sábado, 27 de março de 2010

Desculpa

Deus vagueia pelo jardim. Pensa, sofre, chora. E caminha. Está triste (Ele, que é a alegria em pessoa!). Como um cãozinho que esconde o rabo entre as pernas, aproximo-me Dele por trás e em surdina pergunto: “Senhor, o que tens? Porque choras?” Deus vira-se de repente e fita-me com aqueles olhos penetrantes que nos metem a nu, doces e genuínos.
“Estou triste”, diz-me. “Triste, Senhor, mas porquê?”, pergunto apesar de imaginar a resposta.
“Foi a Eva. E o Adão. Não quiseram o que quis para eles. E agora estão assim, vês?...” E estendendo a mão, afasta uma nuvem que me impedia a visão e faz-me olhar para a Terra inteira. Não posso conter as lágrimas, porque o espectáculo é realmente desolador. E ao lado de Deus ajoelho-me assustada e triste. Conheço demasiado bem estas cenas, porque as vejo diariamente.
Mulheres sós, que choram. Homens sós, que gritam. Impaciências, discussões, falta de tempo, muita falta de tempo, cansaço, traições, egoísmos, invejas, palavras feias, gestos que doem, corpos usados, almas feridas. Crianças por amar. Pais que nunca foram crianças. Jovens perdidos que passam a vida a mexer-se, a dançar e a viajar, tal é a inquietação que os corrói… Adultos desiludidos que são miúdos grandes fartos de sofrer e de aguentar sozinhos, velhinhos deixados em qualquer canto rotulados de inúteis sobrecargas, doentes que não parecem pessoas, feios pela doença, despidos pelos homens.
Faz frio. Muito frio. E está tudo a meia-luz. E eu tremo. E choro. Por cada rosto triste que vejo. Raríssimas as caras serenas, as que exalam sorrisos, as que parecem felizes, as que vivem devagar. Correm todos tantos!...
Deus abraça-me com aqueles Seus braços paternos que não sentia há tanto tempo e segreda-me: “Não foi isto que pensei para vós. Para nós. Não era isto que eu sonhava. Estou triste, sim, porque vós estais tristes.” “Se soubessem o dom de Deus!… e aquilo que vos quereria dar!…”
“Que sonhavas, Senhor, que sonhavas? Onde é que errámos?” Deus aponta-me o homem. E a mulher. De costas um para o outro. Sozinhos. Vazios. E segreda-me que o problema começou na desconfiança. Que tinha sido destruída a relação primordial, a original, no seu mais íntimo. O homem e a mulher esqueceram-se de quem são, porque deixaram de se olhar. E deixaram de se olhar porque não suportavam a nova imagem que cada um deles tinha. Tinham perdido a imagem de Deus que cada um deles reflectia. Perderam a beleza original, a pureza primordial, a harmonia plena das suas potências, dos seus sentimentos. E feios, feios, muito feios, não se podiam olhar. Como perderam Deus, perderam-se a si. E os dois já não podiam ser aquela única carne, aquele “nós” que os faz plenos, que realiza a sua sede de comunhão, que sara o vazio de não encontrar “nenhum semelhante”. Já não eram semelhantes. Eram dois desconhecidos que desconheciam o caminho para casa. E não caminhavam mais lado a lado.
“Então, mas esta crise toda, começou aí, Senhor?”, perguntei eu ainda sem entender bem o alcance do problema.
No coração do Universo, no íntimo do pulsar da Criação está uma relação. A de Deus com a Humanidade. Imagem perfeita dessa era a do homem e da mulher. Estragou-se a segunda, porque se estragou a primeira. Mas a história não termina aqui.
Deus redimiu a primeira. É tão cara que custou o preço de um Deus. Mas assim, abriu as portas à segunda.
O amor do homem e da mulher precisa da Redenção. Estamos no beijo de Judas. Aproxima-se, porém, o Domingo glorioso da Ressurreição.
Haverá alguém que entenda esta linguagem, Senhor?
E enquanto me volta a abraçar ao Seu peito, ajoelhados sobre o Mundo, segreda-me que se alguns não entendem é porque não se ouviram o suficiente, já que o grito do “amor para sempre” explode em cada um desses rostos inquietos (“Eu sei o que é isso, Senhor, sei muito bem, também grita aqui dentro!...”).
O amor conjugal precisa de Páscoa.
Desculpa, Senhor, as Tuas lágrimas!

A todos os que procuram entender as próprias lágrimas

Lisboa, 27/03/2010

domingo, 7 de março de 2010

Parabéns Mulher!


Se tivesse que te dizer numa palavra, diria ternura.
Alegra-te, Mulher, porque se o Homem foi a última obra e o cume da Criação, tu foste o exagero da generosidade e da perfeição de Deus.
Vi-te, escondida, de joelhos a rezar. E nesse dia tinha discutido contigo.
Vi-te, em silêncio, ouvir palavras injustas ditas a ti, por aqueles a quem serves. Mais tarde disseste-me que isso não era aturar, era amar.
Vi-te acordar muitas, muitas vezes durante as noites, tão curtas para ti, para acudir à desorientação das velhinhas de casa, enquanto, no meu edredon, escondia a voz da consciência que me dizia que também eu me poderia ter levantado.
Vi-te levantar com as galinhas para preparar as refeições que eu levaria para os dias longe de casa, enquanto eu sonhava no meu sono não sei com quê.
Vi-te engolir em seco a lagrimazita que escorria ao canto do olho porque quem devia estar não estava. Nunca estava.
E nunca te ouvi uma palavra negativa contra ninguém. De casa ou fora de casa.
Vi-te emocionada até às lágrimas no dia em que consegui terminar aquele trabalho tão importante e tão bem cotado. E naquele outro em que ganhei o festival. E sinceramente, não percebi como se podia ficar tão feliz por algo que não nos pertencia.
Mais tarde entendi que tudo o que era meu te pertencia. Mais tarde percebi que é verdade o que diz a velhinha do Titanic: “o coração de uma mulher é como o oceano, não tem fim nem fundo, alberga muito segredos, muitas alegrias, muitas dores, que nunca ninguém poderá abarcar”. E percebi ainda que a vocação de qualquer Mulher, que o queira ser é esta: ser Mãe. Ser Mãe é não ter fronteiras no coração.
O Mundo está todo desarrumado. É como a nossa casa quando tu vais para fora. Falta-lhe a Mãe. Ao Mundo também lhe faltam Mães. Porque são as únicas que sabem realmente o que é… cuidar. A Mãe é aquela que cuida. Discreta. Serena. Sacrificada. Alegre. Elegante. Delicada. Magnânime. Senhora de si. Humilde. Nobre. Belíssima!
Não há nada como as mãos de uma Mãe! Bem, talvez o rosto. E o colo…
Obrigada Mulher! Obrigada Mãe!
Se há tanta gente fria e má, é porque nunca soube o que era ter uma Mãe. É por isso que não podemos parar.
Queridas amigas, Mulheres, Irmãs, Mães, que ao longo da vida se têm cruzado comigo, que me ensinaram o que é ser Mulher, ser Mãe, que me mostraram o caminho feliz de viver para servir, para cuidar, para dar a forma de lar a cada casa, o caminho feliz de aliviar as cargas dos que chegam, de mandar felizes os que partem, obrigada! Obrigada!
Não tenham medo. Da dor, da solidão, do sacrifício, da entrega, da fidelidade, do segundo plano. Porque a maior parte da vida passa-se nos bastidores. E para que o palco se mantenha aberto, não podem faltar as Mães.
Continuem assim, dignas, diferentes, porque Mulheres. O Mundo agradece. E eu também. Ambos precisamos de Mulheres sem medo de o serem. Não se esqueçam de quem são!
E é com o coração de joelhos diante da vossa grandeza que vos digo mais uma vez: muito obrigada!


À minha Mãe, às minhas Mães, às Mães de toda a gente, que mantêm no Mundo a lareira acesa

Acorda-me!


Dormi só 5 horas. Cheia de sono, com o cabelo enrodilhado por esta chuva que teima em não ir embora (só me consola o que diz a companheira de quarto, que o meu estilo é o penteado despenteado, que está na moda…), com frio porque mais uma vez me enganei na quantidade de roupa a vestir, ainda com o pequeno-almoço por tomar, chego ao hospital ofegante do passo apressado. Visto a bata, que devia ter trocado mas esqueci-me da lavada e subo as escadas até ao piso sempre demasiado alto, enquanto penso na inutilidade de ter elevadores se não se conseguem utilizar em tempo útil. E enquanto ensaio o sorriso que tenho de pôr antes de passar aquela porta, vejo se há mensagens no telemóvel e penso que hoje tenho mesmo de sair a horas, para ver se consigo estudar as horas que preciso durante a tarde.
Olha para a lista dos doentes. Três entradas. Ok, vai-me tocar um deles a mim. Lavo as mãos e lá vou eu procurar a senhora, chamemos-lhe Maria.
Vejo-a de alto a baixo, oiço-a por dentro, palpo-lhe o que devo, anoto tudo porque nunca confio na minha memória, muito menos a esta hora da manhã. A seguir vou procurar um esfigmomanómetro que funcione bem e tento trazê-lo através da gincana de macas pelo corredor…
Enquanto falo com a senhora Maria tento concentrar-me nela. Esquecer-me de tudo o resto. Do que tenho para fazer. Do telefonema que me esqueci de retribuir. Da inquietação que me ferve dentro. Da dor de estômago. Do sono. Do cheiro menos agradável que paira por todo o serviço. Da fealdade das doenças. Dos gemidos e gritos que se vão ouvindo. Agora estou para a senhora Maria. Mas é uma vida tão triste, tão complicada, tão vazia, tão solitária, que me apercebo de ser invadida por um sono que não me é totalmente estranho. Faz-me lembrar um outro, há já muitos anos, em que teimavam em cair aqueles que deviam acompanhar um Homem que sofria horrivelmente. O sono de não querer chorar. De não querer sofrer. De fugir da “com-passione”, da compaixão, e deixar o outro viver sozinho a sua paixão. Porquê?
Oh, porque dói. Porque entristece. Porque nos recorda a nossa própria miséria, o nosso próprio destino enquanto seres humanos, que passa necessariamente pela dor e pela morte. Bolas! Se já a nossa vida dói, porque é que hei-de sentir com os outros?... É nessa hora que chega o sono, uma espécie de narcótico para quem não quer estar totalmente consciente da dimensão da dor alheia. Porque isso significaria torná-la nossa.
Só nos esquecemos de um pormenor. É que permanecendo adormecidos, sim não sofremos, mas também não vivemos. Hibernamos, como a Turty lá de casa. E assim não somos homens, não somos nada mais que a Turty.
E no meio destas filosofias, vem-me acordar do meu sono cobarde a senhora Maria, que me aperta a mão firmemente. “Ó Menina Doutora, não me largue! Não me largue, não? As suas mãos são tão boas! Dão-me vida quando me tocam.”
“Dão-me vida quando me tocam.” “Dão-me vida quando me tocam…”, vou pensando enquanto me encaminho para a sala do médicos onde registo “vigil, consciente, desorientada temporal e espacialmente, discurso por vezes incoerente e inadequado”, que corresponde à avaliação realizada. Mas são estes doentes, que no meio da sua confusão e doença, nos vão dando estas bofetadas que nos acordam do sono em que queremos mergulhar, por estarmos cansados de ser homens.
Cátia, Cátia, não adormeças! E não guardes a vida das tuas mãos para ti.
Acordem-me se me virem dormitar, sim?

A todos os que não se deixam adormecer e aos que me acordam diariamente

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Já chega Senhor, já chega!...


Olho para ele e vejo um corpinho carcomido pela doença, pelos maus tratos e pela solidão e o grito me escapa da alma…
“Não hei-de beber o cálice que o Pai me deu?”
Ninguém se interessa realmente, porque este não é um caso para publicar… É só mais um velhinho de muita idade com mais uma pneumonia cuja lista de problemas tem 14 pontos…
“Já Te disse mulher que não O conheço”.
Ainda assim o maior deles não foi escrito. Ninguém investe muito, principalmente em relação, porque está escrito “frequentes períodos de confusão, pouco comunicativo e desorientado”.
“Se falei mal, mostra-me em quê, mas se falei bem, porque me bates?”
O maior problema? Medo.
Da parte de quem trata.
Tanto gemido, tanto sofrimento, tanto tanto… E ali sozinho, entre os panos amarelados que chamam a morte, com que se isolam os doentes “em estado crítico”…
“Não pudeste vigiar uma hora comigo?”
Vou lá espreitar e saio logo em seguida porque o trabalho urge. Alguém me lança um olhar que diz “Já foi? Se não foi está para ir…”
“Crucifica-O, crucifica-O!”
E tudo passa tão rápido… A dor passa tão rapidamente, e os gritos também…
Tudo se cala. O doente velhinho (que tem um nome mas não tem família que o queira), porque teve “alta celestial”, como costumam brincar…. E calam também aqueles que deveriam cuidar, porque “estas coisas acontecem”…
“E, inclinando a cabeça, expirou.”
Estas coisas são a vida e a morte. E dói muito. Dói muito. Porque é suposto, dizem, tratar as pessoas, não gostar delas. E eu não sei não gostar.
“Filho, eis aí a tua Mãe!”
Abre-se a terra na Madeira, com a força destruidora das águas… Vidas lavradas… Frutos de anos de vida arrastados pela lama…
“Mãe, eis aí o teu filho!”
Pescadores que desaparecem no azul enfurecido daquele que aprenderam a domar… E que nunca mais ninguém encontrou.
“Colocaram-Lhe uma coroa de espinhos e mandaram-nO flagelar.”
A Mãe que fica sozinha com 4 meninos, dois deles “Down”, porque o marido encontrou umas pernas mais bonitas, que lhe oferecem o que ele diz nunca ter tido.
“Aproximavam-se d’Ele e diziam: Salve ó Rei dos Judeus, e davam-Lhe bofetadas.”
Pais que choram no silêncio da noite não poderem dar mais “Nestum” aos filhinhos pequenos. Porque a crise os pôs na espiral dos “dispensados”.
“Tenho sede!”
Meninos que morrem porque nasceram no país errado.
“Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.”
Homens que desistem da vida.
“Não choreis por Mim, chorai antes por vós, porque se fazem isto ao lenho verde, que farão ao seco?”
Porque com a morte tudo se cala.
“Na verdade, este Homem era justo.”
Já chega, Senhor, já chega!...
“Deus amou tanto o Mundo, que lhe deu o Seu Filho Unigénito…”
Calo-me. Porque para Ti, Senhor, nunca chega.
Sabes a conta a cada lágrima vertida por cada homem (e minhas tens umas quantas!), porque Tu mesmo as choraste.
A todos os que choram sozinhos

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Bom demais para ser verdade

Há tempos dei por mim a olhar para um quadro tão bonito, tão bonito, tão perfeitinho, que me fez exclamar: “Até parece real!” Uns dias mais tarde, dei por mim lá para os lados do Caramulo e diante do êxtase da paisagem que me rodeava, saiu-me o grito: “Ena, é tão perfeito que parece pintado!”… E lembrando-me do primeiro dia, sorri… Afinal, a cópia pode ser melhor que o original? Onde é que está a beleza maior, a perfeição mais perfeita, o toque final de artista? Se o artista é capaz de fazer as correcções à paisagem que tem diante para que saia na pintura como a idealiza, não é porque já o viu em qualquer lado? Só reproduz a perfeição quem já a viu. A viu com os olhos, com os ouvidos, com as mãos, com a boca… Nós não criamos. Absorvemos, misturamos e reproduzimos a mistura que a realidade captada por nós faz nascer. É por isso que nos vamos reconhecendo nas “criações” dos artistas que caminham ao nosso lado. Contêm também partes de nós.
Mas esta conversa toda era só para te fazer uma pergunta… É possível sonhar com algo que não existe? É possível desejar algo que esteja fora do perímetro do possível? São os nossos sonhos maiores que a própria vida, com toda a liberdade e vontade que ela transporta? São os nossos sonhos mais bonitos e grandes que os de Deus?
Acontece-me muitas vezes aquilo que Pessoa dizia de si mesmo: “tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.”
Talvez todos possamos dizer isto… Seja como for, tenho a sensação de que quase sempre, os meus sonhos me passam a perna… Que não cabem cá dentro… E há uma ânsia de ser mais, de chegar mais longe, de pertencer mais, de me abandonar mais, de me despir mais, de me libertar das defesas todas e dos medos e das vergonhas… e chegar a casa... que…
Onde é que tu andas, meu amigo? Onde é que tu andas, que não te encontro? Vejo-te e não sei se é a realidade bem pintada, se sonho realizado… Vejo-te, acordada ou a dormir, e tenho a sensação de passar o dia a falar contigo, de caminhar contigo, de me rir e chorar e trabalhar ao teu lado. Sei que tenho uma imaginação fértil e que tudo isto pode ser um quadro bem pintado… Mas será possível que eu possa querer-te já tanto e tu não existires? Será possível que ninguém saiba a letra da melodia que compus? Será possível que tenha de guardar para mim a vida que explode em mim? Será possível que aquilo que “crio” no meu pensamento seja menos possível do que aquilo que Deus cria no Seu? Será possível que ande tão distraída?
Há uma canção italiana que diz: “se eu não te conhecesse e tu chegasses agora de improviso, enquanto estou aqui a não fazer nada, sentado à beira do caminho… se eu não te conhecesse, dizia eu, e não tivesse nunca dito “amo-te” a ninguém, por medo ou por vergonha, ou simplesmente porque… não existe…” Etc, etc… Falou-me especialmente, quando a ouvi a primeira vez, pela última frase. Assusta. Assusta-me pensar no que me podem fazer o medo e a vergonha. São dois diabinhos pequenos estes, mas com a capacidade de deitar por terra o melhor dos propósitos, a melhor das metas, o mais lindo dos sonhos. Asfixiam. E sujam o meu desenho. Aquele que fizemos todos quando éramos mais novos, enquanto a mãe nos tentava calar pedindo-nos que desenhássemos os nossos sonhos… Depois, à medida que os anos avançavam fomos retocando a pintura, que ainda está por terminar. Acho mesmo que o ponto final só será posto por quem vier depois de nós, que nessa altura conhecerá a obra que completámos. Infelizmente nós só lhe vemos as costas…
Como se faz para perder o medo dos desejos?
Há depois uma outra canção, mais conhecida, cujo refrão diz qualquer coisa deste estilo: “Sou um sortudo por estar apaixonado (a) pela minha melhor amiga (o), sortudo por ter estado onde estive, sortudo por regressar a casa de novo…” Para mim, impressionante! O que é um amigo? O que é um melhor amigo? Quem é este ombro, este braço direito e o esquerdo também? Este que sabe que gostas de começar as canções em ré e que pões canela no café? Este que te chama quando precisa de outro olhar, este que te areja a alma e te faz sorrir quando está a chover? Esse que caminha contigo até casa, essa casa que é o coração de Deus, que te deu a ele e ele a ti, para que fossem irmãos, não pela biologia, mas por vontade própria. Por um acto de liberdade. É por isso que nós só somos realmente irmãos dos nossos irmãos de sangue, quando o fossemos mesmo que não tivéssemos o sangue em comum, isto é quando os amamos porque queremos e não porque são irmãos. E que maravilha poder partilhar a vida com o teu melhor amigo, que é também irmão e que morreria por ti, porque assim o decidiu. Que maravilha poder chamar esposo àquele que foi e será sempre o teu maior amigo!... Que maravilha poder amar assim, não tendo nada a perder, porque se entregou já tudo… Que maravilha esta, de chegar ao conhecimento tão grande do outro, que são os dois uma só alma, uma só carne!... Que maravilha perder o medo de se abandonar, de se deixar cuidar, de perder o controlo!...

Só o amor abre certas portas. A da confiança, por exemplo, que dá acesso ao pudor, esse guarda da intimidade que a protege dos curiosos. Tu escondes-te de quem queres e mostras-te a quem queres. Essa é a grandeza do dom: dar-se a quem se escolheu. E receber porque se foi escolhido. Porquê? Já dizia Pascal que o coração tem razões que a razão desconhece… Não sei. Não sei. É um mistério. Como aliás as coisas mais belas da vida. Não quero perceber. Mas queria tanto encontrar!... Assim, pelo menos calaria o diabinho que todos os dias me segreda que este sonho, o sonho do amor para sempre, é bom demais para ser verdade!
Eu bem lhe digo que precisamente por ser bom é que é verdade, mas ele não me ouve. Alguém quer tentar convencê-lo?


A todas(os) as (os) que se deixaram convencer pelo diabinho

O nosso Fado


Faz-se silêncio.

Ouve-se a respiração funda do artista, que fecha os olhos para ver o acorde. De porte imponente como quem tem algo solene a declarar, a guitarra solta a corda e o milagre acontece.


Só é possível ouvir a canção, qualquer canção, se se estiver em silêncio, se se esvaziar dos ruídos habituais dos nossos dias stressantes, se se deixar ir à deriva, embalados pela música, como no berço o bebé.
Para se entrar no mistério que a canção esconde não se pode ter medo de deixar assomar à janela da alma as emoções, as dores, as alegrias, as lágrimas, os sonhos que trazemos dentro. Não se pode ter medo de perder o controlo. Quantos de vós já perderam o controlo diante da Beleza? Habitualmente não deixamos. Ficamos impermeáveis, não nos despimos, não choramos. Temos medo de nos abandonar. Aos outros, ao Outro Infinito, à música, à beleza… porque queremos ser donos de nós e só a ideia de se deixar possuir por algo que não dominamos totalmente deixa-nos aterrorizados.
A vós que me ouvis queria dizer: deixem-se levar, não temam ficar despidos diante da vossa humanidade, deixem que a beleza irrompa pela vida adentro!
O Fado é uma parte dela, dessa Beleza antiga e sempre nova que compete a cada Homem encontrar. Esta é a nossa vida. Digamo-lo de outra forma: não sentem de vez em quando uma vontade imensa de fugir e voltar para casa, essa casa que fica não sei onde, mas que terá de certeza um Pai e uma Mãe e uma lareira acesa? Essa casa onde é sempre festa e onde há sempre dois braços abertos à vossa espera?
Ah saudade, nostalgia do regresso a casa que tem nome de lar…

Esta é a nossa vida. Peregrinos.
Este é o nosso Fado.
E ninguém diga que não gosta de Fado. Porque isso seria dizer que não gosta de ser Homem. Ou então… nunca parou realmente para fazer silêncio.
A todos os que cantam comigo, especialmente à minha irmã quase fadista não fosse a guitarra

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Vamos ao presépio?




Meu amigo…
No meio da correria habitual, parei o relógio, que me deitou um daqueles olhares de lado, como quem não gosta que o governem, e ajoelhei.
Este tempo, que é sagrado porque emprestado, é para ti.



É quase dia de Natal e tenho (porque assim o coração me obriga) de te dizer que és importante.
És importante para mim (e obrigada pela tua contribuição na obra que eu sou, não te sabia pedreiro!) e com certeza para muitos outros amigos que só não te dizem que gostam de ti por vergonha (que é piroso, dizem. Sim, sou pirosa!). Mas isso é o menos.
Valerias pouco se o teu valor fosse ser importante para mim…



Há muitos muitos anos atrás, Alguém (louco como nunca houve outro igual…) decidiu fazer um presépio.
E preparou tudo com muito carinho. Cada pedra, cada floco de neve, cada personagem. As do capítulo presente, as do epílogo, as do prólogo… Todas!...
Nenhum pormenor foi deixado perdido.
E tu, caro amigo, ainda que não tenhas estudado as tuas falas (que tu próprio escreves), também fazes parte da história. Desta História humana que é a melhor novela alguma vez vista (e a concorrência é grande!)… Também há traições, ciúmes, invejas, pais que matam filhos e filhos que matam pais... Há personagens que parecem fora do baralho, por serem demasiado cruéis ou demasiado luminosas…
Mas a história não pára… Tem de chegar ao fim! E não queres estar lá para o aplauso final, quando subirmos todos ao palco para fazer a vénia?



Caro amigo, se tens valor?! Mas todo o valor!!! Não acreditarias se te contasse este segredo: é que sabes, foi para ti que esta história foi feita, a pensar em ti!


Não, não és a personagem principal, mas és um dos protagonistas e co-autor...


Não fiques ciumento, porque a principal é um bebezinho.
Esse tal que viveu no presépio uns tempos. E que foi morto. E que está vivo. E que é Deus. De sobrenome Jesus.
Se és importante?! Digo-te de outra forma: ainda que só existisses tu, toda a história teria sido escrita e haveria Natal igualmente!...
E eu, meu amigo, com o calor da lareira nos pés gelados, o cheirinho a rabanadas e a música da época, coloco-te a meu lado no presépio cá de casa... Podes ser aquele menino que vence o frio da noite para chegar à gruta iluminada. E eu serei a ovelhinha fiel que nunca o larga.
Viste como Maria sorriu, S. José aprovou e até Jesus parou de chorar?






Natal 2009


A toda a família, amigos e amigas, companheiros de voo e Lda, com os votos de um Natal muito feliz!