Cada vida é uma viagem. Com uma rota que a liberdade de cada um dirige. Cada vida é um mistério. Com 100.000 páginas que poderiam dar um livro. Vale a pena folheá-lo. Vale a pena surpreender os horizontes. Sente-te convidado para este encontro de asas! Vamo-nos vendo por aí! Bons voos!
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
À sombra do carvalho
Laboratório de emoções
domingo, 27 de julho de 2014
Era uma vez uma casa
Era uma vez uma casa. Tinha
paredes, tinha telhado. As paredes tinham várias janelas, de vários tamanhos,
viradas para o sol nalguma hora do dia. Ao telhado podia-se chegar por dentro,
através da claraboia do sótão, um espaço amplo, forrado de madeira que ainda
cheirava a pinheiro. No resto da casa cheirava à lareira acesa da sala dos
sofás, onde as pessoas ao fim do dia se aconchegavam em mantas e pantufas e
conversavam. Cheirava a castanhas assadas no Outono, a rabanadas pelo Natal, a
flores frescas na Páscoa e a rosmaninho pelo S. João. Tinha varandas onde pendiam
floreiras verdes com petúnias e sardinheiras, vermelhas, amarelas e cor de
laranja. Tinha uma entrada ampla, com uma grande porta amarela onde se chegava
depois de um pequeno trajeto em ladrilho que atravessava a relva. Lá dentro
havia muitas fotografias espalhadas por todas as paredes dos corredores, dos
quartos, da sala dos sofás… Fotografias de muitos lugares, de muitas pessoas
diferentes, com tons de pele diferentes, com cabelos e chapéus diferentes, com
sorrisos diferentes mas parecidos… Crianças, velhinhos, adultos, famílias
inteiras… Quem entrava naquela casa, ficava com a sensação de fazer uma viagem
pelo mundo todo!... Aquela casa guardava muitas imagens bonitas, de muitas
paisagens bonitas, que a maior parte das pessoas nunca verão pessoalmente, por
não terem tido essa oportunidade ou essa coragem. E para além das imagens, das
cores e dos cheiros bons, aquela casa tinha qualquer coisa mais, de
maravilhoso, de precioso, que é difícil pôr por palavras… Não sei se era das
gargalhadas que se ouviam ou do tagarelar de quem lá vivia, da roda viva do
quotidiano ou do silêncio ao olhar para a lenha a queimar… Não sei… Mas sei que
ali o espaço existia. Ali, o tempo existia. Havia passado, passados- muitas muitas
memórias-, presente, presentes -uns mais inesperados do que outros-, futuro,
futuros –muitos muitos sonhos-… Havia tempo e havia espaço. Havia pessoas com
tempo e com espaço. Havia espaço para abraços, por exemplo, daqueles largos,
envolventes, que parece que nos cobrem como cobertores… Espaço para passos de
dança toscos e improvisados ao som da guitarra tosca que improvisava,
acompanhada de uma voz brincalhona que improvisava. Espaço para corridas nos
corredores, a pé, ao pé coxinho, às cavalitas… Espaço para fingir que se é o
monstro das bolachas que vai comer quem não se esconder… Espaços em branco
também, à espera de serem pintados por algum artista com inspiração de momento…
Espaço para sentar no chão e ler até de madrugada… E havia tempo. Tempo para
ouvir e chorar, tempo para falar e sonhar, tempo para se agarrar à barriga que
doía de tanto rir, tempo para cozinhar com tempo, tempo para pensar, tempo para
sentir, tempo para apreciar os cheiros, os sabores, os sons, as vidas que
habitavam aquela casa. E havia ali um enorme respeito, veneração mesmo, pelo
tempo que já passara. E um enorme entusiasmo, ganas mesmo, pelo tempo que havia
de vir… A descoberta do Ré menor
Ao Pedrinho
sábado, 19 de julho de 2014
Casa
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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Voltar a casa
O Pai. A Mãe. Os meus olhos azuis. O meu ursinho de peluche (não gozem, deram-me quando eu tinha 5 anos e viu-me crescer!...). A minha irmã. A minha camisola rosa. O meu Deus. A minha viola. O Harrinson (é uma piadinha, ãh?). Os meus amigos. O meu país. A última palavra ainda não vai ser esta não. Porque me falta dizer… é bom estar em casa! É muito bom ir e voltar, chegar e partir e continuar em casa. Por isso, a todos que fazem parte da minha casa alargada, dirijo as últimas palavras: Vale a pena! Obrigada. Muito obrigada. E a todos… Feliz Natal!
A todas as alamitas e suas famílias
Estranha forma de vida

Há quem o não suporte…
Há quem apenas o tolere…
Há quem não desgoste…
Para alguns uma forma de vida…
Para os outros bem estranha por sinal…
Mas para todos, o FADO é, a partir de agora, da Humanidade, Património imaterial.
Para muitos continua a ser uma linguagem incompreensível, mas se ainda não fizeram a experiência, acreditem em mim, como dizia a canção: “há um pouco de Amália em cada um de nós.”
Mas de onde vem este modo de cantar, de tocar, de viver?
Em três palavras vos conto a sua história… é muito antiga,
tão antiga como o nosso povo… Desde as cantigas de amigo e de amor que os
trovadores inventaram, aos tristes cantos daqueles que partiam nas embarcações
à procura de novos mundos, que faziam coro com os daqueles que ficavam, mães e
amadas à espera de promessas… das influências dos ritmos afro-americanos que os
marinheiros beberam, às modinhas que animavam os típicos bairros alfacinhas,
das capas negras dos estudantes de Coimbra, aos pregões das peixeiras na
Ribeira… eis a nossa gente! Eis o seu modo de falar, o seu modo de cantar
quando não pode fazer mais nada… E canta tudo o que o coração humano pode
sentir e principalmente, canta a saudade! Sabem o que é? Este misterioso
sentimento que habita cada um de nós? Ah, a saudade, tão nossa, essa certeza de
poder voltar a casa sempre, sempre… essa esperança de uns braços abertos à
nossa espera… esse lugar cativo no coração daqueles que nos querem… A saudade…
E o FADO canta-a… Mas não só… O FADO critica, comenta, diverte, chora, ama,
reza…
Em cada FADO a fotografia de uma alma ou de um quarteirão português…
de Severa, Marceneiro, Amália, Carlos do Carmo, Mariza ou Ana Moura- é um
tesouro do mundo.
Faço-vos o convite…deixem que o FADO vos conquiste!
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Hino à Enfermeira
Porque“Estava doente e vieste visitar-me” assim que soubeste, desprezando o teu descanso…
“Estava nu e vestiste-me…”
Estava sujo e lavaste-me…
Imobilizado e pegaste-me ao colo… A mim que não era teu filho…
Estava engasgado e socorreste-me…
Entupido e desobstruíste-me…
Dorido e massajaste-me…
Tolhido e mobilizaste-me…
Com fome e deste-me o comer à boca, que tu mesma cozinhaste…
Estava a sangrar e curaste-me a ferida…
Sozinho e acompanhaste-me…
Choroso e limpaste-me as lágrimas…
Com frio e aconchegaste-me…
Seco e deste-me de beber e aplicaste creme na minha pele que caía…
Cansado e preparaste-me a cama com lençóis lavados…
Com febre e arrefeceste-me…
Saturado e ficaste em silêncio…
Vazio e sorriste-me…
Perdido e rezaste por mim…
De luto e deixaste-me chorar no teu abraço… Sem querer encurtar os segundos…
A doença não passou logo. A mágoa permaneceu. Mas a tua presença afectuosa, que ofereceu mais do que serviços, encheu de sol os dias daquela tempestade de Verão.
Por tudo isso e pelo que não sei dizer…
sábado, 4 de dezembro de 2010
O que se esconde nas entrelinhas do Harrinson
PS- o tamanho deste post é proporcional ao sujeito que o motivou... Parabéns aos que o lerem até ao fim.
Este é um mito antigo. É com este Adamastor que se assustam os alunos recém-chegados ao curso de Medicina, que depois de percorridos seis anos, terão de defrontar. E fazemos Anatomia a pensar que é o cadeirão. D
epois Farmacologia e achamos que esta é que é mesmo impossível de ultrapassar (como é que eu hei-de prescrever um medicamento, cujo nome nem sei pronunciar? Por exemplo: eptifibatide? Ah, e aquelas doses todas?!...) Depois é a gincana de Cirurgia, a oral de Medicina e então se for no serviço de Hepatologia, dói mesmo… E continuamos a sobreviver, contra todas as expectativas dos pessimistas do costume. Achamos todos que não chegamos ao fim do curso e da minha parte, repeti-o mais de 500 vezes… Vem o 6º ano, começa-se a vislumbrar a luz ao fundo do caminho… Mas o medo do Adamastor que se aproxima soma-se à tese que atrapalha ainda mais o já pouco sossegado estágio profissionalizante, o nome pomposo que agora dão ao último ano. Apesar de tudo, num abrir e fcechar de olhos, termina o curso. Agora sim, arregaçam-se as mangas e inicia-se a luta ombro a ombro, de olhos fixos nos do adversário… Chamam-no Harry, mas não tem nada da magia do Potter… Antes do o conhecer tinha ouvido as histórias mais assustadoras sobre ele… Grande, muito grande, pesado, mais de 9 kg de matéria, muitas, muitas páginas, no total 2754. Incompreensível, com raciocínios complexos, com números a mais e não há mnemónica que valha, com poucos esquemas e com poucas imagens. Com folhas fininhas e letras como as da Bíblia, tanto que já fazem versão A3 em fotocópias para não estragarmos os olhos. 1000 e tal recém-licenciados por todo o país, fecham-se em suas casas ou na biblioteca mais próxima a partir de Julho, mais ou menos por 4 meses seguindo o fado que alguns profetizaram: “aproveita bem o 6º ano, que depois vais deixar de viver, farás um parêntesis à tua vida!” Ainda para mais, porque é este “tesourinho deprimente”, como o ouvi chamar, a permitir a escolha da especialidade dos novos médicos, definindo em grande parte o futuro profissional dos candidatos. Assim, a luta contra o Adamastor quase se transforma na luta pela sobrevivência e na corrida às especialidades mais apetecidas. Deixa de ser um contra-relógio para ser uma corrida de velocidade. Este é o mito Harrison. Hoje é fácil falar dele porque acabou. Mas no fim de todo este caminho, digo com todas as letras que não passa de um mito. Pesa mais todo o contexto sócio-cultural que se construiu ao longo dos anos à volta deste exame e deste livro, do que propriamente o livro ou o exame. E são 9 Kg!...
O que realmente pesa é o tempo. O que realmente pesa, não é o livro ou o exame, são os dias. É que são muitos. Uns a seguir aos outros, todos iguais. Todos iguais. Só mudam as páginas do livro. Levantar às 7h com o sono de sempre ao som do schlack, schlack do Puma a beber água (o cão da Residência), chamar a vizinha de quarto, encher a alma e o estômago e Harrison intervalado pelo schlack, schlack do Puma. Reencher o estômago e a alma e… Harrison, com mais schlack, schlack do Puma. Reencher o estômago ao lanche e a alma e mais Harrison e o schlack, schlack do Puma a bater o ritmo. Jantar, coisas do coração e Harrison para embalar. Dormir rapidinho ao som do schlack do Puma (mas este cão muita água bebe, deve ter Diabetes insípido!...) e até aos sonhos o Harrinson vem espreitar. Um dia aguenta-se bem. 2,3, uma semana. Um mês… Mas depois cansa. Depois satura. Depois é a prova do tempo, que se vive contigo mesma. Não é um exame à tua memória (apesar de não saber se a LMA tem pior prognóstico se tiver a translocação (8,21)). À tua inteligência. Inclui isso, mas é essencialmente um exame à tua perseverança, à tua serenidade, à tua boa gestão do tempo e à tua hierarquia das coisas. Um exame à tua humildade também. Ali, metida entre o tratamento da hepatite aguda e as taquicardias, ali onde ninguém te vê nem saberá nunca se passaste aquelas linhas infindáveis à frente, ali é que se joga a tua honradez, a tua nobreza. A tua humildade. Pareces o esquilo da Residência, que semi-hibernou e sentes-te uma inútil, fechada todo o tempo e sem disposição interior para festejos ou convívios. É isso que dói. Não veres aplausos ou agradecimentos, não saberes sequer se isso que estudas te vai servir de alguma coisa, porque provavelmente no momento em que precisares dele já te terás esquecido. Não veres fruto. Cumpres a obrigação e calas. E como dizia alguém, cresces para dentro. Ou como dizia outro alguém, constróis a catedral. Assim, escondidinha, às vezes desesperada, com sono ou a chorar, continua-se, pois que lhe havemos de fazer? Mas a dor não é pelo Adamastor, ele coitado, continua inerte em cima do suporte de madeira que tive de usar para não estragar mais o pescoço… A dor é por mim mesma. Pelas minhas limitações. Pela minha ânsia de agora, de já, de aqui… Mas nada na Natureza nasceu grande. Tudo leva o seu tempo a crescer, a ficar maduro. E no fim das contas, estás a mudar o Mundo e não sabes! Deus, que nunca dorme, vela, vela e sorri, perante o teu cabelo desgrenhado pelo último capítulo… Dizem que Deus é simples… Já Lho disse: cada vez me custa mais a acreditar depois do que visitei estes meses… Mas quantas minhoquices nós temos cá dentro!... Autênticos labirintos de reacções a acontecer a cada instante, genes, proteínas, células, iões, enzimas… Uma sinfonia perfeita da qual somos maestros sem saber!... E ainda há quem ache que Deus não existe!... Então devo dizer que o acaso fez um autêntico milagre!...
Ainda assim o maior milagre parece-me mesmo o facto do Homem ter descoberto estas coisas todas… Contribuíram para o Harrison milhares de médicos e cientistas. Admiro estas pessoas… Algumas vezes me deu vontade de lhe chamar algum nome feio, mas nunca passei dos nomes que eles próprios inventaram para as coisas… É realmente extraordinário!... Nós somos uma maravilha, é o que vos digo, e com tanto mecanismozinho que pode correr mal, não estarmos todos doentes de alguma coisa é um milagre ainda maior!...
Enquanto estudava ia pensando nestas coisas todas… e nos doentes que têm aquelas doenças, cujos rostos disformes por elas tentava imaginar. E oferecia o estudo por esses, pelos médicos que as tratam, por aqueles que hei-de tratar… Sim, isto aliviava o peso do estudo. Por outro lado, no meio de tanta prosa árida, confesso-vos que encontrei poesia também, com a qual me ria às vezes em altas gargalhadas… Outras vezes tirava lições para a vida, desse livro da natureza que é o nosso corpo… Exemplos do primeiro são os nomes mais engraçados que encontrei para doenças (elas são tantas que começam a faltar os nomes banais): p. 1629- Síndrome das unhas amarelas (não é um verniz novo não, quem havia de dizer que derrame pleural, linfedema e unhas amarelas, podia ter alguma relação com bronquiectasias? É que ninguém se ia lembrar de associar isto!); Síndrome da plaqueta cinzenta (esta coitada, não cheguei a perceber porque é que fica com esta cor, mas lá que era cinza era); Síndrome da unha-rótula (bem, pensei eu, não me digam agora que as unhas e a rótula têm alguma coisa em comum?!.. E não é que tinham mesmo?...), doença da arranhadela de gato (mas que mal fazem os gatos?, só me faltava mais esta!... E não é que pode mesmo ser fatal!... Já me calo…)… Enfim… Mas não eram só os nomes engraçados, as descrições também faziam poesia: é a embolia pulmonar que dizem ser a “grande mascarada” e que me transportou logo para um baile de máscaras de Carnaval; “a sensação de pancada nas orelhas” da anemia aplásica, que não cheguei a conseguir imaginar o que é, apesar de me ter batido; o próprio autor que descreve a colescistite aguda como “irritante problema” e que me fez sentir solidária, porque a colecistite também me estava a irritar a mim, por acaso… Mas há outras lições… Cito: “Uma sequência ordenada de eventos induz alterações no glóbulo vermelho, por meio das quais, se acumula hemoglobina no citoplasma e se perde a capacidade de biossíntese e os organelos celulares. No fim, o eritrócito sofre um processo com características de apoptose e perda real do núcleo. No entanto, o resultado final é mais altruísta que suicida; o corpo citoplasmático, em vez de se desintegrar, passa a ser capaz de fornecer oxigénio a todas as células do organismo humano pelos 120 dias restantes da sua vida”. Digam lá que é ou não é um exemplo prático do morrer para si mesmo a fim de dar vida aos outros? E então aquela do pericárdio, a membrana que envolve o coração: há um grande parágrafo grande a explicar as suas importantíssimas funções, desde evitar a súbita expansão das câmaras cardíacas, manter a posição do coração, diminuir o atrito entre o coração e as estruturas adjacentes, impedir o deslocamento do coração e a torção dos grandes vasos, dificultar a disseminação das infecções dos pulmões, etc. Depois disto tudo, diz-se (p. 1488) “apesar dessas funções, a completa ausência do pericárdio, congénita ou causada por cirurgia, não causa doença”… É ou não é o exemplo prático da expressão, “só faz cá falta quem está”? Ao ler isto pensava que o pericárdio é como nós, somos úteis muitas vezes e fazemos coisas maravilhosas, Deus conta connosco e criou-nos com uma missão própria, mas somos ao mesmo tempo dispensáveis, Deus não precisa de nós nem o Mundo acabaria por nós não existirmos… Pena que nem todos saibam disso… E aquela outra lição (p. 635) a propósito da estrutura da hemoglobina, que tem 4 cadeias, 2 alfa e duas beta: “o tetrâmero da hemoglobina é altamente solúvel, porém cada cadeia individual é insolúvel. As cadeias não pareadas precipitam, formando-se inclusões que lesam as células. A síntese normal das cadeias é equilibrada, de modo que cada cadeia alfa ou beta recém-sintetizada apresenta sempre um par disponível para se emparelhar”. É ou não é o exemplo real daquela expressão “Quando Deus faz uma panela, faz sempre o testo para ela”, ou ainda, “Se tens vocação para te casares com alguém, descansa que essa pessoa tem vocação para se casar contigo!”… Pensar nisto, deu-me muito ânimo, realmente está tudo muito bem feito… ainda para mais, porque foi mesmo no meio de tanto Harrinson que a cadeia de hemoglobina para emparelhar com a minha apareceu!... Nada acontece por acaso!...
E termino com uma outra imagem que me ficou na cabeça… Aquela da pág. 1504 com a imagem das artérias ocluídas por placas de aterosclerose… Sabem que muitas vezes, quando esses agregados de colesterol semi-obstroem uma artéria e rompem, nem sempre a resposta dela é o entupimento definitivo. Muitas vezes, depois do trombo com plaquetas, vêm os mecanismos reparadores, removem a superfície do coágulo e com enzimas e macrófagos e fibroblastos, a lesão, esse montinho de gordura agora mais estável, é incorporado na própria parede da artéria, que constrói nova capa do lado luminal. Isto fez-me pensar que por vezes, o que nós temos que fazer com as alfinetadas dos outros é isto: integrá-las na nossa parede e desobstruir o lúmen para o sangue poder continuar a passar. Esquecer, acolher, tornar nosso o que até aí não era. Bem, só que isto não se faz sem dor… Por isso é que é bom acabar de ler essa página para perceber como é que se trata a angina até ao fim…
Contente por ter chegado ao fim de mais esta etapa. Mas essencialmente contente por a ter percorrido. Por ter caminhado. E por o ter feito assim, aos tropeções comigo mesmo, e com a ajuda indispensável, indispensável!, de tantos familiares, amigos e amigas, alguns encerrados como eu, outros nos mais variados contextos a recordarem-se constantemente desta cromita. Não sei mesmo agradecer, por isso, que Deus vos pague o bem que me fizeram e a ajuda no caminho. E desculpem tudo. Também o silêncio forçado, a aparente distância e as impaciências todas! E àqueles que se preparam para enfrentar o Adamastor, queria dizer: não tenham medo do que há-de vir, que é essencialmente mito. O Harrison pode tornar-se um bom amiguito. A vida é bem mais fácil do que estudar sobre ela e os doentes mais importantes que as doenças.
Como dizia o Torga, na vida o importante é partir, não é chegar. Hoje viro a página. É a 2755 da minha vida.
18 de Novembro de 2010, 18.20h
A todos os companheiros de hibernação
Hino aos dias normais
A mesma hora para levantar…
O mesmo esforço de ontem para viver o primeiro minuto do dia heroicamente…
O mesmo olhar à Virgem, que velou toda a noite…
E a oração de joelhos, ainda meia a dormir…
A voz doce do outro lado do telefone: “Bom dia! Estou na vida à tua espera!”…
E sai-se para o Mundo.
O mesmo caminho.
A mesma Igreja. Os mesmos companheiros.
Os mesmos dejectos caninos no passeio da Alameda.
O mesmo galo que canta de hora a hora em frente à biblioteca.
Leite com café e canela. Às vezes sem leite. Pão com compota. Partido daquela forma. Com laranja e canela a acompanhar.
Ainda são só as primeiras horas do dia e já tudo é como ontem. Excepto o dia do calendário. E as páginas do livro de estudo. Felizmente, essas vão variando…
A mesma hora de almoço. A mesma Visita. O mesmo estudo de tarde.
E os dias parecem cópias. Até a sms diz algo muito semelhante a qualquer uma da véspera: “… … … 1 abracinho do tamanho do Mundo… até já…”
Termina-se o trabalho. E o já chega. Arranjo-me por fora e por dentro. Um pouco do mesmo perfume e da maquilhagem em frente à porta de espelho. Os mesmos cabelos desordenados, sem jeito. Um adeus na capela.
O mesmo abraço, terno, terno, intemporal, “sconvolgente”, avassalador!...
E as palavras são as mesmas. Não temos outras!...
O mesmo tempo que escorre. O mesmo fim de dia.
Os rituais e as rotinas são pertença, são identidade. Poupam-nos tempo, que é importante para tantas coisas!... Fazem parte desse património individual único e irrepetível. Sem eles não nos sentiríamos em casa.
Os dias iguais trazem-nos segurança, confiança, domínio. Fugir deles por medo do cansaço seria como dormir cada noite numa cama diferente para não estar quente da noite anterior… Mas que bom é sentir o perfume do nosso champô na almofada!...
Os dias normais são a escola e o palco das virtudes. É aí que nós mais nos revelamos, porque aí passamos a maior parte da vida e aí se prova a perseverança. Bendita normalidade, sem festas, sem extraordinaridades, sem outra música que a tranquila brisa dos segundos que passam a cada instante e nos pedem que os agarremos.
Os apaixonados são os que mais se repetem. Porque são os que vivem mais intensamente. Mas os gestos e as palavras são limitados. Por isso necessitam repeti-los. São os mesmos, mas sempre diferentes. Não há dois olhares iguais, nem dois sorrisos iguais, nem dois abraços iguais. Só há este, de agora. Deve ser por isso que não cansa. Porque tudo é presente.
E escondido nas malhas dos dias iguais, descobre-se a intemporalidade, que é o presente elevado a infinito.
21 de Outubro 2010
As 25 lições que não se aprenderam nos livros...
1- Podemos dar muitas voltas na vida, andar por muitos locais bonitos, conhecer muitas pessoas, fazer muitas experiências… mas onde nós voltamos sempre no final das nossas lutas e vitórias e derrotas, é à nossa casa, onde habitam os nossos, que nos recebem sempre de braços abertos como se não tivéssemos partido, sem fazer perguntas.
2- Por vezes, a distância faz-nos ver realidades que a proximidade não nos permitia. É como aperceber-se de que é ao elefante que pertence a pele que antes tocávamos de tão perto, só porque nos afastámos uns metros. A distância fortalece os laços, se se aprende a tirar partido dela.
3- “Não saberás quanto valho enquanto não puder ser junto de ti aquilo que sou”, li num livro uma vez. Se por vezes parece que é com os que nos estão mais próximos que nos zangamos mais, isso é só porque a confiança e o à-vontade é tanto, que até o nosso lado lunar lhes mostramos, o que tentamos esconder dos outros olhares. Por outro lado, podemos cair também no erro de achar que conhecemos tão bem os que nos estão mais próximos, que não os deixamos ser quem eles querem ser, de tal forma os metemos na imagem que fizemos deles. É muito importante construir o próprio espaço da liberdade interior, pois só assim é possível amar sem ter que ser e não temer os que nos rodeiam.
4- O melhor anti-depressivo? Um tiramissú!...
5- Não há idades para aprender. Também as avós conseguem aprender a dizer good morning, e os pais criam blogs e paginas no facebook… Os resultados são menos animadores nas mães que tentam criar um email, mas alguma coisa se consegue com alguma paciência.
6- Aquele lugar a que chamamos casa, onde nos sentimos mesmo, mesmo à-vontade e onde podemos andar de pantufas, não é necessariamente de paredes físicas, mas fica no coração daqueles que nos amam. E a saudade? A saudade é essa nostalgia del ritorno a casa, essa certeza de poder regressar sempre, porque quem ama, espera. Espera sempre.
7- Realmente há gente limitada… cada um dá para o que dá… Uns sabem lavar pernas às irmãs mais novas, outras consertam persianas, outros esforçam-se por pôr a televisão a dar outro canal que não o eurosport… enfim… E por falar em irmãs… também aprendi que se deve comprar sempre roupa que sabes que as tuas irmãs vão achar pirosa. Nunca te desaparecerá.
8- Um pequeno-almoço com qualidade de vida toma-se sentado e inclui um capuccino com canela, uma laranja às fatias com canela e uma torrada de pão de sementes com doce de abóbora e noz que a Mãe faz, com canela. Não, a canela não tem efeitos adversos para a saúde.
9- E o que se deve fazer quando a tristeza me invade? Cantar o fado! Sim, não há nada que não tenha remédio com uma boa cantoria…
10- Quando te chamarem louco, responde-lhes que foram os loucos que conseguiram as revoluções da História. E mais: aos que estão nos nossos altares também lhes chamavam assim… Põe a tua loucura ao serviço dos outros e … vivam os loucos!
11- A Medicina é o trabalho mais bonito do Mundo. O homem chega a cada estado… é incrível!... Nem nós imaginamos a capacidade do nosso corpo para sofrer e para curar-se… E no seu maior sofrimento, na sua miséria e limitação, o homem descobre que a sua grandeza não está no que pode fazer ou produzir, que é tão pouco, mas está no que é em si mesmo, ainda que ninguém o reconheça. A humildade de saber-se pouco (e ainda assim valer muito) e estar sempre necessitado dos outros é das maiores lições que a doença nos oferece.
12- Nada acontece por acaso (esta tem direitos de autor).
13- Não se deve viver acima das nossas possibilidades e é preciso saber viver no pouco e no muito e estar preparado para tempos de guerra (esta também tem direitos).
14- Uma mulher completa tem que saber fazer de tudo, também rapel… Esta lição ia-me custando as entranhas…
15- Sim, é possível tomar um bom banho com litro e meio de água! E pôr champô por duas vezes!...
16- Vale a pena sonhar alto… mesmo alto… É que mesmo assim, ficamos aquém daquilo que a vida pode ser…
17- Não peças sempre tempo livre ou mais horas de sono… tens tempo de descansar no Céu.
18- Cada um tem a vida que escolhe. As circunstâncias externas são importantes, mas para todas as pessoas, a liberdade pessoal tem a última palavra. E esta, agarrada à vontade e à inteligência, são o que determina a resposta que nós damos às circunstâncias externas e que determinam o sucesso ou a infelicidade da nossa vida. Há quem viva como se estivesse dependente de um destino cego, como se tivesse de viver desta ou daquela maneira. Mas cada caminhante traça o seu próprio caminho. Lembra-te que quando ofereces resistência à vacina, dói mais.
19- Somos todos o produto daqueles que nos amaram ou deixaram de o fazer. Quando vires uma pessoa que te parece má, não a julgues. Não foi bem amada. É que nem todos podem dizer “Fui mal amado, mas sei amar…”
20- Sim, Deus existe, eu encontrei-O e não preciso de outras provas da Sua existência que a minha própria vida. Sei quem era e sei em quem me tornei depois que Ele passou por mim. E este Deus não adormece. Se se faz esperar, é porque para Ele não há tempo e esquece-se que aqui na terra os minutos custam a passar, especialmente quando estamos a aguardar por algo muito desejado… E outras vezes se nos parece que demora é só porque nós não soubemos reconhecer a resposta, é que não era bem aquilo que esperávamos…
21- Podemos dar muitas coisas, caras, lindas, preciosas… e não darmos nada. O que as pessoas mais querem de nós e o que nós menos queremos e sabemos dar é o nosso tempo. Mas lembra-te: as pessoas podem perceber que não tens tempo, mas que não percebam que não tens coração.
22- Não devemos ter medo de chorar e de rir, de abraçar e de cantar até pela rua, se a isso nos apetecesse… Afinal o nosso Pai é dono disto tudo! Ah, e como ninguém manda em mim e eu faço o que eu quiser!… Just do it.
23- Há coisas que não se vêem se não pelos olhos que já choraram. Não deixes de aproveitar as lágrimas para lavar os olhos.
24- As coisas boas da vida são boas. Mesmo boas! Bendito seja Deus pelas batatas fritas do MacDonalds e pelos filmes que nos fazem chorar… Não há nada bom demais para ser verdade!
25- Ficamos para sempre responsáveis por aqueles a quem cativámos. E não precisamos de 360 contactos no Facebook cativáveis, basta-nos um coração que nos queira, intemporalmente.
Para o ano há mais…
24 de Setembro de 2010
terça-feira, 20 de julho de 2010
O que te pesa?

E enquanto mergulho nos mistérios do nosso corpo (com tanta maquinaria, não sei como é que não andamos mais doentes!...) e preparo o exame que se avizinha, tinha de vos apresentar uns amigos, com quem aprendi muito.
Depois, o Sr. Manuel. A esposa está acamada há vários anos e ele, velhinho mas autónomo, vivia em casa com ela. Abre o lar e a esposa é internada. Ele está lá durante o dia e vai dormir a casa. De manhã à noite é o cuidador da sua Maria. Nunca vi enfermeiro mais dedicado. Molha-lhe os lábios secos, conta as horas para ver se a hora do iogurte a meio da manhã já chegou, controla-lhe a diabetes, aplica-lhe o creme e refila com toda a gente que falhe nos cuidados à esposa, de quem se ouvem raras palavras. Às vezes nem o reconhece e chama-lhe pai. E realmente é enfermeiro, pai, marido, irmão, companheiro de vida. Um dia perguntei-lhe pela saúde. E diz-me que está fino, que não tem nada. Que só está ali para cuidar da esposa. Que é para isso que vive. Enquanto abro a boca de espanto (a do coração, pois, que a outra teve de inquirir), pergunto-lhe como é que faz tudo isto, porquê?... E ele, com a maior das simplicidades, diz: “Ó menina, sabe, a minha mulher toda a vida cuidou de mim. Então não havia agora de cuidar eu dela? Quando eu precisei nunca faltou e olhe que já estive às portas da morte… Agora vivo para ela.” E só pude calar-me.
O Sr. João. Canta todo o dia. Velhinho, mas em boa forma, tem as doenças da idade e de uma vida de trabalho, nem sempre com os cuidados que precisaria. Diz sempre que está bom para ir para a cova, mas canta todo o dia. Não é preciso rádio na sala de estar. Uma após outra, não consegui descobrir onde vai buscar tantas letras. Canta histórias de amores e desamores, de guerra e partidas e chegadas, de mães e filhos, de apaixonados, de festas populares, de trabalho no campo... E assim, vai enchendo de música o lar. Mas, chega a hora da consulta. “Ó Sr. João, a sua tensão está muito alta e o açúcar nem se fale! As últimas análises mostram que anda a comer o que não deve… E como é que vamos diminuir o tamanho das suas pernas, quer dizer-me? Não anda a fazer o que lhe dissemos!…” O Sr. João, viúvo, vem só passar o dia ao Centro e dorme em casa. “Sabe, Sra Dra., eu sei que tem razão, mas… quem me conhece sou eu. E digo-lhe que se não fossem estas coisas, eu já cá não estava. E tem razão, não fiz o medicamento para urinar que me deu. É que sabe? Esta coisa de estar sempre a ter que ir fazer xixi!... É que eu faço como as meninas, tiraram-me o órgão… Ao que um homem chega!...” Estas coisas?... Meio litro de vinho com meio de coca-cola e uma chouriça em álcool, uns pastéis de bacalhau ou uma morcela, antes de ir dormir. É o seu momento do dia. “Se canto? São saudades, Sra. Dra!...”
Um dia uma amiga contou-me que lhe fizera uma impressão imensa quando, depois de uma crise, dessas que todo o ser humano tem, que mete algumas lágrimas, algumas dúvidas, alguma angústia, escura e sem saída aparente, se abeirou de alguém de quem procurou ajuda e ouviu: “O que te pesa?...” Nunca me esqueci desta. O que te pesa? Mas, quê?, isso interessa-te? Porque haveria de interessar?...
E enquanto os senhores engravatados se maltratam na Assembleia, o país real, esse que mora em terrinhas pequenas aos pés da Serra, que tem ovelhas para cuidar e não tem dentes nem esgotos em casa, que é fiel aos compromissos que assumiu para sempre, para sempre, que procura engolir a solidão de ser só mais um inútil com a coca-cola e o meio quartil, que só precisava de ser todo olhado e todo escutado, esse país de gente rija que ama o trabalho e sabe o que é lealdade, esse país sofre. A esses pequeninos que se dão aos mãos para se aguentarem na vida, onde talvez tu e eu caibamos também, nunca ninguém perguntou nada. Queres dizer-me tu? Amigo, o que te pesa?
Aos sábios velhinhos que me ensinaram a tirar pesos dos ombros dos outros
19 de Julho de 2010
sábado, 27 de março de 2010
Desculpa
Deus vagueia pelo jardim. Pensa, sofre, chora. E caminha. Está triste (Ele, que é a alegria em pessoa!). Como um cãozinho que esconde o rabo entre as pernas, aproximo-me Dele por trás e em surdina pergunto: “Senhor, o que tens? Porque choras?” Deus vira-se de repente e fita-me com aqueles olhos penetrantes que nos metem a nu, doces e genuínos.“Estou triste”, diz-me. “Triste, Senhor, mas porquê?”, pergunto apesar de imaginar a resposta.
“Foi a Eva. E o Adão. Não quiseram o que quis para eles. E agora estão assim, vês?...” E estendendo a mão, afasta uma nuvem que me impedia a visão e faz-me olhar para a Terra inteira. Não posso conter as lágrimas, porque o espectáculo é realmente desolador. E ao lado de Deus ajoelho-me assustada e triste. Conheço demasiado bem estas cenas, porque as vejo diariamente.
Mulheres sós, que choram. Homens sós, que gritam. Impaciências, discussões, falta de tempo, muita falta de tempo, cansaço, traições, egoísmos, invejas, palavras feias, gestos que doem, corpos usados, almas feridas. Crianças por amar. Pais que nunca foram crianças. Jovens perdidos que passam a vida a mexer-se, a dançar e a viajar, tal é a inquietação que os corrói… Adultos desiludidos que são miúdos grandes fartos de sofrer e de aguentar sozinhos, velhinhos deixados em qualquer canto rotulados de inúteis sobrecargas, doentes que não parecem pessoas, feios pela doença, despidos pelos homens.
Faz frio. Muito frio. E está tudo a meia-luz. E eu tremo. E choro. Por cada rosto triste que vejo. Raríssimas as caras serenas, as que exalam sorrisos, as que parecem felizes, as que vivem devagar. Correm todos tantos!...
Deus abraça-me com aqueles Seus braços paternos que não sentia há tanto tempo e segreda-me: “Não foi isto que pensei para vós. Para nós. Não era isto que eu sonhava. Estou triste, sim, porque vós estais tristes.” “Se soubessem o dom de Deus!… e aquilo que vos quereria dar!…”
“Que sonhavas, Senhor, que sonhavas? Onde é que errámos?” Deus aponta-me o homem. E a mulher. De costas um para o outro. Sozinhos. Vazios. E segreda-me que o problema começou na desconfiança. Que tinha sido destruída a relação primordial, a original, no seu mais íntimo. O homem e a mulher esqueceram-se de quem são, porque deixaram de se olhar. E deixaram de se olhar porque não suportavam a nova imagem que cada um deles tinha. Tinham perdido a imagem de Deus que cada um deles reflectia. Perderam a beleza original, a pureza primordial, a harmonia plena das suas potências, dos seus sentimentos. E feios, feios, muito feios, não se podiam olhar. Como perderam Deus, perderam-se a si. E os dois já não podiam ser aquela única carne, aquele “nós” que os faz plenos, que realiza a sua sede de comunhão, que sara o vazio de não encontrar “nenhum semelhante”. Já não eram semelhantes. Eram dois desconhecidos que desconheciam o caminho para casa. E não caminhavam mais lado a lado.
“Então, mas esta crise toda, começou aí, Senhor?”, perguntei eu ainda sem entender bem o alcance do problema.
No coração do Universo, no íntimo do pulsar da Criação está uma relação. A de Deus com a Humanidade. Imagem perfeita dessa era a do homem e da mulher. Estragou-se a segunda, porque se estragou a primeira. Mas a história não termina aqui.
Deus redimiu a primeira. É tão cara que custou o preço de um Deus. Mas assim, abriu as portas à segunda.
O amor do homem e da mulher precisa da Redenção. Estamos no beijo de Judas. Aproxima-se, porém, o Domingo glorioso da Ressurreição.
Haverá alguém que entenda esta linguagem, Senhor?
E enquanto me volta a abraçar ao Seu peito, ajoelhados sobre o Mundo, segreda-me que se alguns não entendem é porque não se ouviram o suficiente, já que o grito do “amor para sempre” explode em cada um desses rostos inquietos (“Eu sei o que é isso, Senhor, sei muito bem, também grita aqui dentro!...”).
O amor conjugal precisa de Páscoa.
Desculpa, Senhor, as Tuas lágrimas!
domingo, 7 de março de 2010
Parabéns Mulher!

Alegra-te, Mulher, porque se o Homem foi a última obra e o cume da Criação, tu foste o exagero da generosidade e da perfeição de Deus.
Vi-te, escondida, de joelhos a rezar. E nesse dia tinha discutido contigo.
Vi-te, em silêncio, ouvir palavras injustas ditas a ti, por aqueles a quem serves. Mais tarde disseste-me que isso não era aturar, era amar.
Vi-te acordar muitas, muitas vezes durante as noites, tão curtas para ti, para acudir à desorientação das velhinhas de casa, enquanto, no meu edredon, escondia a voz da consciência que me dizia que também eu me poderia ter levantado.
Vi-te levantar com as galinhas para preparar as refeições que eu levaria para os dias longe de casa, enquanto eu sonhava no meu sono não sei com quê.
Vi-te engolir em seco a lagrimazita que escorria ao canto do olho porque quem devia estar não estava. Nunca estava.
E nunca te ouvi uma palavra negativa contra ninguém. De casa ou fora de casa.
Vi-te emocionada até às lágrimas no dia em que consegui terminar aquele trabalho tão importante e tão bem cotado. E naquele outro em que ganhei o festival. E sinceramente, não percebi como se podia ficar tão feliz por algo que não nos pertencia.
Mais tarde entendi que tudo o que era meu te pertencia. Mais tarde percebi que é verdade o que diz a velhinha do Titanic: “o coração de uma mulher é como o oceano, não tem fim nem fundo, alberga muito segredos, muitas alegrias, muitas dores, que nunca ninguém poderá abarcar”. E percebi ainda que a vocação de qualquer Mulher, que o queira ser é esta: ser Mãe. Ser Mãe é não ter fronteiras no coração.
O Mundo está todo desarrumado. É como a nossa casa quando tu vais para fora. Falta-lhe a Mãe. Ao Mundo também lhe faltam Mães. Porque são as únicas que sabem realmente o que é… cuidar. A Mãe é aquela que cuida. Discreta. Serena. Sacrificada. Alegre. Elegante. Delicada. Magnânime. Senhora de si. Humilde. Nobre. Belíssima!
Não há nada como as mãos de uma Mãe! Bem, talvez o rosto. E o colo…
Obrigada Mulher! Obrigada Mãe!
Se há tanta gente fria e má, é porque nunca soube o que era ter uma Mãe. É por isso que não podemos parar.
Queridas amigas, Mulheres, Irmãs, Mães, que ao longo da vida se têm cruzado comigo, que me ensinaram o que é ser Mulher, ser Mãe, que me mostraram o caminho feliz de viver para servir, para cuidar, para dar a forma de lar a cada casa, o caminho feliz de aliviar as cargas dos que chegam, de mandar felizes os que partem, obrigada! Obrigada!
Não tenham medo. Da dor, da solidão, do sacrifício, da entrega, da fidelidade, do segundo plano. Porque a maior parte da vida passa-se nos bastidores. E para que o palco se mantenha aberto, não podem faltar as Mães.
Continuem assim, dignas, diferentes, porque Mulheres. O Mundo agradece. E eu também. Ambos precisamos de Mulheres sem medo de o serem. Não se esqueçam de quem são!
E é com o coração de joelhos diante da vossa grandeza que vos digo mais uma vez: muito obrigada!
À minha Mãe, às minhas Mães, às Mães de toda a gente, que mantêm no Mundo a lareira acesa



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