ele não arranje. Qual é o Pai que não está a fazer o seu trabalho? Uhmm… Mas, bem, como agora já sou grande, dizem, tenho de resistir por mim mesma até às saudades. Vale-me a guitarra, que canta até o que eu não sei dizer.

O Mundo dos adultos é complicado. E não sei se algum dia vou entendê-lo. É preciso? Digam-me, é preciso? Emprego, greves, seguros, contratos, contas, trânsito, crimes, políticos, polícias, ordenados, oposição, défice, FMI’s e outras siglas que eu não sei para que servem. Obrigações e mais obrigações. O Mundo dos adultos que cresceram demais tem demasiadas palavras complicadas. Deve ser por isso que não cabem outras, de que eu gosto tanto e que me animam a jornada quando a encho com elas: pequeno-almoço sentada, vestidos, pantufas, abraços, segredos, azul, sorrisos, crianças, capuccino, canela, o cheiro das castanhas assadas, dançar, sonhar…

Eu não sei se tem de ser assim a vida. Conforme a pintam os grandes. Fazer-se à vida é ser triste?

E quando dei por mim, embrenhada nestes pensamentos, tinha apanhado o 45 e estava em Belém, à bordinha do paredão para sentir de perto o cheiro a rio… O Tejo é tão bonito!... Ao longe, o Cristo Rei que parece abraçar-nos e convidar-nos a entrar na festa… Porque é que a vida não pode ser uma festa?... 
Ao olhar o Padrão dos Descobrimentos, vieram-me à cabeça as aulas de História… Não me lembro nada do que disse ontem o professor na faculdade, mas da querida senhora que me ensinou que Portugal existe desde 1143, e que é por isso muito velhinho e que é por isso digno de todo o respeito que se deve aos anciãos, disso lembro-me. Confesso que não reconheço as 33 personagens que nele se erguem imponentes. Vejo o Infante à cabeça, vejo Camões, com a sua golinha inconfundível e os Lusíadas na mão, vejo Vasco da Gama, ainda reconheço a única dama presente, D. Filipa de Lencastre, e no meio de outros frades, S. Francisco Xavier. Os outros, com certeza importantes, mas a minha ignorância não dá para mais. Impressionantes estas vidas... E pensar que são do meu sangue. E que fizeram coisas tão grandes!... E que pasmam as minhas amigas dos 4 cantos do Mundo, do Congo, à China, passando por Espanha e pela Índia… Isto fomos nós. Fomos ou somos? Somos e não sabemos? Ou somos e esquecemos? O que é que nos aconteceu? Será que só nos Pastéis de Belém é que nós estamos de acordo em que são uma delícia? E por falar em amigas, nesse mesmo instante ouvi alguém chamar-me e, coincidência das coincidências, eram elas, as 4 estudantes estrangeiras que dão um ar internacional à Residência e não deixam que a casa sossegue com a sua euforia! Pediram-me que lhes mostrasse Belém e outros locais mais típicos de Lisboa… E eu fiz exactamente o caminho inverso, agora na alegre companhia da mistura de línguas a tentar parecer português. Revi com elas o Tejo, comemos pastéis de Belém, fomos aos Jerónimos onde um coro fantástico nos embalou...
Contei-lhes do que me lembrava da História de Portugal relacionado com os Descobrimentos e as personagens do Padrão e elas, cada vez mais maravilhadas com o nosso passado e com o nosso presente, fartaram-se de fazer perguntas… Voltámos à Baixa e logo ali, o perfume das castanhas assadas encheu-nos a alma “Quentes e boas, freguesa, 2 euros a dúzia!”. Dois euros por 12 castanhas? Realmente!... E lá em casa tantas no chão… Mas está bem, tome lá, que as minhas amigas nunca provaram…
Virando a esquina ouvimos imediatamente “Olha a sorte grande, lotaria do Natal!”… E o senhor de boné gasto, cortando o frio da noite com o seu pregão que convencia poucos, olhou para nós implorante, mas tive de lhe dizer: “Não temos dinheiro, desculpe…, Oh, disse eles, dizem todos o mesmo, este ano vai mal, vai…” Perguntaram-me depois as estrangeiras o que vendia aquele senhor, porque tinham reconhecido a palavra sorte. Lá lhes expliquei que não vendia sorte, não, se bem que dava jeito às vezes… 

Já na Rua Augusta, uma personagem inesperada meteu-se connosco, enquanto tirávamos uma fotografia. As minhas amigas, divertidíssimas, diziam que os portugueses são muito simpáticos e bem dispostos e logo me lembrei dos meus pensamentos tristes de há uns minutos atrás… E das saudades de casa… E do complicado Mundo dos adultos… E das notícias do telejornal… E do sem-abrigo do Terreiro do Paço… Perguntei-lhes se não tinham saudades de casa e dos países delas. “Saudade? O que é isso?” Expliquei como pude o que é saudade, disse-lhes que era uma espécie de nostalgia de regressar a casa, a casa com maiúscula, ao que é nosso, ao que reconhecemos como nossa identidade, nostalgia de regressar onde se pertence, um desejo imenso de plenitude de encontro com aqueles que nos amam de verdade, aqueles que não trocávamos por nada deste Mundo… Ficaram a olhar para mim com ar espantado e disseram com o seu sotaque especial: “Não, saudade não. Eu encontrei outra casa e outra família em Portugal, da qual tu fazes parte.” E com esta me calaram, e a lagrimita voltou-me aos olhos, pelo milagre que acabara de acontecer… s”
Subimos até à Sé e eu ia completamente arrepiada… As ruas já não eram tão tristes, nem as pessoas tão apressadas, um encanto novo aparecia-me diante ao redescobrir o meu País através dos olhos destas amigas… O que eu não captei, captaram elas e fizeram-me entender que a nossa casa não fica num lugar só, que a nossa identidade está dentro de nós, que nós pertencemos àqueles a quem cativámos, independentemente da língua, idade ou condição… Mostraram-me que as lágrimas fazem parte do caminho de “fazer pela vida”, e que não são más, significam que somos humanos e que esta nossa humanidade, igual em toda a parte do Mundo, é boa e que eu não devia ter medo dela. Fizeram-me encher daquele bom orgulho de pertencer a um país de tanta História e de tantas coisas boas, com tantas potencialidades… E nessa altura da conversa, íamos nós a passar por Alfama, quando ouvimos na voz de uma velha fadista, aquela que poderia ser para muitos a última palavra que gostariam de pronunciar… A "Prece", de Amália...

A última palavra ainda não vai ser esta não. Porque me falta dizer… é bom estar em casa! É muito bom ir e voltar, chegar e partir e continuar em casa. Por isso, a todos que fazem parte da minha casa alargada, dirijo as últimas palavras: Vale a pena! Obrigada. Muito obrigada. E a todos… Feliz Natal!

A todas as alamitas e suas famílias

Estranha forma de vida


Há quem o venere…
Há quem o não suporte…
Há quem apenas o tolere…
Há quem não desgoste…
Para alguns uma forma de vida…
Para os outros bem estranha por sinal…
Mas para todos, o FADO é, a partir de agora, da Humanidade, Património imaterial.
Para muitos continua a ser uma linguagem incompreensível, mas se ainda não fizeram a experiência, acreditem em mim, como dizia a canção: “há um pouco de Amália em cada um de nós.”
Mas de onde vem este modo de cantar, de tocar, de viver?
Em três palavras vos conto a sua história… é muito antiga,
tão antiga como o nosso povo… Desde as cantigas de amigo e de amor que os
trovadores inventaram, aos tristes cantos daqueles que partiam nas embarcações
à procura de novos mundos, que faziam coro com os daqueles que ficavam, mães e
amadas à espera de promessas… das influências dos ritmos afro-americanos que os
marinheiros beberam, às modinhas que animavam os típicos bairros alfacinhas,
das capas negras dos estudantes de Coimbra, aos pregões das peixeiras na
Ribeira… eis a nossa gente! Eis o seu modo de falar, o seu modo de cantar
quando não pode fazer mais nada… E canta tudo o que o coração humano pode
sentir e principalmente, canta a saudade! Sabem o que é? Este misterioso
sentimento que habita cada um de nós? Ah, a saudade, tão nossa, essa certeza de
poder voltar a casa sempre, sempre… essa esperança de uns braços abertos à
nossa espera… esse lugar cativo no coração daqueles que nos querem… A saudade…
E o FADO canta-a… Mas não só… O FADO critica, comenta, diverte, chora, ama,
reza…
Em cada FADO a fotografia de uma alma ou de um quarteirão português…
Mas a partir de hoje, o FADO não é só Português, não é só a canção
de Severa, Marceneiro, Amália, Carlos do Carmo, Mariza ou Ana Moura- é um
tesouro do mundo.
Um tesouro que fala de Portugal, da sua cultura, da sua língua, da sua gente.
Faço-vos o convite…deixem que o FADO vos conquiste!
A todos os que gostam de Fado... e aos que querem aprender a gostar

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Hino à Enfermeira

Porque
“Estava doente e vieste visitar-me” assim que soubeste, desprezando o teu descanso…
“Estava nu e vestiste-me…”
Estava sujo e lavaste-me…
Imobilizado e pegaste-me ao colo… A mim que não era teu filho…
Estava engasgado e socorreste-me…
Entupido e desobstruíste-me…
Dorido e massajaste-me…
Tolhido e mobilizaste-me…
Com fome e deste-me o comer à boca, que tu mesma cozinhaste…
Estava a sangrar e curaste-me a ferida…
Sozinho e acompanhaste-me…
Choroso e limpaste-me as lágrimas…
Com frio e aconchegaste-me…
Seco e deste-me de beber e aplicaste creme na minha pele que caía…
Cansado e preparaste-me a cama com lençóis lavados…
Com febre e arrefeceste-me…
Saturado e ficaste em silêncio…
Vazio e sorriste-me…
Perdido e rezaste por mim…
De luto e deixaste-me chorar no teu abraço… Sem querer encurtar os segundos…



A doença não passou logo. A mágoa permaneceu. Mas a tua presença afectuosa, que ofereceu mais do que serviços, encheu de sol os dias daquela tempestade de Verão.
Por tudo isso e pelo que não sei dizer…


Obrigada Enfermeira, por seres as mãos e o sorriso de Deus!



À minha querida Enfermeira de serviço... por tudo!


27/07/2011

sábado, 4 de dezembro de 2010

O que se esconde nas entrelinhas do Harrinson

PS- o tamanho deste post é proporcional ao sujeito que o motivou... Parabéns aos que o lerem até ao fim.


Este é um mito antigo. É com este Adamastor que se assustam os alunos recém-chegados ao curso de Medicina, que depois de percorridos seis anos, terão de defrontar. E fazemos Anatomia a pensar que é o cadeirão. Depois Farmacologia e achamos que esta é que é mesmo impossível de ultrapassar (como é que eu hei-de prescrever um medicamento, cujo nome nem sei pronunciar? Por exemplo: eptifibatide? Ah, e aquelas doses todas?!...) Depois é a gincana de Cirurgia, a oral de Medicina e então se for no serviço de Hepatologia, dói mesmo… E continuamos a sobreviver, contra todas as expectativas dos pessimistas do costume. Achamos todos que não chegamos ao fim do curso e da minha parte, repeti-o mais de 500 vezes… Vem o 6º ano, começa-se a vislumbrar a luz ao fundo do caminho… Mas o medo do Adamastor que se aproxima soma-se à tese que atrapalha ainda mais o já pouco sossegado estágio profissionalizante, o nome pomposo que agora dão ao último ano. Apesar de tudo, num abrir e fcechar de olhos, termina o curso. Agora sim, arregaçam-se as mangas e inicia-se a luta ombro a ombro, de olhos fixos nos do adversário… Chamam-no Harry, mas não tem nada da magia do Potter… Antes do o conhecer tinha ouvido as histórias mais assustadoras sobre ele… Grande, muito grande, pesado, mais de 9 kg de matéria, muitas, muitas páginas, no total 2754. Incompreensível, com raciocínios complexos, com números a mais e não há mnemónica que valha, com poucos esquemas e com poucas imagens. Com folhas fininhas e letras como as da Bíblia, tanto que já fazem versão A3 em fotocópias para não estragarmos os olhos. 1000 e tal recém-licenciados por todo o país, fecham-se em suas casas ou na biblioteca mais próxima a partir de Julho, mais ou menos por 4 meses seguindo o fado que alguns profetizaram: “aproveita bem o 6º ano, que depois vais deixar de viver, farás um parêntesis à tua vida!” Ainda para mais, porque é este “tesourinho deprimente”, como o ouvi chamar, a permitir a escolha da especialidade dos novos médicos, definindo em grande parte o futuro profissional dos candidatos. Assim, a luta contra o Adamastor quase se transforma na luta pela sobrevivência e na corrida às especialidades mais apetecidas. Deixa de ser um contra-relógio para ser uma corrida de velocidade. Este é o mito Harrison. Hoje é fácil falar dele porque acabou. Mas no fim de todo este caminho, digo com todas as letras que não passa de um mito. Pesa mais todo o contexto sócio-cultural que se construiu ao longo dos anos à volta deste exame e deste livro, do que propriamente o livro ou o exame. E são 9 Kg!...
O que realmente pesa é o tempo. O que realmente pesa, não é o livro ou o exame, são os dias. É que são muitos. Uns a seguir aos outros, todos iguais. Todos iguais. Só mudam as páginas do livro. Levantar às 7h com o sono de sempre ao som do schlack, schlack do Puma a beber água (o cão da Residência), chamar a vizinha de quarto, encher a alma e o estômago e Harrison intervalado pelo schlack, schlack do Puma. Reencher o estômago e a alma e… Harrison, com mais schlack, schlack do Puma. Reencher o estômago ao lanche e a alma e mais Harrison e o schlack, schlack do Puma a bater o ritmo. Jantar, coisas do coração e Harrison para embalar. Dormir rapidinho ao som do schlack do Puma (mas este cão muita água bebe, deve ter Diabetes insípido!...) e até aos sonhos o Harrinson vem espreitar. Um dia aguenta-se bem. 2,3, uma semana. Um mês… Mas depois cansa. Depois satura. Depois é a prova do tempo, que se vive contigo mesma. Não é um exame à tua memória (apesar de não saber se a LMA tem pior prognóstico se tiver a translocação (8,21)). À tua inteligência. Inclui isso, mas é essencialmente um exame à tua perseverança, à tua serenidade, à tua boa gestão do tempo e à tua hierarquia das coisas. Um exame à tua humildade também. Ali, metida entre o tratamento da hepatite aguda e as taquicardias, ali onde ninguém te vê nem saberá nunca se passaste aquelas linhas infindáveis à frente, ali é que se joga a tua honradez, a tua nobreza. A tua humildade. Pareces o esquilo da Residência, que semi-hibernou e sentes-te uma inútil, fechada todo o tempo e sem disposição interior para festejos ou convívios. É isso que dói. Não veres aplausos ou agradecimentos, não saberes sequer se isso que estudas te vai servir de alguma coisa, porque provavelmente no momento em que precisares dele já te terás esquecido. Não veres fruto. Cumpres a obrigação e calas. E como dizia alguém, cresces para dentro. Ou como dizia outro alguém, constróis a catedral. Assim, escondidinha, às vezes desesperada, com sono ou a chorar, continua-se, pois que lhe havemos de fazer? Mas a dor não é pelo Adamastor, ele coitado, continua inerte em cima do suporte de madeira que tive de usar para não estragar mais o pescoço… A dor é por mim mesma. Pelas minhas limitações. Pela minha ânsia de agora, de já, de aqui… Mas nada na Natureza nasceu grande. Tudo leva o seu tempo a crescer, a ficar maduro. E no fim das contas, estás a mudar o Mundo e não sabes! Deus, que nunca dorme, vela, vela e sorri, perante o teu cabelo desgrenhado pelo último capítulo… Dizem que Deus é simples… Já Lho disse: cada vez me custa mais a acreditar depois do que visitei estes meses… Mas quantas minhoquices nós temos cá dentro!... Autênticos labirintos de reacções a acontecer a cada instante, genes, proteínas, células, iões, enzimas… Uma sinfonia perfeita da qual somos maestros sem saber!... E ainda há quem ache que Deus não existe!... Então devo dizer que o acaso fez um autêntico milagre!...
Ainda assim o maior milagre parece-me mesmo o facto do Homem ter descoberto estas coisas todas… Contribuíram para o Harrison milhares de médicos e cientistas. Admiro estas pessoas… Algumas vezes me deu vontade de lhe chamar algum nome feio, mas nunca passei dos nomes que eles próprios inventaram para as coisas… É realmente extraordinário!... Nós somos uma maravilha, é o que vos digo, e com tanto mecanismozinho que pode correr mal, não estarmos todos doentes de alguma coisa é um milagre ainda maior!...
Enquanto estudava ia pensando nestas coisas todas… e nos doentes que têm aquelas doenças, cujos rostos disformes por elas tentava imaginar. E oferecia o estudo por esses, pelos médicos que as tratam, por aqueles que hei-de tratar… Sim, isto aliviava o peso do estudo. Por outro lado, no meio de tanta prosa árida, confesso-vos que encontrei poesia também, com a qual me ria às vezes em altas gargalhadas… Outras vezes tirava lições para a vida, desse livro da natureza que é o nosso corpo… Exemplos do primeiro são os nomes mais engraçados que encontrei para doenças (elas são tantas que começam a faltar os nomes banais): p. 1629- Síndrome das unhas amarelas (não é um verniz novo não, quem havia de dizer que derrame pleural, linfedema e unhas amarelas, podia ter alguma relação com bronquiectasias? É que ninguém se ia lembrar de associar isto!); Síndrome da plaqueta cinzenta (esta coitada, não cheguei a perceber porque é que fica com esta cor, mas lá que era cinza era); Síndrome da unha-rótula (bem, pensei eu, não me digam agora que as unhas e a rótula têm alguma coisa em comum?!.. E não é que tinham mesmo?...), doença da arranhadela de gato (mas que mal fazem os gatos?, só me faltava mais esta!... E não é que pode mesmo ser fatal!... Já me calo…)… Enfim… Mas não eram só os nomes engraçados, as descrições também faziam poesia: é a embolia pulmonar que dizem ser a “grande mascarada” e que me transportou logo para um baile de máscaras de Carnaval; “a sensação de pancada nas orelhas” da anemia aplásica, que não cheguei a conseguir imaginar o que é, apesar de me ter batido; o próprio autor que descreve a colescistite aguda como “irritante problema” e que me fez sentir solidária, porque a colecistite também me estava a irritar a mim, por acaso… Mas há outras lições… Cito: “Uma sequência ordenada de eventos induz alterações no glóbulo vermelho, por meio das quais, se acumula hemoglobina no citoplasma e se perde a capacidade de biossíntese e os organelos celulares. No fim, o eritrócito sofre um processo com características de apoptose e perda real do núcleo. No entanto, o resultado final é mais altruísta que suicida; o corpo citoplasmático, em vez de se desintegrar, passa a ser capaz de fornecer oxigénio a todas as células do organismo humano pelos 120 dias restantes da sua vida”. Digam lá que é ou não é um exemplo prático do morrer para si mesmo a fim de dar vida aos outros? E então aquela do pericárdio, a membrana que envolve o coração: há um grande parágrafo grande a explicar as suas importantíssimas funções, desde evitar a súbita expansão das câmaras cardíacas, manter a posição do coração, diminuir o atrito entre o coração e as estruturas adjacentes, impedir o deslocamento do coração e a torção dos grandes vasos, dificultar a disseminação das infecções dos pulmões, etc. Depois disto tudo, diz-se (p. 1488) “apesar dessas funções, a completa ausência do pericárdio, congénita ou causada por cirurgia, não causa doença”… É ou não é o exemplo prático da expressão, “só faz cá falta quem está”? Ao ler isto pensava que o pericárdio é como nós, somos úteis muitas vezes e fazemos coisas maravilhosas, Deus conta connosco e criou-nos com uma missão própria, mas somos ao mesmo tempo dispensáveis, Deus não precisa de nós nem o Mundo acabaria por nós não existirmos… Pena que nem todos saibam disso… E aquela outra lição (p. 635) a propósito da estrutura da hemoglobina, que tem 4 cadeias, 2 alfa e duas beta: “o tetrâmero da hemoglobina é altamente solúvel, porém cada cadeia individual é insolúvel. As cadeias não pareadas precipitam, formando-se inclusões que lesam as células. A síntese normal das cadeias é equilibrada, de modo que cada cadeia alfa ou beta recém-sintetizada apresenta sempre um par disponível para se emparelhar”. É ou não é o exemplo real daquela expressão “Quando Deus faz uma panela, faz sempre o testo para ela”, ou ainda, “Se tens vocação para te casares com alguém, descansa que essa pessoa tem vocação para se casar contigo!”… Pensar nisto, deu-me muito ânimo, realmente está tudo muito bem feito… ainda para mais, porque foi mesmo no meio de tanto Harrinson que a cadeia de hemoglobina para emparelhar com a minha apareceu!... Nada acontece por acaso!...
E termino com uma outra imagem que me ficou na cabeça… Aquela da pág. 1504 com a imagem das artérias ocluídas por placas de aterosclerose… Sabem que muitas vezes, quando esses agregados de colesterol semi-obstroem uma artéria e rompem, nem sempre a resposta dela é o entupimento definitivo. Muitas vezes, depois do trombo com plaquetas, vêm os mecanismos reparadores, removem a superfície do coágulo e com enzimas e macrófagos e fibroblastos, a lesão, esse montinho de gordura agora mais estável, é incorporado na própria parede da artéria, que constrói nova capa do lado luminal. Isto fez-me pensar que por vezes, o que nós temos que fazer com as alfinetadas dos outros é isto: integrá-las na nossa parede e desobstruir o lúmen para o sangue poder continuar a passar. Esquecer, acolher, tornar nosso o que até aí não era. Bem, só que isto não se faz sem dor… Por isso é que é bom acabar de ler essa página para perceber como é que se trata a angina até ao fim…
Contente por ter chegado ao fim de mais esta etapa. Mas essencialmente contente por a ter percorrido. Por ter caminhado. E por o ter feito assim, aos tropeções comigo mesmo, e com a ajuda indispensável, indispensável!, de tantos familiares, amigos e amigas, alguns encerrados como eu, outros nos mais variados contextos a recordarem-se constantemente desta cromita. Não sei mesmo agradecer, por isso, que Deus vos pague o bem que me fizeram e a ajuda no caminho. E desculpem tudo. Também o silêncio forçado, a aparente distância e as impaciências todas! E àqueles que se preparam para enfrentar o Adamastor, queria dizer: não tenham medo do que há-de vir, que é essencialmente mito. O Harrison pode tornar-se um bom amiguito. A vida é bem mais fácil do que estudar sobre ela e os doentes mais importantes que as doenças.
Como dizia o Torga, na vida o importante é partir, não é chegar. Hoje viro a página. É a 2755 da minha vida.


18 de Novembro de 2010, 18.20h

A todos os companheiros de hibernação

Hino aos dias normais


Bendita a normalidade dos dias normais.
A mesma hora para levantar…
O mesmo esforço de ontem para viver o primeiro minuto do dia heroicamente…
O mesmo olhar à Virgem, que velou toda a noite…
E a oração de joelhos, ainda meia a dormir…
A voz doce do outro lado do telefone: “Bom dia! Estou na vida à tua espera!”…
E sai-se para o Mundo.
O mesmo caminho.
A mesma Igreja. Os mesmos companheiros.
Os mesmos dejectos caninos no passeio da Alameda.
O mesmo galo que canta de hora a hora em frente à biblioteca.
Leite com café e canela. Às vezes sem leite. Pão com compota. Partido daquela forma. Com laranja e canela a acompanhar.
Ainda são só as primeiras horas do dia e já tudo é como ontem. Excepto o dia do calendário. E as páginas do livro de estudo. Felizmente, essas vão variando…
A mesma hora de almoço. A mesma Visita. O mesmo estudo de tarde.
E os dias parecem cópias. Até a sms diz algo muito semelhante a qualquer uma da véspera: “… … … 1 abracinho do tamanho do Mundo… até já…”
Termina-se o trabalho. E o já chega. Arranjo-me por fora e por dentro. Um pouco do mesmo perfume e da maquilhagem em frente à porta de espelho. Os mesmos cabelos desordenados, sem jeito. Um adeus na capela.
O mesmo abraço, terno, terno, intemporal, “sconvolgente”, avassalador!...
E as palavras são as mesmas. Não temos outras!...
O mesmo tempo que escorre. O mesmo fim de dia.
Os rituais e as rotinas são pertença, são identidade. Poupam-nos tempo, que é importante para tantas coisas!... Fazem parte desse património individual único e irrepetível. Sem eles não nos sentiríamos em casa.
Os dias iguais trazem-nos segurança, confiança, domínio. Fugir deles por medo do cansaço seria como dormir cada noite numa cama diferente para não estar quente da noite anterior… Mas que bom é sentir o perfume do nosso champô na almofada!...
Os dias normais são a escola e o palco das virtudes. É aí que nós mais nos revelamos, porque aí passamos a maior parte da vida e aí se prova a perseverança. Bendita normalidade, sem festas, sem extraordinaridades, sem outra música que a tranquila brisa dos segundos que passam a cada instante e nos pedem que os agarremos.
Os apaixonados são os que mais se repetem. Porque são os que vivem mais intensamente. Mas os gestos e as palavras são limitados. Por isso necessitam repeti-los. São os mesmos, mas sempre diferentes. Não há dois olhares iguais, nem dois sorrisos iguais, nem dois abraços iguais. Só há este, de agora. Deve ser por isso que não cansa. Porque tudo é presente.
E escondido nas malhas dos dias iguais, descobre-se a intemporalidade, que é o presente elevado a infinito.

21 de Outubro 2010

Aos que carregam o peso da normalidade e ainda não fazem poesia com ela...

As 25 lições que não se aprenderam nos livros...

Para brincar com o meu quarto de século, hoje gostava de te contar as 25 lições mais importantes que aprendi ao longo deste pedacito de vida já vivida. Obrigada por mas teres feito aprender!...

1- Podemos dar muitas voltas na vida, andar por muitos locais bonitos, conhecer muitas pessoas, fazer muitas experiências… mas onde nós voltamos sempre no final das nossas lutas e vitórias e derrotas, é à nossa casa, onde habitam os nossos, que nos recebem sempre de braços abertos como se não tivéssemos partido, sem fazer perguntas.
2- Por vezes, a distância faz-nos ver realidades que a proximidade não nos permitia. É como aperceber-se de que é ao elefante que pertence a pele que antes tocávamos de tão perto, só porque nos afastámos uns metros. A distância fortalece os laços, se se aprende a tirar partido dela.
3- “Não saberás quanto valho enquanto não puder ser junto de ti aquilo que sou”, li num livro uma vez. Se por vezes parece que é com os que nos estão mais próximos que nos zangamos mais, isso é só porque a confiança e o à-vontade é tanto, que até o nosso lado lunar lhes mostramos, o que tentamos esconder dos outros olhares. Por outro lado, podemos cair também no erro de achar que conhecemos tão bem os que nos estão mais próximos, que não os deixamos ser quem eles querem ser, de tal forma os metemos na imagem que fizemos deles. É muito importante construir o próprio espaço da liberdade interior, pois só assim é possível amar sem ter que ser e não temer os que nos rodeiam.
4- O melhor anti-depressivo? Um tiramissú!...
5- Não há idades para aprender. Também as avós conseguem aprender a dizer good morning, e os pais criam blogs e paginas no facebook… Os resultados são menos animadores nas mães que tentam criar um email, mas alguma coisa se consegue com alguma paciência.
6- Aquele lugar a que chamamos casa, onde nos sentimos mesmo, mesmo à-vontade e onde podemos andar de pantufas, não é necessariamente de paredes físicas, mas fica no coração daqueles que nos amam. E a saudade? A saudade é essa nostalgia del ritorno a casa, essa certeza de poder regressar sempre, porque quem ama, espera. Espera sempre.
7- Realmente há gente limitada… cada um dá para o que dá… Uns sabem lavar pernas às irmãs mais novas, outras consertam persianas, outros esforçam-se por pôr a televisão a dar outro canal que não o eurosport… enfim… E por falar em irmãs… também aprendi que se deve comprar sempre roupa que sabes que as tuas irmãs vão achar pirosa. Nunca te desaparecerá.
8- Um pequeno-almoço com qualidade de vida toma-se sentado e inclui um capuccino com canela, uma laranja às fatias com canela e uma torrada de pão de sementes com doce de abóbora e noz que a Mãe faz, com canela. Não, a canela não tem efeitos adversos para a saúde.
9- E o que se deve fazer quando a tristeza me invade? Cantar o fado! Sim, não há nada que não tenha remédio com uma boa cantoria…
10- Quando te chamarem louco, responde-lhes que foram os loucos que conseguiram as revoluções da História. E mais: aos que estão nos nossos altares também lhes chamavam assim… Põe a tua loucura ao serviço dos outros e … vivam os loucos!
11- A Medicina é o trabalho mais bonito do Mundo. O homem chega a cada estado… é incrível!... Nem nós imaginamos a capacidade do nosso corpo para sofrer e para curar-se… E no seu maior sofrimento, na sua miséria e limitação, o homem descobre que a sua grandeza não está no que pode fazer ou produzir, que é tão pouco, mas está no que é em si mesmo, ainda que ninguém o reconheça. A humildade de saber-se pouco (e ainda assim valer muito) e estar sempre necessitado dos outros é das maiores lições que a doença nos oferece.
12- Nada acontece por acaso (esta tem direitos de autor).
13- Não se deve viver acima das nossas possibilidades e é preciso saber viver no pouco e no muito e estar preparado para tempos de guerra (esta também tem direitos).
14- Uma mulher completa tem que saber fazer de tudo, também rapel… Esta lição ia-me custando as entranhas…
15- Sim, é possível tomar um bom banho com litro e meio de água! E pôr champô por duas vezes!...
16- Vale a pena sonhar alto… mesmo alto… É que mesmo assim, ficamos aquém daquilo que a vida pode ser…
17- Não peças sempre tempo livre ou mais horas de sono… tens tempo de descansar no Céu.
18- Cada um tem a vida que escolhe. As circunstâncias externas são importantes, mas para todas as pessoas, a liberdade pessoal tem a última palavra. E esta, agarrada à vontade e à inteligência, são o que determina a resposta que nós damos às circunstâncias externas e que determinam o sucesso ou a infelicidade da nossa vida. Há quem viva como se estivesse dependente de um destino cego, como se tivesse de viver desta ou daquela maneira. Mas cada caminhante traça o seu próprio caminho. Lembra-te que quando ofereces resistência à vacina, dói mais.
19- Somos todos o produto daqueles que nos amaram ou deixaram de o fazer. Quando vires uma pessoa que te parece má, não a julgues. Não foi bem amada. É que nem todos podem dizer “Fui mal amado, mas sei amar…”
20- Sim, Deus existe, eu encontrei-O e não preciso de outras provas da Sua existência que a minha própria vida. Sei quem era e sei em quem me tornei depois que Ele passou por mim. E este Deus não adormece. Se se faz esperar, é porque para Ele não há tempo e esquece-se que aqui na terra os minutos custam a passar, especialmente quando estamos a aguardar por algo muito desejado… E outras vezes se nos parece que demora é só porque nós não soubemos reconhecer a resposta, é que não era bem aquilo que esperávamos…
21- Podemos dar muitas coisas, caras, lindas, preciosas… e não darmos nada. O que as pessoas mais querem de nós e o que nós menos queremos e sabemos dar é o nosso tempo. Mas lembra-te: as pessoas podem perceber que não tens tempo, mas que não percebam que não tens coração.
22- Não devemos ter medo de chorar e de rir, de abraçar e de cantar até pela rua, se a isso nos apetecesse… Afinal o nosso Pai é dono disto tudo! Ah, e como ninguém manda em mim e eu faço o que eu quiser!… Just do it.
23- Há coisas que não se vêem se não pelos olhos que já choraram. Não deixes de aproveitar as lágrimas para lavar os olhos.
24- As coisas boas da vida são boas. Mesmo boas! Bendito seja Deus pelas batatas fritas do MacDonalds e pelos filmes que nos fazem chorar… Não há nada bom demais para ser verdade!
25- Ficamos para sempre responsáveis por aqueles a quem cativámos. E não precisamos de 360 contactos no Facebook cativáveis, basta-nos um coração que nos queira, intemporalmente.

Para o ano há mais…

24 de Setembro de 2010
A todos os que me ensinaram estas todas...